GABINETE DO KAS #02:
As Aventuras de Indiana Jones


Em 1984, eu era um moleque passando férias no sítio quando minha irmã mais velha chegou da capital e veio me falar sobre um filme que ela tinha acabado de ver. Ela acabou me contando o filme inteiro, de forma que eu o construi mentalmente antes de ter realmente oportunidade de assistir. A história tinha todos os elementos que eu mais amava: um herói aventureiro, cenários exóticos, magia, minas e catacumbas cheia de perigos e insetos asquerosos, vilões assustadores e muita, muita aventura. Imediatamente, o filme que eu não tinha visto incendiou minha mente.

Passei o resto das férias revendo mentalmente aquele filme, que calhava ainda de ter um título totalmente sugestivo, Indiana Jones e o Templo da Perdição. A única referência que eu tinha até então era o cartaz de outro filme com o personagem, que eu tinha visto publicado num anúncio em uma revista em quadrinhos anos atrás. Na verdade eu nem tinha certeza se era ou não o mesmo personagem, mas à medida em que minha irmã ia descrevendo o filme, eu ia sempre remetendo àquela figura de chapéu, jaqueta e chicote em punho que tinha visto anos antes.

Quando voltei para Belo Horizonte, o filme já tinha saído de cartaz. Passaram-se dois longos anos até que eu pudesse assisti-lo numa reprise, num cinema empoeirado da cidade.

O Templo da Perdição era tudo aquilo que eu tinha imaginado e mais um pouco. Nunca poderia conceber o charme inegável de Harrison Ford, os efeitos estupendos da Industrial Light & Magic, a trilha emocionante de John Williams, o ritmo alucinante imposto pela direção de Steven Spielberg. Indiana Jones virou para mim a nova referência em cinema de entretenimento. O mundo que Jones habitava, por mais fantástico e cartunesco que pudesse ser, me era mais próximo que as aventuras intergaláticas da Millennium Falcon e da Enterprise.

A Tela Quente da Globo providenciou a oportunidade que me faltava de conferir a primeira aventura do arqueólogo, o ainda mais espetacular Os Caçadores da Arca Perdida. Mesmo dublado e em tela cheia, eu suava, vibrava e tremia com a busca pela Arca da Aliança.

Alguns anos depois, num dia no cinema, vi para minha supresa um trailer que deixou a mim e à platéia de boca aberta: o trailer trazia Spielberg gritando ação numa filmagem no deserto, George Lucas assistindo a tudo impassível e o melhor: Indiana Jones em ação sobre um cavalo! Indiana Jones e a Última Cruzada teria ainda o acréscimo de Sean Connery - que aparecia no trailer chamando Indy de "Júnior!". Vi duas vezes quando o filme entrou em cartaz.

Todo esse histórico é só para deixar claro o quanto adoro o personagem e suas aventuras. E também o quanto esperei todos esses anos de colecionador para finalmente poder ter em casa seus filmes. Claro que eu tinha antes a trilogia em video, mas como eu disse na coluna anterior, nunca fui realmente um fã de VHS. Para mim, a minha primeira coleção de filmes é essa que eu tenho em DVD.

Então não espere que essa seja uma resenha crítica imparcial do box As Aventuras de Indiana Jones, lançado pela Paramount. De forma alguma! A série Indiana Jones estabeleceu os parâmetros pelos quais eu iria julgar todas as produções de aventura, ficção e fantasia anteriores e posteriores. É um amálgama de tudo que o gênero - e o cinema como um todo - pode oferecer para levar o espectador numa imersão completa nas telas.

Revendo os filmes em DVD - com uma qualidade inegável de som e imagem proporcionados pela equipe da THX (leia aqui mais detalhes na análise detalhada do especialista Wiz!) - é perceptível o caráter atemporal dos filmes, tanto das tramas quanto da realização em si. Concebido como uma homenagem aos seriados e filmes de aventura clássicos das décadas de 30 e 40, a série não envelheceu um dia sequer desde o lançamento do primeiro capítulo, em 1981. Ao contrário dos filmes baseados em tecnologia ou em elementos da época em que foram realizados, as aventuras de Indiana Jones já eram anacrônicas na concepção. Filmes de época não envelhecem tão facilmente porque já nascem velhos. O que poderia caducar seria o ritmo imposto nas produções, mas é aí é que entra a genialidade de Steven Spielberg, no auge de sua carreira e de seu amor pelo cinema. Indiana Jones é cinema puro. A paixão pela arte de contar histórias por meio do celulóide é perceptível em cada quadro de filme. É impressionante também a quantidade inesgotável de criatividade e de soluções impagáveis que Spielberg, Lucas e seus roteiristas dotaram a trilogia. Cada quadro mantém o frescor das gags visuais, como se estivéssemos vendo pela primeira vez.

Os DVDs de Indiana Jones não cometem o mesmo pecado que outros lançamentos de filmes que marcaram nossa infância cometem, ao submetê-los à luz de nossa análise bem menos empolgada e muito mais cínica atual. Mitos que construimos na infância e ampliamos com o passar do tempo em nossa mente são muitas vezes destruidos por uma análise mais detalhada permitida pelo disquinho digital.

Não é o que acontece com os três filmes que compôem essa coleção. Cada uma das aventuras de Indiana Jones resistiu bravamente à passagem do tempo, como fazem as verdadeiras pedras preciosas e os artefatos místicos que o personagem tanto busca. Revê-los é redescobrir o prazer que tínhamos quando moleque e descobrir um novo prazer de percebermos novas camadas de leituras nos três longas. Hoje fica mais claro para mim a diferença conceitual que separa os três filmes, ao mesmo tempo em que mantém uma unidade. Não vou nem entrar no mérito de tentar analizá-los sobre a época pela qual os realizadores passavam quando de sua concepção. Isso fica mais claro ao conferir o making of que justifica um quarto disco na coleção. O que me chama a atenção é exatamente aquilo que desagradou parte do público e da crítica quando do lançamento nos cinemas. Enquanto todos esperavam que os filmes posteriores de Indy seguissem a linha estabelecida magistralmente por Os Caçadores da Arca Perdida, Spielberg, Lucas e cia partiram em outras direções, outras aventuras cinematográficas que só acrescentaram e nunca diminuiram a mitologia da série. No primeiro (e meu favorito) filme, somos introduzidos ao personagem e a seu universo, às implicações bíblicas, ao ritmo ininterrupto, à fascinação que os locais exóticos (ou seja, todos as locações fora dos EUA) exercem sobre a platéia. Em O Templo da Perdição, temos a oportunidade de ver Jones numa aventura de horror, com seitas satânicas, possessão, rituais macabros. E finalmente, em A Última Cruzada, temos a leveza de uma farsa, uma brincadeira com os clichês estabelecidos pela própria série, num capítulo final (pelo menos até o momento) que não se leva à sério.

Nunca entendi o mau-humor que O Templo da Perdição foi recebido, principalmente nos EUA. Só pode ter sido por causa das idéias pré-concebidas que o público ianque tinha a respeito da sequência, idéias estas que Spielberg e Lucas não tiveram o menor pudor em descartar. Todos os "defeitos" que a crítica vê nesse segundo tomo eu considero virtude. A mocinha caricata e histérica? Ninguém se lembra que nas aventuras seriadas que Indiana Jones remete a mocinha só aparece para ser salva pelo mocinho e confirmar o caráter heróico deste? Esse aspecto misógino faz tão parte da concepção do longa quanto o aspecto imperialista. São ambos herdados da fonte que a série procura homenagear. Fugir disso seria trair a essência do que levou Spielberg e Lucas a criarem o personagem. Seria negar as características do próprio período retratado. É o mesmo motivo pelo qual todos os alemães que aparecem nos filmes são nazistas, todos os latinos são traidores, todos os chineses são mafiosos, todos os indianos e árabes são subservientes aos colonizadores. Isso faz parte do personagem, da mitologia da série. Fico até com medo de isso ser deixado de lado num eventual quarto filme, já que claramente Spielberg e Lucas ficaram mais "conscientes" (leia-se bundões) na última década.

O Templo da Perdição foi o filme que mais cresceu nessa revisão em DVD. A ida de Indiana ao lado negro da força talvez seja mais condizente com o atual estado das coisas, com os heróis mais cinzentos do cinema recente. Curiosamente, é também o filme onde Indiana parte na busca pelo artefato - no caso, as Pedras de Shankara - por razões altruístas, para depois ser contaminado pelo mal. Nos demais, os motivos pelo qual o personagem quer pôr a mão nas relíquias são bem mais egoístas.

Perto de O Templo da Perdição, os demais filmes adquirem um aspecto mais de matinê. Os Caçadores da Arca Perdida tem o roteiro mais perfeito da trilogia, com introdução impecável dos personagens, encadeamento da ação e das cenas expositivas feito de forma nunca menos que brilhante e equilíbrio perfeito entre o lado heróico e o lado usurpador de Jones. A direção de Spielberg é brilhante e os efeitos pré-digital ainda impressionantes. O clímax é dos mais memoráveis do cinema, com uma festa mística-visual proporcionada pelos magos da ILM sob o comando de Richard Edlund.

A Última Cruzada falha em não apresentar o mesmo cuidado com os efeitos dos capítulos anteriores, ao mesmo tempo em que traz um clímax decepcionante para a aventura. Não consigo engolir as motivações do vilão ao final do filme. Eu nunca experimentaria em mim os poderes do cálice, ainda mais tendo duas cobaias - Indiana Jones e a dublê de mocinha e vilã vivida por Alison Doody - disponíveis. O preço a se pagar era por demais alto. Falta também magia e deslumbramento. Mas em contrapartida, a química entre Harrison Ford e Sean Connery parece intervenção divina de tão perfeita. A trilha de Williams se equipara ao espetacular trabalho do maestro para o segundo filme da série, com novos temas que ilustram bem o caráter sagrado da jornada. E o filme traz também aquela que provavelmente é a melhor gag de toda a trilogia, o encontro entre Indiana Jones e Hitler.

Enfim, se você possui um décimo do vínculo que eu tenho com a série, esta coleção é para você. Se você é um colecionador que se preze de DVDs (e se você está lendo essa coluna, é porque é ou tem grandes chances de ser), essa coleção é seu cálice sagrado. Mas você já deve saber disso nessa altura do campeonato.

Os extras : Ao contrário do que algumas resenhas estrangeiras fizeram acreditar, não existe nada de errado com os extras contidos no quarto disco desta coleção. Simplesmente nada. Realizados com a competência habitual pelo excelente Laurent Bouzereau (autor dos ótimos documentários contidos nos DVDs dos filmes de Spielberg e Hitchcock), os extras traçam um painel amplo e curioso sobre a produção da trilogia. Temos acesso a cenas raríssimas de bastidores, informações interessantes sobre a produção dos filmes e entrevistas com praticamente todos os envolvidos na realização, dos membros chaves da equipe técnica ao elenco. E ao contrário de grande parte dos documentários do gênero, aqui os entrevistados não se preocupam em apontar as falhas que eles (e só eles) acreditam ter em, por exemplo, O Templo da Perdição.

Os extras são divididos em:

- Trailers: o grande destaque é o teaser de A Última Cruzada, que pgou todo mundo de calça na mão nos cinemas no fim de 1988, a apresentar cenas dos bastidores da nova aventura de Indy, com Harrison Ford, Spielberg e Lucas filmando a cena do tanque de guerra no deserto, acompanhados de Sean Connery chamando Ford de "Junior!". Lembrem-se de que esta era uma época pré-internet.

