GABINETE DO KAS #03: A Outra; Drácula: O Príncipe das Trevas

Nada como uma noite em que não se precise acordar cedo no dia seguinte. Dá pra começar a tirar o atraso da coleção de DVDs.

À princípio, achei que fosse acabar vendo um filme só, por isso escolhi um que estou adiando há tempos: A Outra, de Woody Allen.

Pra começar, nunca entendi bem porque os dramas do Woody Allen são tão malhados pela crítica. Que o público não se interesse, eu até entendo, já que os filmes de Allen, mesmo as comédias mais saborosas, ganharam uma fama de filmes-cabeça e intelectuais, que só serviram para marginalizar a obra do sujeito, uma das mais bacanas e consistentes da cinematografia americana.

De qualquer forma, a veia dramática de Allen, mostrada em filmes como Setembro, Interiores e esse A Outra, nunca foi bem recebida. De certa forma, a crítica só aumentou o estigma contra o cineasta, sendo ela mesma preconceituosa. Como Allen é um "comediante", ainda que um comediante genial, cabe a ele apenas fazer comédias. Qualquer tentativa de embarcar em outro gênero é vista como pretensão desmedida. O mesmo preconceito afetou outros "comediantes" célebres, como Charles Chaplin, que se viram presos a uma visão que a crítica e o público estabeleceu a respeito deles.

Tanto A Outra quanto Interiores - drama que Allen rodou logo após o sucesso e os Oscars de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa - fazem parte da Coleção Woody Allen Vol. 3, lançada no Brasil pela MGM/Fox. As edições são simples e discretas, como os próprios filmes do diretor: nada de extras, a não ser o trailer. O resto é o mínimo requerido: widescreen anamórfico, som mono (uma opção do diretor), mas de boa qualidade. A estrela é o próprio filme.

A história é instigante: uma escritora (a excelente Gena Rowlands) aluga um pequeno apartamento para poder escrever seu próximo livro em paz e, no primeiro dia de trabalho, descobre que pode ouvir o que se diz no apartamento ao lado, onde funciona o escritório de um psicanalista. À princípio, ela tenta ignorar as vozes mas acaba fascinada com o depoimento de uma mulher, cujos relatos tocam-na profundamente, fazendo com que ela reveja sua própria vida.

Como sempre, Allen se serve de grandes atores para encenar seus conflitos. Além de Rowlands, temos Ian Holm como o marido da escritora, Mia Farrow como a paciente do psicanalista, Martha Plimpton como a enteada e Gene Hackman como uma antiga paixão. Todos apresentam interpretações singulares.

As grandes críticas recebidas pelos dramas de Allen geralmente são associadas a influência declarada que o cineasta sofre de Ingmar Bergman. Isso é inegável. Allen até mesmo usa o mesmo diretor de fotografia do mestre sueco, o genial Sven Kykvist. Só não entendo como se basear num grande cineasta para contar suas histórias pode ser visto como algo negativo. Do tratamento de cores à direção de atores, o espectro de Bergman ronda o trabalho de Allen, mas isso não quer dizer que o filme não tenha identidade própria. A Outra é claramente um filme de Woody Allen. É impressionante como o diretor consegue absorver as lições do mestre e incorporá-las de forma significativa em sua obra, mais ou menos como Brian De Palma fez com Hitchcock (e foi apedrejado por isso).

Para quem ainda não se iniciou na filmografia de Allen, A Outra não é a melhor opção para uma primeira conferida. Recomendo assistir primeiro as comédias mais leves, como Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão (inspirado igualmente em Bergman e Shakespeare), também incluído nessa coleção, Tiros na Broadway (inexplicavelmente inédito em DVD no Brasil) ou até mesmo o recente e subestimado O Escorpião de Jade.

Quando terminei de conferir A Outra, vi logo que a noite ia ser longa. Para quebrar totalmente com o estilo proposto pelo filme de Allen, peguei na prateleira do Gabinete outro título já há algum tempo adiado, Drácula: O Príncipe das Trevas.

Pra começar, palmas para a Dark Side DVD, uma revista que se propõe trazer sempre clássicos do cinema de horror encartados. São títulos que de outro modo dificilmente seriam lançados no mercado nacional, já que, acredita-se, o público para esse tipo de filme é bem restrito. Pode até não ser dos maiores, mas garanto que é fiel como poucos. São filmes para fã e colecionador e não para o público em geral. Os seis primeiros lançamentos da revista trouxeram filmes da finada produtora inglesa Hammer. O primeiro a ser disponibilizado foi exatamente esse Drácula.

A escolha não poderia ser mais feliz. A Warner calha de lançar quase simultaneamente (e em conjunto com A Maldição de Frankenstein) o primeiro Drácula da produtora, O Vampiro da Noite (Horror of Dracula), que traz Christopher Lee pela primeira vez usando os caninos do personagem que o consagraria.

Drácula: O Príncipe das Trevas é a sequência direta de O Vampiro da Noite e começa exatamente onde aquele termina, com o duelo final (?) entre o monstro e seu arquiinimigo, o Dr. Van Helsing vivido com garra por Peter Cushing. Aparentemente derrotado ao ser exposto à luz do sol, Drácula volta à vida dez anos depois pelas mãos de um fiel seguidor, que se aproveita do sangue de um incauto que se hospeda no castelo do vampiro.

Dirigido pelo mesmo Terence Fisher do longa anterior, O Príncipe das Trevas consegue superar em praticamente todos os aspectos o primeiro filme, começando por uma atmosfera mais bem construída e personagens com motivações mais palpáveis. Fisher constrói o clima aos poucos, sem pressa, e demora boa parte do filme antes de reintroduzir a figura do vampiro, aqui, mais do que antes, apresentado como uma besta descontrolada, privada durante anos de se alimentar e de repente libertada. O Drácula de Christopher Lee está longe do charme excêntrico de Bela Lugosi. Encarnado por Lee, o vampiro é animalesco e de sensualidade mais visceral. Nos noventa minutos de duração do filme, Drácula não chega a proferir uma palavra sequer, o que o torna mais assustador e menos humano. O duelo final entre os humanos e o vampiro não é tão excitante quanto no filme anterior, mas está à altura da obra.

Se não temos aqui a presença ilustre de Cushing e de seu memorável Van Helsing, essa falta é parcialmente compensada pela presença carismática do Padre Sandor de Andrew Keir, que cumpre a função dupla de pragmático demolidor de medos e superstições e matador de vampiros. Para ele, assim como era para Van Helsing, Drácula é só uma criatura, sobrenatural e perigosa, sem dúvida, mas que pode ser destruída.

O DVD traz o filme em CinemaScope mas ao contrário de O Vampiro da Noite, essa cópia não apresenta a imagem restaurada, resultando em cores pálidas e contraste deficiente. Nada que invalide o lançamento. Surpreendentemente, a editora incluiu, além do trailer, um extra saboroso e raro: imagens dos bastidores do filme, em bom estado de conservação, filmadas em Super 8 pelo irmão do ator Francis Lawrence, que faz o mocinho. Em 1996, os atores Christopher Lee, Barbara Shelley e Matthews se reuniram para assistirem a essas imagens e gravarem um comentário em áudio para as mesmas. Pena que esse depoimento não foi legendado.

Falando na Dark Side DVD, o lançamento deles deste mês é O Caçador de Bruxas, estrelado por um dos meus ídolos, Vincent Price. Resta saber se essa ou outra distribuidora não encara lançar por aqui dois dos meus cults de cabeceira, também estrelados por Price: O Abominável Dr. Phibes e sua macabra continuação A Câmara dos Horrores do Dr. Phibes. Embalado por esse pensamento, dormi como um defunto.

     

A Outra
(Another Woman, 1988)

Direção:
Woody Allen

Com:
Gena Rowlands, Ian Holm, Mia Farrow, Martha Plimpton, Gene Hackman

Filme:

Idiomas: Inglês 1.0, Português 1.0

Legendas: Português, Inglês

Formato de Tela: Widescreen Anamórfico 1.85:1

Drama
Área 4 - 1h21min
MGM/Fox

Imagem e Som:

Extras:

Drácula: O Principe das Trevas
(Dracula: Prince of Darkness, 1966)

Direção:
Terence Fisher

Com:
Christopher Lee, Barbara Shelley, Andrew Keir, Francis Matthews, Suzan Farmer, Charles 'Bud' Tingwell, Philip Latham

Filme:

Idiomas: Inglês 1.0, Português 1.0

Legendas: Português

Formato de Tela: Widescreen Anamórfico 2.35:1

Horror
Área 4 - 1h30min
London / Dark Side DVD

Imagem e Som:

Extras: