GABINETE DO KAS #05



Com o empolgante trailer de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban brilhando na WEB, nada mais oportuno que dar uma revisitada no primeiro filme da série, assim como no primeiro longa americano do mexicano Alfonso Cuarón, responsável pelas rédeas da nova aventura do bruxo mirim na telona.

Harry Potter e a Pedra Filosofal (R1)

Peguei meio que com atraso o fenômeno Harry Potter. Só fui ler os livros depois que estes já tinham se tornado best-sellers mundiais e o primeiro filme já havia sido anunciado. E como bom fã de fantasia e mistério, devorei logo os quatro primeiros volumes e adorei o que eu li. Claro que a série Harry Potter (e aqui já começo a comprar briga com os fãs mais fanáticos do personagem) está longe de ser uma obra-prima como os escritos de Tolkien, Mallory, Carroll e outros gigantes da fantasia, mas a narrativa empolgante e envolvente de J. K. Rowling é uma das mais divertidas e despretensiosas leituras que fiz nos últimos anos.

Para quem cresceu lendo os livros da Coleção Vaga Lume e os whodunit de Agatha Christie, as aventuras de Harry Potter possuem saborosa nostalgia. Ajuda as tramas serem situadas na Inglaterra, pois este ingrediente britânico sempre me pareceu adequado para tramas de mistério. Sem falar no humor, o meu favorito.

Enfim, após ler os livros, passei a acompanhar as primeiras notícias da adaptação cinematográfica com muito mais interesse. Imediatamente fiz minha lista de cineastas favoritos para comandar a empreitada: Terry Gilliam, Peter Weir, Neil Jordan, Terry Jones, Guillermo Del Toro... Qual não foi minha decepção quando a Warner optou pelo insosso Chris Columbus, a síntese do diretor americano de estúdio, sem personalidade nem criatividade, que joga sempre seguro, sem ousadias formais e temáticas. Logo para adaptar uma saga que pede por criação visual e narrativa.

Sem falar que Columbus na época estava no ponto mais baixo de sua carreira já pouco memorável, realizando bombas como Nove Meses, Lado a Lado e o intragável O Homem Bicentenário. Se o diretor já havia conseguido transformar o sucinto conto de Isaac Asimov em um chatíssimo longa de mais de duas horas e meia de duração, imagine o que ele iria fazer com o primeiro livro de Potter, episódico por natureza.

Pra piorar, Columbus nunca havia acertado na direção, após uma carreira louvável como roteirista, onde foi responsável por alguns dos primeiros sucessos da Amblin: Gremlins, Os Goonies e O Enigma da Pirâmide. Esqueceram de Mim 1 e 2 e Uma Babá Quase Perfeita não me pareciam argumentos convincentes para que a Warner confiasse aquela que seria sua maior franquia nas mãos de Columbus, principalmente quando havia cineastas muito mais adequados interessados no projeto, inclusive alguns que eu citei lá em cima. Claro que temos de levar em conta o sucesso financeiro destes dois filmes e isto parece ser a principal razão para ele conseguir o emprego.

HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL é ao mesmo tempo uma conquista e uma decepção. Começando pelo lado positivo, Columbus acertou em se cercar da melhor equipe que o dinheiro pode comprar: John Seale (O Paciente Inglês, Cold Mountain) na fotografia, Stuart Craig (Gandhi, O Paciente Inglês) na direção de arte, Richard Francis-Bruce (As Bruxas de Eastwick) na montagem e John Williams na trilha sonora. E todos tem espaço para fazerem o que sabem fazer melhor. Visualmente, este é o filme mais rico de Columbus. A imponência de algumas imagens não tem correspondente no trabalho anterior do diretor. Ainda que este não aproveite, talvez por inexperiência em filmes fantásticos, todo o potencial de sua equipe, A PEDRA FILOSOFAL enche os olhos a maior parte do tempo. Ressalvas podem ser feitas aos efeitos visuais (criados por diversas companhias, como ILM, Sony Pictures Imageworks e Mill Film), alguns apressados e inadequados, principalmente em uma produção deste porte. Como um garoto que acaba de descobrir um novo brinquedo, Columbus abusa dos efeitos digitais, com resultados nem sempre convincentes. O troll, por exemplo, é uma vergonha, principalmente comparado ao que vimos logo depois em O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, mas comparar com a obra-prima de Jackson já é injustiça. O fato é que Chris Columbus surpreendeu positivamente ao visualizar as aventuras de Potter tal qual os leitores da série, e foi bem sucedido na materialização deste universo.

Outro fator bem sucedido foi a escolha do elenco. A produção bateu o pé e optou por escalar apenas atores britânicos para os papéis centrais. O casting não poderia ser melhor. Para interpretar os personagens adultos, temos um quem-é-quem das telas e dos palcos ingleses, como Richard Harris, Maggie Smith, Alan Rickman, John Hurt, Ian Hart, Robbie Coltrane, Julie Walters e John Cleese. Só não estão aqui aqueles que já haviam embarcado em O Senhor dos Anéis ou que viriam a aparecer nas aventuras subsequentes. São tantos grandes nomes que mesmo com a grande duração do filme não há tempo suficiente para que todos tenham tempo de projeção devido. Mesmo assim Harris, Smith e Coltrane exibem a competência costumeira. Apenas Rickman (foto acima), perfeitamente escalado e caracterizado, sai prejudicado pela direção, tornando-se uma pálida e por vezes patética versão do ameaçador Prof. Snape. Já os personagens mais jovens, apesar de menos ilustres, foram igualmente bem escolhidos. Selecionados dentre milhares de candidatos, Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, entre outros, parecem ter sido criados em laboratório para os papéis, tal a adequação física e a empatia. Obviamente nem um deles exibe dotes artísticos excepcionais, mas dão conta com glória de seus personagens.

Outra dificuldade superada por Columbus e pelo roteirista Steve Kloves (Garotos Incríveis) foi a natureza episódica dos romances de Rowling, principalmente desta primeira parte que, como toda origem, tem a obrigação de introduzir os personagens (que são muitos), os conflitos e todo um universo que possui suas próprias regras, de modo a seduzir o público leigo sem porém enfastiar os fãs. O resultado final, pela própria opção dos realizadores em serem o mais fiel possível ao material original, mantém a narrativa episódica, mas nem por isso entedia o espectador. Claro que uma adaptação mais precisa teria eliminado várias das sequências existentes no livro e reproduzidas no filme, ou mesmo transformado-as em algo mais diretamente relacionado com a trama principal, mantendo o ritmo da aventura.

Por outro lado, a fidelidade ao texto não quer dizer fidelidade ao espírito. E é aí que Columbus confirma meus temores iniciais. O trunfo de Rowling é medir com precisão, a cada aventura, o dia a dia de Hogwarts com a trama policialesca, com Harry e seus amigos envolvidos em mistérios muitas vezes intrincados, com pistas falsas e todos os ingredientes que fazem a festa dos fãs de histórias de detetive. Pra mim, Harry Potter é uma mistura bem equilibrada de Tom Sawyer Detetive com Os Livros da Magia, com o clima de O Enigma da Pirâmide. O que torna a trama absorvente para os adultos é exatamente a tensão e o humor que caminham lado a lado na narrativa de Rowlings. E é exatamente tensão e humor que saem prejudicados pela direção medrosa de Columbus. Este procura adocicar ao máximo a trama, evitando as alusões a temas polêmicos como o racismo, presentes na obra original, assim como as cenas mais assustadoras. Quem leu o livro sabe que tem momentos bem arrepiantes em todas as aventuras de Potter, até mesmo nesta primeira, considerada a mais light. Estes momentos inexistem no filme. A tensão e o suspense presentes na obra original, onde o mistério por trás dos acontecimentos é sempre enigmático e instigante, também foram esquecidos por Columbus. Mesmo a revelação final do malfeitor nem chega a ser verdadeiramente surpreendente. Outro pecado é a ausência quase completa do delicioso humor britânico que pontua os livros de Rowling. Os realizadores limaram quase que por completo a participação dos irmãos anárquicos de Ron Weasley, os gêmeos George e Fred. Com isso, este primeiro capítulo cinematográfico da saga de Potter compromete a emoção e a magia em função de uma aparente vontade de apenas criar ilustrações em movimento das páginas do livro, quase como aquelas fotografias pouco estáticas que aparecem na história. Na ânsia de não perder nada que foi contado por Rowling, faltou espaço para o coração.

Em alguns momentos, o diretor se aproxima da emoção genuína e nos lembra o que o filme poderia ser, como no reencontro entre Harry e seus amigos após este sair da enfermaria; e na despedida de Harry de Hagrid e de Hogwarts. Mas são momentos esparsos e raros em um filme com duas horas e meia de duração.

HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL, apesar de falhar em conquistar novos adeptos ao culto à série, é uma introdução digna, ainda que decepcione os fãs de grande cinema ou os que conhecem todo o potencial da obra original. Em muitos pontos o filme me lembra Os Goonies: uma grande premissa, um grande casting e ótimos valores de produção prejudicados por uma direção pouco inspirada (naquele caso, do geralmente talentoso Richard Donner), mas que ainda assim guardam méritos suficientes para merecer um lugar no Gabinete. E todos os problemas do filme nem de longe justificam o desprezo da Warner em lançá-lo em DVD no Brasil somente em tela cheia. Ainda mais que o filme melhora quando revisto no formato.

Sendo assim, a cópia analizada para esta resenha é a americana, em belo widescreen anamórfico 2.35:1. Como era de esperar, a transferência de imagem é mais que digna, superando as dificuldades causadas pela elaborada palheta de cores do filme. Tanto as cenas mais claras quanto as mais escuras estão bem definidas, com bom equilíbrio de luz e sombras. Não é a melhor imagem que eu já vi e nem a melhor que a Warner poderia ter conseguido com um título tão recente, mas está longe de decepcionar.

O som é ainda melhor. Como de praxe, a Warner não disponibiliza uma faixa em DTS, mas em compensação a em Dolby Digital 5.1 EX dá conta do recado. A trilha de John Williams, apesar de estar longe de figurar entre os melhores trabalhos do compositor, aparece em toda a sua glória, enchendo a sala com pompa e circunstância. Talvez pela própria opção do diretor em não enfatizar os momentos mais intensos do filme, o som não é tão agressivo quanto poderia, mas ainda assim faz bom uso das caixas surround e do subwoofer, principalmente nas cenas mais grandiosas. Enfim, um DVD tecnicamente fantástico. Completam o primeiro disco uma faixa em espanhol, também em 5.1 canais, legendas em inglês e espanhol, notas sobre o elenco e equipe e dois trailers.

É nos extras do segundo disco (todos sem legendas ou closed captions) que residem as maiores críticas a este lançamento. Não se enganem: esta é sem dúvida apenas a primeira edição para este título. Com certeza teremos no futuro, talvez quando toda a série tiver sido lançada, edições especiais que irão realmente descrever todo o processo de produção através de documentários e comentários em áudio, ausentes neste DVD. A filosofia desta edição é outra. A idéia aqui é promover a interatividade da mídia e principalmente conquistar as crianças para as possibilidades do formato. Com isso, dá-lhe jogos e diversões. Os responsáveis pelo DVD inclusive tomaram uma decisão arriscada (e não muito bem sucedida): para acessar o principal atrativo, as sete cenas excluídas (todas bem curtas, algumas interessantes, mas não particularmente relevantes e nenhuma tão infame quanto a do polvo no DVD de Os Goonies), você precisa passar por várias etapas e perguntas. Acertando-as, você segue em frente. Se errar, volta atrás. Ou seja, para aqueles que gostam de desafios, pode até interessar. Já para os outros (entre os quais eu me incluo) que só querem acessar os extras o mais rápido possível, é uma tormenta. Existe até mesmo um atalho, mas que ainda assim não torna tudo tão mais fácil.

Além disso, você encontra também desenhos conceituais (incluindo algumas concepções originais e bem mais arrepiantes para Lord Voldemort, infelizmente abandonadas), tours virtuais, um making of promocional chamado Capturing the Stone: A Conversation with the Filmmakers, onde durante 16 breves minutos, temos entrevistas com Columbus, Kloves, Craig e o produtor David Heyman sobre o processo de transposição do livro para as telas. Nada muito elucidativo, mas ainda assim interessante. Quem tem DVD-ROM tem ainda outros atrativos neste disco.

A Princesinha

Tomei contato com A PRINCESINHA por ter simplesmente adorado O Jardim Secreto, lançado dois anos antes. Ambos são adaptações de livros da inglesa Frances Hodgson Burnett. A PRINCESINHA, aliás, já havia sido vivido nas telas por Shirley Temple em 1939. Mas nem de longe a versão de Temple é tão deslumbrante quanto esta, concebida por Alfonso Cuarón.