- Desenvolvendo a trilogia: documentário de mais de duas horas de duração, englobando a produção dos três filmes. O making of de cada filme pode ser conferido separadamente. Simplesmente maravilhoso! As cenas de bastidores são impagáveis.

- Quatro featurettes temáticos: Os Dublês de Indiana Jones (10:56), O Som de Indiana Jones (13:20), A Música de Indiana Jones (12:22) e A Luz e a Magia de Indiana Jones (12:20). Apesar de estarem listados nessa ordem no menu, recomendo que assistam A Música de Indiana Jones por último, por dois motivos: um é que John Williams é o único a tocar no assunto Indiana Jones 4. E o outro é que é emocionante terminar de ver os extras ouvindo o tema heróico e retumbante composto por Williams. Dá até vontade de voltar atrás e ver tudo de novo.

Bouzereau apresenta os fatos e entrevistas com uma narrativa, simples e econômica, sem gorduras, que faz com que as quase três horas de duração dos documentários somados (se você for doente como eu, que numa sentada devorou todos os extras do quarto disco) passem imperceptivelmente.

É aí que surge então o grande problema com essa coleção. Como eu disse antes, não há nada errado com os extras contidos aqui. O que incomoda é exatamente a falta que faz os extras que não foram incluídos. Onde estão as cenas excluídas (algumas até mesmo vislumbradas nos making ofs)? Onde foi parar o final estendido de Os Caçadores da Arca Perdida? Porque só podemos ver alguns dos testes dos atores (como Tom Selleck e Tim Matheson para o papel de Indy e Sean Young para o papel de Marion) de relance, durante os making ofs? E os demais testes que são citados nas entrevistas? Poderia muito bem ter sido incluídas as cenas da cerimônia do Oscar, mostrando a entrega dos (sete) prêmios conquistados pelos filmes. Ou mesmo os spots de TV. E tudo bem que Spielberg é cabeça dura e não faz comentários em áudio mas e quanto ao resto da equipe? George Lucas, Lawrence Kasdan, a equipe da ILM... gente é que não falta para nos deixar a par de mais informações sobre a produção da trilogia. E existem mais informações! Além das apenas citadas nas entrevistas e nos making ofs, existem outras que nem são mencionadas, como o sucesso da trilogia nas bilheterias e a febre de produtos relacionados que desencadeou, como histórias em quadrinhos, série de TV e brinquedos.

Por mais que os documentários incluidos nessa edição sejam de ótima qualidade, não são suficientes para cobrir todo o processo de produção e lançamento dos filmes e a criação do fenômeno Indiana Jones. Não consegue suprir a sede de informações do verdadeiro fã da série, como as edições especiais de O Poderoso Chefão e O Senhor dos Anéis conseguiram. Ou seja, esta edição é de excelente qualidade e merece cada centavo investido na compra, mas não é, de forma alguma, a edição definitiva.

Leia aqui a análise técnica dos DVDs
As Aventuras de Indiana Jones

     

Os Caçadores da Arca Perdida
(Raiders of the Lost Ark, 1981)

Com: Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman, Ronald Lacey, John-Rhys Davies, Denholm Elliot

Filme:

Indiana Jones e o Templo da Perdição
(Indiana Jones and the Temple of Doom, 1984)

Com: Harrison Ford, Kate Capshaw, Amrish Puri, Ke Huy Quan, Roshan Seth

Filme:

Indiana Jones e a Última Cruzada
(Indiana Jones and the Last Cruzade, 1989)

Com: Harrison Ford, Sean Connery, River Phoenix, Alison Doody, Denholm Elliott, John-Rhys Davies

Filme:

Direção:
Steven Spielberg

Idiomas: Inglês 5.1, Português 2.0, Espanhol 2.0

Legendas: Português, Inglês, Espanhol

Formato de Tela: Widescreen Anamórfico 2.35:1

Aventura
Área 4 - 1h55min / 1h58min / 2h06min
Paramount

Imagem e Som:

Extras: