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Sandman:
Noites Sem Fim
(Sandman:
Endless Nights)

Chegou
recentemente nas livrarias de todo o país, a versão
brasileira de The Sandman: Endless Nigths ou Sandman:
Noites Sem Fim.
Feita
para comemorar os dez anos da criação do selo Vertigo,
a linha de quadrinhos adultos da DC, Noites Sem Fim marca
a volta do escritor inglês Neil Gaiman ao
universo de sua criação mais famosa: o Sandman, cujas
histórias estão sendo relançadas aqui no Brasil
pela editora Brainstore.
O
especial é estrelado pelos Perpétuos ou Sem-Fim, seres
que não são deuses nem humanos, nem mesmo anjos, e
sim entidades místicas que existem desde que o primeiro ser
consciente surgiu no Universo e permanecerão aqui até
que o último ser consciente pereça. São eles:
Destino (Destiny), Morte ou Desencarnação (Death),
Sonho ou Devaneio (Dream), Destruição (Destruction),
Desejo (Desire), Desespero (Despair) e Delirium (Delirium). Morfeu
é um dos diversos nomes adotados pelo Sonho, assim como Sandman.
Lançado
nos Estados Unidos em setembro, Noites Sem Fim foi campeã
de vendas e se tornou a primeira graphic novel a figurar
na lista de livros mais vendidos do New York Times.
Para
entender a importância dessa publicação, é
preciso entender um pouco quem é Neil Gaiman e o que foi
Sandman.
Neil
Gaiman pode ser considerado um dos mais importantes escritores de
fantasia da atualidade. Entretanto, ele começou sua carreira
como jornalista. Um dos seus primeiros trabalhos foi Violent
Cases, com um dos seus mais freqüentes parceiros de trabalho,
o artista Dave McKean. Graças a esse trabalho, ele e McKean
conseguiram uma vaga na DC e realizaram a minissérie Orquídea
Negra (que está sendo relançada no Brasil), sobre
uma obscura super-heroína da editora. A minissérie
possibilitou que eles alcançassem vôos maiores, Gaiman
passou a escrever a série mensal Sandman e McKean,
além de ser o capista oficial de Sandman e Hellblazer,
também realizou o especial Asilo Arkhan (relançado
pela Panini em 2003), escrito por Grant Morisson e estrelado pelo
Batman.
Além
de Sandman, Gaiman também é o autor de outros
quadrinhos, entre eles Livros da Magia (estrelado por um
jovem mago de 12 anos, dono de uma coruja e que usa óculos,
muito antes de Harry Potter aparecer), Miraclemen, Mr.
Punch, algumas minisséries estreladas pelos Perpétuos,
entre outras coisas. Atualmente, está escrevendo seu primeiro
trabalho para a Marvel Comics: 1602. E, para completar,
Gaiman já escreveu livros de contos e poesias (Fumaças
e Espelhos), séries de TV (Neverwhere), romances
de fantasia (Deuses Americanos e Belas Maldições),
fábulas para adultos (Stardust), livros infantis
(Coraline e Wolves in the Walls), além
de um trabalho para o rádio. Ganhou diversos prêmios
importantes, como o Eisner, o Hugo e o Nebula.
Já
Sandman, considerada a maior obra de Gaiman para os quadrinhos,
é uma das mais fascinantes histórias já publicadas
pela DC Comics, ganhando fãs fervorosos e entusiasmados ao
redor de todo o mundo. Alternando momentos de pura fantasia e poesia
com outros de um terror indescritível, Sandman ainda
tinha o acréscimo de citar diversas mitologias, clássicos
da literatura (em especial Shakespeare) e do cinema, trechos de
músicas, tudo sem parecer enfadonha ou intelectualóide.
E se não bastasse a ousadia nos textos, Gaiman ainda teve
a coragem de encerrar a série no auge do sucesso, com o brilhante
argumento de que uma boa história tem começo, meio
e fim, e um bom escritor sabe qual a hora de parar.
Na
realidade, Sandman não é uma criação
de Neil Gaiman. O personagem surgiu na década de 30 (a Era
de Ouro dos quadrinhos) e era um detetive chamado Wesley Dodds,
que usava uma arma de gás para colocar os bandidos para dormir.
Outras versões de Sandman se seguiram a essa, mantendo apenas
o nome em comum. Quando Gaiman assumiu a tarefa de relançar
o título, apenas aproveitou o nome e recriou totalmente a
personagem, seguindo por um caminho totalmente diferente dos seus
antecessores, contando a história de Lorde Morfeu, regente
do Sonhar e um dos sete Perpétuos.
