GABINETE DO KAS #09




Seguem algumas resenhas de DVDs que estavam guardando poeira aqui no GABINETE, algo que eu vou procurar fazer mais vezes de agora em diante. São comentários rápidos, mais impressões do que resenhas propriamente ditas, sobre títulos diversos, que vão de uma adaptação de quadrinhos a um épico inglês, passando por três momentos da carreira de Dirty Harry.

Resenhas

Dick Tracy

Versão para o cinema das tiras de Chester Gould, DICK TRACY não é sua adaptação de quadrinhos padrão. Aliás, me surpreende muito a Disney ter bancado um filme tão caro e com tão poucas chances de retorno comercial, algo que só foi possível na febre que se seguiu ao sucesso do primeiro Batman de Tim Burton. Quem procura ação ininterrupta, edição alucinante e efeitos visuais de última geração vai se decepcionar. DICK TRACY está mais para os seriados cinematográficos da década de 40 e 50 que para os super-heróis anabolizados da geração pós-Marvel. E dá-lhe um desfile de rostos (ir)reconhecíveis sob pesada maquiagem (Al Pacino, James Caan, Mandy Patinkin, Dustin Hoffman e Paul Sorvino entre eles), efeitos e narrativa à moda antiga, e um visual de primeira, cortesia da equipe oscarizada de Vittorio Storaro, Milena Canonero e Richard Sylbert, além dos estilizados matte paintings produzidos por Harrison Ellenshaw, filho do grande Peter Ellenshaw. O roteiro é bobinho, mas Warren Beatty recria o mundo bidimensional de Tracy com tanto cuidado que a gente até perdoa a falta de paixão que permeia a realização. Todo o elenco segura bem o clima pulp, com exceção de Madonna, na época acreditando ser a reencarnação de Marilyn Monroe. O DVD possui boa qualidade técnica, mas é totalmente desprovido de extras.

Joe Kidd

É curioso a forma como Clint Eastwood surge logo no início desse western, vestido como um dândi e acordando de uma bebedeira, numa cela de prisão. Mas logo o astro volta ao estilo clássico, o do pistoleiro maroto e calado, que involuntariamente, se vê metido em uma briga entre colonos mexicanos (liderados por John Saxon) e um poderoso senhor de terra (Robert Duvall). O veterano John Sturges, já debilitado fisicamente, não exibe aqui a mesma vitalidade encontrada em outros westerns comandados por ele, como os clássicos Sem Lei, Sem Alma e Sete Homens e um Destino, mas ainda assim conduz a trama com simplicidade e competência técnica (a bela foto é de Bruce Sturgees), só se comprometendo na conclusão desgovernada. DVD isento de extras.

Fuga de Alcatraz

Me incomoda muito essa mania das distribuidoras nacionais de mudar o título do filme quando lançam em DVD. Foi assim com Cinzas do Paraíso (que virou Dias de Paraíso), Relíquia Macabra (que em video ganhou a tradução mais fiel de O Falcão Maltês) e esse Alcatraz: Fuga Impossível, que em DVD virou FUGA DE ALCATRAZ. Tudo bem que são traduções mais acertadas que as ganhadas anteriormente, mas se o filme já foi consagrado com outro nome, pra quê mudar nessa altura do campeonato?

Esse thriller de prisão comandado com mão segura por Don Siegel é responsável pela instituição de praticamente todos os clichês do gênero, que seriam banalizados posteriomente numa série de filmes e séries semelhantes. Mas FUGA DE ALCATRAZ ainda mantém o charme e a tensão, principalmente graças ao trabalho de Siegel, cujo estilo seco influenciou profundamente o cineasta Eastwood. Já o astro Eastwood está aqui no auge de sua forma, tornando crível a fantástica (e segundo o filme, verídica) história do primeiro sujeito a fugir da prisão de Alcatraz. E pensar que anos mais tarde a diva Michael Bay utilizaria o mesmo cenário para cometer A Rocha... Pena que a Paramount lançou um DVD sem extras, som mono e com transferência não-anamórfica.

As Pontes de Madison

Este romance temporão marcou de vez as experiências do diretor Eastwood fora dos gêneros que o consagrou. Os anteriores Bird, Coração de Caçador (quando é que a Warner vai lançar esse por aqui?) e Um Mundo Perfeito já apontavam uma inquietude ainda que discreta no cineasta, que é comprovada aqui. A trama, que nas mãos de um diretor menos competente viraria um dramalhão auto-ajuda de sábado à noite, ganha com o estilo depojado de Eastwood uma honestidade rara nos dramas românticos atuais. É curioso observar também o embate estre o estilo naturalista do ator Eastwood e a técnica camaleônica de Meryl Streep. Ainda que se estendendo demasiadamente na trama paralela que envolve os filhos da personagem de Streep, AS PONTES DE MADISON (produzido pela Amblin, de Spielberg) é seco e saboroso como um bom brandy. DVD tecnicamente competente, um dos primeiros lançados pela Warner, o que justifica a falta de extras.

Força Sinistra

Mathilda May disputou, por esse filme, o posto de rainha da minha pré-adolescência com Nastassja Kinski. Ela é uma vampira espacial pouco pudica encontrada por uma nave terráquea na cauda do cometa Halley, aquele que ninguém viu, quando este passou perto da Terra há quase vinte anos atrás. A direção de Tobe Hooper não é isenta de falhas (como no uso excessivo de fusões na sequência em que os astronautas entram na nave alienígena, desperdiçando os ótimos efeitos de John Dykstra), mas tem o mérito de encenar a trama elaborada pelos especialistas Dan O'Bannon (Alien) e Dan Jakoby (Vampiros de John Carpenter) como um filme de vampiro clássico, com direito a caixões, estaca, erotismo, morcegos e o embate final dentro de uma catedral gótica. Mathilda May, que passa boa parte do filme como veio ao mundo, está absolutamente deslumbrante, numa homenagem mais que bem vinda às vampiras desavergonhadas da Hammer. Hooper e Dykstra voltariam a colaborar no remake de Invasores de Marte, com resultados bem mais modestos. O DVD peca pela imagem não-anamórfica e pela falta de contraste nas cenas mais escuras, mas traz a versão sem cortes do filme.

Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar)

Partindo de um sério livro científico, Woody Allen realizou este filme de episódios, que da obra original, guarda apenas os títulos de seus capítulos, como "O que é sodomia?", "Todos os travestis são homossexuais?" e "Os afrodisíacos funcionam?". Daí em diante é a comédia demolidora de Allen em ação, com resultados irregulares (o primeiro episódio, o do Bobo da Corte que sonha em faturar a rainha sem saber que obstáculos maiores que sua condição social os separam, é o mais fraco). Mas o filme possui idéias e piadas sensacionais, que tornam antológicos alguns episódios (como aquele com o programa de auditório e o que fecha o filme, que mostra o funcionamento do corpo humano durante uma relação sexual). De quebra, Allen reúne um elenco sensacional para esta deliciosa brincadeira, como Burt Reynolds, Anthony Quayle, Lynn Redgrave, Tony Randall, Jay Robinson, Gene Wilder e John Carradine (que faz o cientista louco que cria um "monstro" pra lá de apetitoso). A abertura e a conclusão, ao som de "Let's Misbehave", de Cole Porter, é brilhante.

Zulu: Edição Especial

A batalha de Rorke's Drift está para a Inglaterra assim como a do Álamo está para os EUA: em 1879, 110 soldados britânicos sitiados em uma missão na África do Sul enfrentaram mais de 4000 guerreiros zulus. ZULU, que registra este episódio, é também uma das mais bem sucedidas superproduções inglesas da história. Levada a cabo pelo astro e produtor Stanley Baker, o filme é uma instituição para o público britânico, o que pode ser conferido no ótimo documentário que acompanha esta bela edição da Paramount. Dividido em duas partes que totalizam quase cinquenta minutos de entrevistas com alguns membros do elenco e da equipe, além da viúva de Baker, o documentário passa bem a idéia da criação assim como da longevidade de ZULU, principalmente em solo inglês. Competindo com 007 Contra Goldfinger nas bilheterias, o filme recuperou seu investimento em apenas três semanas, tornando-se um dos maiores sucessos da história do cinema inglês.

Revendo hoje ZULU, nessa magnífica cópia restaurada, que recupera a espetacular fotografia original, o filme dirigido pelo cineasta americano Cy Endfield (de A Ilha Misteriosa, de Harryhausen), que fora perseguido pelo marcathismo e na época se encontrava exilado na Inglaterra, mantém o vigor, as grandes interpretações (tornou astro o então jovem Michael Caine, no papel de um oficial petulante) e possui quatro ou cinco cenas memoráveis. É impressionante que, mesmo tratando de um evento histórico que toca fundo no orgulho britânico, os realizadores tratem o povo Zulu com dignidade. A sequência inicial, que mostra um ritual de acasalamento zulu, ainda impressiona pela autenticidade. De resto, temos grandes personagens (o meu favorito é o Sargento Bourne, vivido com altivez por Nigel Green), a trilha sonora inesquecível de John Barry, sacrifícios heróicos, lances de dor e medo e eficiente tensão nos momentos que atencedem a batalha (que poderiam muito bem ter inspirado Peter Jackson na criação da batalha do Abismo de Helm). O DVD ainda conta com trailer de cinema e comentários em áudio legendados do historiador Sheldon Hall e do diretor de segunda unidade Robert Porter. Merece ser conhecido.