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Mangá
versus Comics
Por:
Katchiannya

Atualmente,
mais e mais publicações japonesas estão chegando
aqui no Brasil. Alguns anos atrás o mercado brasileiro era
dominado pelos quadrinhos americanos e o que vinha do Japão
para essas bandas geralmente eram quadrinhos japoneses mais adultos,
consagrados pela crítica, como Mai, a Garota Sensitiva,
Akira ou Lobo Solitário. Agora, as coisas
estão diferentes: os mangás publicados são
aqueles voltados para o grande público como Dragon Ball,
Cavaleiros do Zodíaco, Inu-Yasha ou One
Piece.
Essa
atual invasão nipônica traz de volta uma antiga e polêmica
questão: qual tipo de quadrinhos seria melhor: o americano
ou o japonês? Uma questão realmente polêmica
mas, sinceramente, creio que é totalmente inútil e
estúpida.
Existem
muitos fãs de quadrinhos americanos (comics) que
desprezam os quadrinhos japoneses (mangás) e vice-versa.
Do lado dos fãs dos comics, os argumentos geralmente
são de que a arte do mangá é um pouco infantilizada,
"com aqueles olhões grandes", a maioria das histórias
não tem sentido (ou nem existe história), nada é
resolvido ou explicado, entre outras coisas. Do lado dos fãs
dos mangás, as reclamações sobre os comics
não são tão diferentes. Para os otakus, as
revistas americanas são sempre iguais, só falam de
super-heróis, não têm um pingo de profundidade,
são maniqueístas, e por aí vai...
No
fundo, tanto os otakus radicais quanto os fãs radicais de
comics são idênticos. São pessoas preconceituosas
que só enxergam as qualidades daquilo que gostam e os defeitos
daquilo que não gostam, não respeitando a opinião
e o gosto alheio. Suas atitudes são imaturas e bitoladas,
nada muito diferente daqueles que apregoam que quadrinhos é
coisa de criança e só "um bando de adultos
frustrados e infelizes" lêem aquilo.
Eu
soube que um desses otakus radicais disse que mangás não
são quadrinhos, são uma forma de arte superior. Mangá
não é quadrinho? Por favor, é só olhar
em qualquer enciclopédia que você acha a seguinte denominação:
"história em quadrinhos é o nome que se dá
a uma série de desenhos relacionados entre si e que contam
uma história". Mangás são uma série
de desenhos relacionados entre si e contam uma história.
Preenche ou não os requisitos que denominam uma história
em quadrinhos?
Alguns
fãs de comics concordariam com a opinião
desse otaku, pois um deles, ao rebater a afirmação
acima citada, disse que realmente mangás não são
quadrinhos, pois não possuem história. É preconceito
e pré-conceito demais para uma pessoa só, e infelizmente
não é uma pessoa só.
Qual
quadrinho é melhor, o americano ou o japonês? A resposta
é simples: nenhum e, ao mesmo tempo, os dois.
Primeiro,
é preciso levar em conta que, querendo ou não, uma
história em quadrinhos, como qualquer forma de arte, é
influenciada pela cultura onde foi criada. Os heróis americanos
refletem a sociedade americana e também certos aspectos das
culturas ocidentais, nas quais cada indivíduo é valorizado
por suas conquistas pessoais - aquela velha história do cara
que "se fez sozinho", que construiu um império
financeiro do nada, por exemplo, ou o costume, ainda muito forte
nos Estados Unidos, de se estudar História através
da vida e atitudes de vultos históricos. É a exaltação
da figura do Herói , do Indivíduo. Em contrapartida,
no Japão, a soma das pessoas, o grupo em si e suas infinitas
possibilidades, é muito mais importante que a capacidade
de cada indivíduo isolado. Querendo ou não, isso acaba
se refletindo na forma como as histórias e as narrativas
são concebidas.
Outro
ponto importante é a proposta narrativa de cada estilo de
quadrinhos, que é completamente diferente. Nos quadrinhos
japoneses, a narrativa é quase cinematográfica (como
se fosse algo visto quadro a quadro). Os mangás são
feitos com o intuito de serem uma experiência visual. Já
os quadrinhos americanos são feitos para serem lidos, e possuem
uma quantidade muito maior de balões e recordatários
que os mangás. O texto é uma parte extremamente importante
da narrativa, não apenas como complementação
ao desenho apresentado, mas às vezes como forma de contraste,
para mostrar que a realidade interna da personagem é exatamente
oposta ao que percebemos exteriormente.
Nos
mangás, as expressões faciais e corporais transmitem
os sentimentos e a personalidade das personagens, utilizando inclusive
alguns recursos como a famosa gotinha de preocupação
ou embaraço ou o rosto vermelhão quando se está
encabulado; já nos comics, as expressões faciais e
corporais também transmitem o que se passa no coração
das personagens, mas os textos são utilizados para nos dar
os detalhes desse sentimentos.
Por
exemplo, em Samurai X nós sabemos quando Kenshin
está mais próximo de sua personalidade de retalhador
pela forma como seus olhos são desenhados; já nas
revistas do Homem-Aranha, quando Peter começa a
raciocinar como super-herói, geralmente tem-se um close em
seu rosto, que apresenta um olhar preocupado ou alheio ao que se
passa ao redor associado a um balão ou recordatário
que mostra seus pensamentos sobre os problemas que precisa enfrentar.
Outro exemplo ainda relacionado com os dois heróis: caso
Kenshin se lembre ou se preocupe com Kaoru ou com seus amigos do
dojo, é quase inevitável a representação
dessa lembrança em forma de desenho, enquanto se Peter Parker
pensa em Mary Jane ou em seus amigos e família, a lembrança
pode até surgir de forma visual ou não, mas há
sempre um texto associado a essa lembrança.
Qual
seria a melhor forma de construir e mostrar o mundo interno dos
personagens? Como disse, isso depende da proposta e do contexto
da história. Parem e pensem: seria muito estranho e talvez
um pouco ridículo, levando em consideração
tanto o formato do comics como o do mangá, se Peter
se expressasse emocionalmente como Kenshin o faz e vice-versa.
Outro
ponto que não podemos deixar de considerar diz respeito ao
mercado de quadrinhos. No Japão, a grande maioria da população
lê quadrinhos, de modo que eles são divididos pela
idade e pelo sexo do leitor, e o tom das histórias também
segue esse padrão. Já nos Estados Unidos, a grande
parcela de leitores de HQ é composta por adolescentes do
sexo masculino, geralmente por jovens entre quinze e vinte cinco
anos. Outro grupo de leitores americanos é aquele que lê
os chamados "quadrinhos adultos" e/ou "quadrinhos
alternativos". Neste grupo, temos principalmente os leitores
de uma faixa etária superior aos já citados (acima
dos 25 anos), mas alguns mais jovens também. Acredito que
também o tipo de mercado acabe influenciando o tipo de história
criada. Inclusive - reparem bem aqui no Brasil, cujo perfil de leitores
de quadrinhos é semelhante ao americano - temos muito mais
quadrinhos comerciais americanos (super-heróis) e mangás
shonen ("mangás para garotos") sendo publicados
que quadrinhos americanos adultos ou alternativos e mangás
shoujo - para garotas.
Quanto
às críticas de fãs de um estilo ao outro, vamos
comentar por partes. Primeiro, as críticas dos fãs
de quadrinhos americanos aos mangás:
A arte
do mangá é infantilizada? Não creio. Existem
mangás que seguem um padrão de desenho clássico,
mais próximo da realidade. Muitas vezes tão realistas
que chegam a chocar. É só dar uma olhada em trabalhos
como Mai, a Garota Sensitiva, Lobo Solitário,
Crying Freeman ou em trabalhos mais recentes como Vagabond
ou Blade of Imortal. Mesmo em animes mais estilizados como
Sakura Card Captors ou Samurai X, o traço
não pode ser considerado infantil, é apenas um reflexo
da faixa etária e sexo a que são destinados. Os olhões
(por favor!) eles nada tem a ver com um complexo dos japoneses por
terem olhos pequenos, mas são sim um recurso para expressar
a personalidade das personagens: quanto mais jovem e/ou inocente
maior é o olho da personagem. Esses olhões foram introduzidos
por Osamu Tesuka, o mais importante artista de mangá de todos
os tempos, e são baseados nas máscaras do popular
teatro kabuki. Além disso, existem desenhos americanos cujo
estilo é denominado toon ou cartoon, que são influenciados
pelos desenhos animados americanos, como por exemplo, os desenhos
de Erik Larsen (Savage Dragon, Homem-Aranha) ou
de Jeff Smith (Bone), e nem por isso suas histórias
são infantis (quem já leu Bone sabe que infantil
é o último adjetivo a se dar ao título).
As
histórias japonesas não têm sentido? É
claro que têm, depende muito da história. Não
é possível afirmar que histórias como Vagabond
ou Lobo Solitário, de cunho mais realista e com
uma narrativa mais linear, sejam sem sentido. É claro que
existem casos como Evangelion (pelo menos o anime, uma
vez que o mangá não foi ainda encerrado) ou Akira,
que possuem certas discussões metafísicas, ou em Preto
e Branco, um mangá mais alternativo, cujas construções
narrativas fogem um pouco do convencional e exigem uma participação
maior do cérebro do leitor, e que também acabam por
causar um certo estranhamento. Mas isso também podemos encontrar
em alguns trabalhos do selo Vertigo (HQ adulta) da DC, e num grau
muito maior nos quadrinhos underground americanos. O que
acontece também é que as relações entre
as personagens do mangás são cheias de sutilezas e
nuances, e certos aspectos ficam subentendidos, mas isso tudo reflete
as próprias relações pessoais entre os japoneses.
Para eles, por exemplo, um beijo na boca é tratado com relevância,
sendo considerado o primeiro passo para a relação
sexual e ato particular. É uma característica cultural
e deve ser respeitada.
Agora,
vamos às críticas dos fãs de mangás
aos quadrinhos americanos:
Quadrinhos
americanos são sempre iguais, só falam de super-heróis?
De forma alguma. Existe um universo de quadrinhos americanos que
é muito pouco conhecido aqui no Brasil. Existem quadrinhos
alternativos que vão desde histórias policiais, de
ficção, de temas de terror ou bizarro até àquelas
que contam histórias sobre gente comum, como qualquer um
de nós. Mesmo dentro dos quadrinhos comerciais existe uma
variabilidade de temas, como a linha de quadrinhos adultos da DC
Comics, a Vertigo, cujas histórias vão desde um ultra-realismo
violento até temas de magia e fantasia. O que acontece é
que muito pouco desse material chega ao Brasil, e quando chega fica
restrito a lojas especializadas.
E mesmo
dentro dos quadrinhos de super-heróis, existem novas formas
de explorar esse tema supostamente batido. É só dar
uma conferida em obras como Astro City, Authority
(a fase do Mark Millar, que é genial) ou Starman.
Sem falar é claro, do magnífico trabalho que Mark
Millar e Brian Michael Bendis andam fazendo na linha Ultimate
da Marvel, em especial o de Millar nos Supremos. Além
disso, dentro dos mangás existem também temas que
se repetem, tais como a história de um rapaz tímido
que é o alvo da paixão de várias garotas (Vídeo
Girl Ai, Tenchi Muyo, Oh My Godess!, Love
Hina), ou uma garotinha que é escolhida para ser uma
guerreira defensora da verdade e da justiça (Sailormoon,
Corrector Yue) ou um grupo de rapazes que possuem armaduras
ou algo do gênero (Cavaleiros do Zodíaco,
Samurai Warriors, Shurato), ou um(a) garotinho(a)
que tem um bichinho ou um robô ou uma boneca ou algo parecido
que enfrentam outros do mesmo tipo, e ficam mais fortes a cada batalha
(Pokemon, Medabot, Angelic Layer), e
por aí vai. Tudo bem que essas variações sobre
o mesmo tema nos mangás não são tão
gritantes quanto a das HQs americanas de super-heróis, mas
existem.
As
revistas americanas não têm um pingo de profundidade,
são maniqueístas? Bem, talvez (e ainda quero ressaltar
o talvez...) nos primórdios dos quadrinhos americanos, muitas
das histórias não desenvolvessem profundamente as
personalidades das personagens e as coisas fossem mesmo preto no
branco (os heróis são sempre bons e os vilões
são sempre maus), e houvesse sempre uma lição
de moral. Mas, mesmo naquela época, já existiam quadrinhos
em que as coisas já não eram tão claras assim,
como as revistas pulp (O Sombra, por exemplo),
ou o magnífico trabalho de Will Eisner com seu Spirit
ou, por exemplo, o caso do Príncipe Valente de Hal
Foster, que acabou se casando com Aleta, que supostamente era uma
vilã da história. Com o passar do tempo, principalmente
a partir das décadas de sessenta e setenta, os aspectos psicológicos
e emocionais das personagens de quadrinhos americanos foram sendo
aprofundados e mais trabalhados. Por exemplo, Peter Parker, o Homem-Aranha,
é motivado a se tornar herói pela culpa que sente
pela morte do tio que o criou (culpa justificada, por sinal). Ou
Magneto, o arquiinimigo dos X-Men, que prega uma revolta radical
dos mutantes contra seus perseguidores humanos, o que é de
certa forma justificado pelo seu passado como prisioneiro de um
campo de concentração, uma vez que ele não
deseja que ocorra com a raça mutante o mesmo que ocorreu
com os judeus - não estou dizendo que concordo com Magneto,
mas seu posicionamento é tão complexo e espinhoso
de se julgar como o de grupos terroristas que existem no mundo real,
dadas as devidas proporções, é claro. Sem dúvida
que tanto os mangás quanto os quadrinhos americanos mais
comerciais possuem uma característica de escapismo inerente
a eles que não permitem um aprofundamento maior que o necessário
para o desenvolvimento da história, mas isso já é
uma outra discussão.
No
fim das contas, não dá para dizer qual tipo de quadrinhos
é melhor, pois isso depende muito do gosto de quem lê.
Além disso, embora utilizem o mesmo princípio básico,
uma seqüência de desenhos que contam uma história,
existem todas essas características próprias dos comics
e dos mangás, que eu já citei, que tornam esses estilos
únicos.
É
claro que tanto no universo dos quadrinhos nipônicos quanto
no dos norte-americanos existem muitas porcarias sendo produzidas.
Como a publicação de comics de super-heróis
é mais tradicional no Brasil, é muito mais provável
termos acesso às porcarias dos Estados Unidos que às
dos Japão. Mas as porcarias japonesas existem sim, é
só dar uma lida em Guerreiros Errantes, lançado
pela Mythos, e ver que nem tudo que vem da terra do sol nascente
é ouro.
Sei
que muita gente vai se sentir ofendida por esse artigo, mas quero
deixar que não estou tomando partido. Eu sou fã e
colecionadora tanto de quadrinhos americanos como de quadrinhos
japoneses, e como crítica e fã consigo ver as qualidades
e os defeitos de cada estilo. O que me irrita são as pessoas
que criticam os mangás ou os comics sem ao menos
lerem o que criticam, ou tomando por base trabalhos medíocres.
É a eles que dedico este texto.
Para
aqueles que criticam mangás, recomendo a leitura de obras
como Akira, Mai, Vagabond, Lobo Solitário,
Samurai X, Crying Freeman e especialmente de Gen,
Pés Descalços, que é o oposto do estereotipo
de mangá, além de ser uma obra belíssima e
sensível. É uma pena que pouco desse tipo de trabalho
de quadrinhos japonês chegue aqui.
E para
quem critica os quadrinhos americanos, recomendo Sandman,
Starman, Preacher, Watchmen, Os Supremos,
além de quadrinhos mais alternativos como Bone,
Estranhos no Paraíso, Love and Rockets,
Balas Perdidas, Maus ou trabalhos de artistas
underground como Robert Crumb e Daniel Clowes. Leiam antes de criticar,
mas critiquem de forma construtiva, não de modo ofensivo
e agressivo. Fanatismo não é a solução.
Apoio:
Banca Nona Arte (31) 9652-4091
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