Foi
graças ao trabalho de Neil Gaiman e seu Sandman,
assim como o de Alan Moore com Watchmen e Monstro do
Pântano, que os grandes estúdios descobriram que
adultos liam quadrinhos e gostavam de temas diferenciados e densos.
Sem Sandman e o Monstro do Pântano, não
teríamos sido presenteados com obras fenomenais como Hellblazer
(estrelado por John Constantine), Preacher (do polêmico
Garth Ennis), ou mais recentemente 100 Balas, de Brian
Azarello e Eduardo Risso, e o premiadíssimo Fables.
Voltando
a Noites sem Fim, a edição nacional, lançada
pela Conrad, é a primeira tradução mundial
deste trabalho de Gaiman e até recebeu a honra de ser mencionada
pelo próprio autor em seu site
pessoal.
Os
roteiros do álbum foram todos escritos por Gaiman e ilustrados
por diversos artistas diferentes:
Em
Morte em Veneza, temos duas histórias
paralelas porém interligadas. Nos dias atuais, um soldado
retorna à Veneza para tentar compreender um marcante momento
de sua infância, em que encontrou a Morte dos Perpétuos
nas ruínas de uma das ilhas dos canais da cidade. Tal encontro
mudou toda a sua vida e determinou suas escolhas, especialmente
a profissional. Ao mesmo tempo, na mesma ilha, tomamos conhecimento
de um dia que ocorreu a 200 anos atrás, mas que continua
se repetindo continuamente até hoje. Um conde, alquimista
renomado, lacrou sua mansão, impedindo a entrada do tempo
e da Morte em seus domínios.
História
fenomenal e intrigante. Apesar de não participar tão
diretamente da história, a presença da Morte permeia
toda a narrativa, e nos leva a refletir sobre a existência
da Morte como parte fundamental do próprio processo de viver.
Os
desenhos de P. Craig Russell, que já havia
trabalhado com Gaiman em Sandman, são competentes,
e merece destaque a sutileza com que ele usa traços diferenciados
para distinguir as passagens das história entre si, tornado
os momentos atuais mais realistas, os momentos do dia sem fim com
um ar falsamente romântico e as lembranças do soldado
com um ar lúdico e onírico.
A
segunda história do álbum, O Que Eu Experimentei
do Desejo, é narrada em primeira pessoa por
uma mulher, que, quando jovem, se apaixonara pelo jovem filho do
chefe de sua aldeia. Desejo dos Perpétuos também pouco
aparece diretamente nesta história, mas sua presença
é fundamental.
Na
realidade, na maioria das histórias de Noites sem Fim,
os Perpétuos não são diretamente abordados,
mas, ainda assim, todas elas conseguem transmitir exatamente o que
cada um deles é em sua essência.
Gaiman
não poderia ter escolhido um artista melhor para desenhar
a história de Desejo. Conhecido por seus trabalhos carregados
de um forte erotismo, Milo Manara utiliza toda
sua experiência para nos presentear com quadros belos, fortes
e sensuais, sem serem vulgares. O desejo é sentido em cada
quadro pintado como algo quase paupável pelo leitor.
Outro
grande destaque da história é seu surpreendente desfecho...
Em
O Coração de uma Estrela,
estrelado por Morfeu, o Sonho, somos transportados quase ao início
dos tempos. Morfeu leva sua consorte, Lady Killala da Luminescêcia,
do planeta Oa (o mesmo lugar de onde, futuramente, virão
os anéis energéticos dos Lanternas Verdes) para conhecer
seus familiares em uma convenção intergalática
entre estrelas, sóis, entidades míticas e afins.
Além
de ser uma singela história de amor, envolvendo alguns corações
partidos e outros renascidos, O Coração de uma
Estrela é um presente especial para os antigos fãs
de Sandman. Respostas importantes são dadas (como os motivos
das desavenças entre Morfeu e Desejo) e algumas participações
especiais são de acelerar o coração dos aficionados
pelo universo do Mestre dos Sonhos, como a presença de Deleite
(antes de virar Delirium) e da primeira Desespero.
A arte
do espanhol Miguelanxo Prado é belíssima,
dando á história um ar de a sensação
de conto de fadas bastante apropriado para a narrativa proposta
por Gaiman.
Quinze
Retratos de Desespero, magnificamente ilustrada por
Barron Storey, mostra, como o próprio título
aponta, retratos diferentes sobre Desespero. O primeiro é
uma descrição direta da Dama do Anel em forma de Anzol.
As demais são pequenas histórias de pessoas vivendo
situações desesperadoras. Talvez esta não seja
a melhor história do álbum. Não porque ela
seja ruim, mas porque ela cumpre bem demais sua proposta, transmitindo
uma angústia inonimável e quase insuportável
no decorrer da narrativa.
Adentrando,
história sobre a mais jovem dos Perpétuos, Delirium,
é, na minha opinião, uma das melhores do álbum.
O modo como Gaiman a estruturou parece um pouco confuso a príncipio,
mas essa era exatamente a intenção.
Nela,
Delirium se encontra perdida e ferida dentro de seu próprio
reino. Daniel, o atual Sandman, o corvo Matthew e Barnabás,
o cão guardião de Delirium, tentam reunir um exército
de loucos para resgata-la de dentro de seus domínios.
A história
é narrada da perspectiva dos loucos, sendo toda fragmentada
e muitas vezes indiferenciada. Os desenhos de Bill Sienkiewicz
seguem o mesmo padrão do texto de Gaiman, transmitindo uma
sensação de estranheza e certo desconforto. Na realidade,
o que eles conseguem é transmitir exatamente o que se passa
na mente de alguém mentalmente perturbado, incapaz de diferenciar
o que é real do que é mera fantasia, incapaz de distinguir
a si mesmo e aos outros que o rodeiam. Uma forma bastante original
e genial de mostrar quem (ou o que) é Delirium.
Em
relação ao Bill Sienkiewicz, eu já havia comentado
aqui no site que não gosto dele como arte-finalista, mas
como artista, putz, ele é fantástico. E nesta história
ele está fenomenal. Acho que não vejo um trabalho
dele tão bom desde Elektra Assassina.
Em
Na Península, a história
sobre Destruição, uma equipe arqueológica descobre
um sítio contendo artefatos muito singulares: utensílios
vindos do futuro.
Uma
das integrantes do grupo anda tendo pesadelos constantes sobre o
fim dos dias, que parecem estar conectados com suas descobertas
e também com outros dois forasteiros no lugar: um homem forte
e ruivo e sua irmã caçula, que na verdade são
Destruição e Delirium dos Perpétuos.
História
bacana e com a narrativa bastante convencional. Comparada com as
demais do álbum é a menos interessante, mas ainda
assim excelente.
Glenn
Fabry é quem acaba por nos surpreender. Conhecido
por suas capas para a série Preacher, ele se saí
muito bem nos desenhos, apesar de seu estilo ser um pouco mais clássico
que os dos demais artistas do álbum. A questão é
que raros são aqueles artistas que se dedicam principalmente
à pinturas e que conseguem trabalhar apenas com o lápis
com a mesma competência com que trabalham com os pincéis.
E Fabry prova ser uma dessas raridades.
E para
fechar a graphic novel, temos Noites Sem Fim,
ilustrada por Frank Quitely e estrelada pelo mais
velho dos Perpétuos, Destino.
Na
realidade, Noites Sem Fim não é uma história,
mas uma descrição ilustrada de quem é Destino
e sua função, e de quem são seus irmãos.
Enfim, um pequeno verbete ilustrado sobre o universo de Sandman,
mas feito de forma tão fluida e envolvente que quando a gente
termina de ler não consegue deixar de dizer: já acabou?
E os
desenhos de Quitely são de fazer o queixo cair e encher os
olhos de lágrimas de emoção. Perfeitos.
Além
de todas as grandes qualidades dessa obra, ainda vale ressaltar
o capricho da Conrad no acabamento da edição, com
capa dura e papel de primeira, não ficando nada a dever para
a versão americana em termos de qualidade. O preço
é um pouco salgado (R$ 59,00), mas compensa.
Só
tenho duas coisinhas a reclamar: uma foi o erro de impressão
na introdução feita por Gaiman, que mereceu uma errata
por parte da editora. A outra foi a exclusão de Belas
Maldições e Coraline na lista de livros
de Gaiman publicados no Brasil só porque não foram
editados pela Conrad.
Mas,
tirando isso, o trabalho foi impecável.
Sem
dúvida, este será o lançamento do ano no mundo
dos quadrinhos, não apenas pelo seu valor histórico,
mas também por ser o grande retorno de um grande autor a
uma grande personagem. E acontecimentos assim sempre merecem ser
celebrados.
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Sandman:
Noites Sem Fim
Roteiro:
Neil Gaiman
Arte:
Frank Quitely, P. Craig Russell, Milo Manara, Miguelanxo Prado,
Glenn Fabry, Bill Sienkiewicz, Barron Storey
Editora:
Conrad
Preço:
59,00
Cotação:
   
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