O maior trunfo de Cuarón foi hiperbolizar o pequeno orçamento com a ajuda do fotógrafo Emmanuel Lubezki (A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça) e do desenhista de produção Bo Welch (Batman: O Retorno), ambos indicados ao Oscar pelo filme. Ao contrário de Harry Potter, a trama se passa no "mundo real", durante a Primeira Grande Guerra. Nem por isso o visual é menos mágico. Concebido a partir de cores determinadas como o verde e o marrom, o filme conta a história de Sara, uma garota de origem inglesa, orfã de mãe, que passou toda sua infância na colônia britânica na Índia. Com a eclosão da guerra, é deixada por seu amado pai (Liam Cunningham, quase um clone do "bem" do vilão de plantão Jason Isaacs) num internato em Nova York.

Calha que o internato é regido com mãos de ferro por Miss Minchin, uma megera clássica das histórias infantis, no rastro da madrasta de Cinderela, entre outras. Quando o pai de Sara é dado como morto, ela perde todas as regalias dentro do internato e passa a trabalhar como faxineira para continuar morando ali.

A trama é simples e direta. O que faz a diferença é a abordagem que Cuarón e os roteiristas Richard LaGravenese (O Pescador de Ilusões) e Elizabeth Chandler dá aos personagens, todos cativantes simplesmente por serem humanos, ainda que humanos especiais. Sara ilumina a tela com sua personalidade imaginativa e terna, numa interpretação nunca menos que adorável de Liesel Matthews (a filha de Harrison Ford em Força Aérea Um). Sua principal filosofia é promover a igualdade entre todos. "Todas as garotas são princesas", diz ela. Vivo chamando a Sra. Kas de princesa, mas saindo da minha boca, não sei porque, fica bem mais brega. As demais alunas, ainda que não fujam dos estereótipos - temos a gordinha feiosa, a escrava de bom coração, a menininha cativante e birrenta, a dondoca ciumenta - tornam-se críveis sob a direção de Cuarón.

A vilã é devidamente destestável. Mas o talento de Eleanor Bron deixa transparecer que toda aquela amargura e rancor tem suas ramificações em uma infância medíocre. A Miss Minchin de Bron é tudo que o Prof. Snape de Alan Rickman deveria ser: ameaçadora, ranzinza, invejosa e extremamente carismática.

Cuarón se afirmou com este filme como um verdadeiro estilista visual, compondo imagens que fariam Tim Burton se morder de inveja, sem porém descuidar da narrativa, de uma simplicidade cada vez mais rara. O cineasta consegue inserir momentos de magia e encantamento em uma história que poderia virar um dramalhão nas mãos de um diretor menos competente, como Chris Columbus, por exemplo.

O DVD da Warner traz o filme nas versões widescreen anamórfico 1.85:1 e pan & scan, uma de cada lado do disco. Obviamente, assistir a um filme deste em tela cheia é um crime sem tamanho. A qualidade de imagem, mesmo em se tratando de um lançamento mais antigo da distribuidora, é excelente, assim como o áudio em 5.1 canais, com uso discreto mas eficiente das caixas traseiras.

De extras, temos o trailer de cinema, além dos trailers das duas versões fílmicas de O Jardim Secreto (1949 e 1993). Completam o disco algumas notas de produção e só.

Se Cuarón conseguiu fazer um filme tão especial com um orçamento tão limitado, já justifica sua convocação para comandar a terceira aventura de Harry Potter no cinema, com um orçamento acima dos US$ 100 milhões. Só torçamos para que a mágica não se perca em algum lugar do caminho.

     

Harry Potter e a Pedra Filosofal
(Harry Potter and the Sorcerer's Stone, 2001)

Direção:
Chris Columbus

Com:
Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Richard Harris, Maggie Smith, Robbie Coltrane, Alan Rickman, Ian Hart, John Hurt, Warwick Davies, Fiona Shaw, Richard Griffiths, Julie Walters

Filme:

Idiomas:
Inglês 5.1 EX, Espanhol 5.1

Legendas:
Inglês, Espanhol

Formato de Tela: Widescreen Anamórfico 2.35:1

Aventura / Fantasia
Área 1 - 2h32min
Warner

Imagem e Som:

Extras:

A Princesinha
(A Little Princess, 1995)

Direção:
Alfonso Cuarón

Com:
Liesel Matthews, Eleanor Bron, Liam Cunningham, Rusty Schwimmer, Arthur Malet, Vanessa Lee Chester

Filme:

Idiomas:
Inglês 5.1, Português 2.0, Espanhol 2.0

Legendas: Português, Inglês e Espanhol

Formato de Tela: Widescreen Anamórfico 1.85:1

Drama / Fantasia
Área 4 - 1h37min
Warner

Imagem e Som:

Extras: