| |
|
X-Men
2
(X2: X-Men United, EUA, 2003)
Por: Kas
X-Men
sempre foi aquele filme do qual eu até gosto, mas para isso tenho
de relevar várias coisas. Esse é o problema de acompanhar cada passo
da produção. As dificuldades com o elenco, a pressão do estúdio,
o prazo apertado, o orçamento minúsculo para um filme do gênero...
tudo isso influenciou no resultado final, como quem ficava sabendo
do drama dos bastidores sabia que ia influenciar. O surpreendente
é que mesmo com todos os problemas, X-Men se saiu bem, se
não de forma totalmente satisfatória, pelo menos competente. Só
de ter tratado com respeito o universo, os personagens (e a inteligência
do público) já é motivo de comemoração. Mas aí é que tá:
tive de relevar os problemas de produção, que justificavam os efeitos
medianos, a trilha canhestra, os cenários econômicos, a falta de
ousadia da direção. Por mais que eu revisse o filme (e acredite,
eu o revi diversas vezes), nunca poderia ter uma visão que fosse
realmente imparcial, isenta de comentários tipo "Tudo bem, com a
grana que eles tinham, realmente não dava pra fazer melhor".
Outro
motivo que embaralhava minha percepção do filme era o fato de ter
acompanhado os personagens nos quadrinhos, durante toda a fase em
que eles se tornaram os mais queridos pelos leitores e os mais vendidos
no mercado mundial de HQ. Não sem motivo: com histórias e figuras
fascinantes e grandes sagas - principalmente as da fase regida por
Chris Claremont/John Byrne -, os X-Men rapidamente despontaram como
modelo ideal de histórias de super-heróis para todos os fãs de quadrinhos
como eu. Quando anunciaram um longa com os personagens, e isso foi
no final da década de 80, na época em que os quadrinhos chamaram
realmente a atenção de Hollywood por causa do Batman de Tim
Burton , fiquei cético tanto quanto à possibilidade de um longa
realmente ser feito quanto o de ser feito de forma satisfatória.
Isso porque, ao contrário de personagens como Batman e Super-Homem,
que são cinematográficos por natureza, os X-Men necessitavam de
toda uma exploração não só dos vários personagens, mas também do
mundo que eles habitam e dos motivos individuais para cada um tomar
partido com relação à questão mutante. O próprio conceito de mutação
trabalhado neste universo não seria de fácil digestão para o grande
público. E o pior: se já é difícil fazer um filme que aborda um
ou dois personagens principais, imagine conceber um que envolvesse
dezenas?
Por
isso, quando X-Men foi lançado finalmente, mais de uma década
depois, esse era outro desconto que eu dava ao filme, que resolveu
bem esse pepino. Alterações foram feitas nos personagens, claro,
mas o essencial estava ali. E o mais importante: esse essencial
era passado de forma convincente para o público, seja ele fã ou
não de quadrinhos. Não à toa, o filme fez excelente carreira nos
cinemas.
Toda
essa longa exposição acima é só pra concluir que a forma que eu
assisti a X-Men 2 foi ligeiramente diferente da que
eu vi o primeiro filme. Desta vez não houve mais problemas com prazo,
dinheiro e elenco (pelo menos não problemas que superproduções do
tipo já não tenham que enfrentar normalmente). Com orçamento polpudo
de US$ 120 milhões, o diretor Bryan Singer tinha liberdade
suficiente para experimentar mais tanto o universo dos personagens
quanto as possibilidades oferecidas por um filme de ação e ficção
científica de grande porte. Da minha parte não haveria mais o tipo
de concessão que eu tive com o primeiro filme. Pior para eles.
Por
outro lado, minha expectativa se concentrou totalmente no fato de
conhecer e amar os quadrinhos originais. Depois de apresentar dignamente
os personagens no primeiro filme, eu queria que Singer agora os
deixasse à vontade para poderem fazer o que eles fazem melhor. Em
suma, eu queria ser maravilhado. Pior para eles de novo.
E melhor
para mim. X-Men 2 não só sobreviveu à minha grande expectativa,
como também me surpreendeu e emocionou ocasionalmente. Realmente,
aqui Bryan Singer está claramente mais confortável com as possibilidades
oferecidas e as aproveita excepcionalmente bem na maior parte do
tempo. Ótimas cenas de ação, bom humor, situações bem armadas (apesar
da trama central ser demasiadamente óbvia, com nós espectadores
a decifrando milhas antes dos heróis o fazerem) e atores dando o
melhor de si e levando realmente a sério cada um de seus papéis.
É delicioso ver gente talentosa como Ian McKellen, Hugh
Jackman (que simplesmente arrasa como Wolverine), Famke Janssen,
Rebecca Romijn-Stamos (ambas esbanjam carisma, beleza e presença
de cena), Patrick Stewart, Anna Paquin e os novatos
Shawn Ashmore e Aaron Stanford na pele de personagens
que adoramos desde moleque.
E é
bom saber que o espírito foi mantido, apesar do compromisso do estúdio
com o grande público. É bom saber que Wolverine continua a fumar,
beber e matar, e não virou um babaca politicamente correto, como
seria de bom tom numa produção voltada ao público jovem. É ótimo
conhecer realmente a dimensão dos poderes de cada personagem e da
necessidade real de aprender a lidar com esses poderes, não para
usá-los para o bem ou para o mal, mas simplesmente para que não
destruam por acidente vidas humanas ou mesmo o planeta inteiro.
É melhor ainda saber que, mesmo trabalhando num universo fantástico,
Bryan Singer e seus roteiristas mantêm o bom senso de discutir problemas
bem reais e oportunamente atuais, como a política com relação a
quem é diferente (todos aqueles que não sejam brancos, cristãos
ou americanos, por exemplo). E o fazem com esclarecimento. E
é maravilhoso o cuidado que os realizadores tiveram em aproveitar
elementos que compõem a cronologia dos quadrinhos ao construir sua
saga na telona.
X-Men
2 é superior ao primeiro filme em cada aspecto, em cada detalhe
(a cauda de Noturno, por exemplo, é um show à parte), em cada diálogo.
Claro que ainda há espaço para Singer e sua equipe se superarem
num suposto terceiro filme. Falta um melhor aproveitamento de Ciclope
(James Marsden), um dos heróis mais queridos pelos fãs. Falta
um senso de urgência maior no grande clímax, que realmente justificasse
a atitude radical de um dos personagens centrais (se já tiver
visto o filme ou não se importar em saber o final, clique
aqui para mais detalhes). Faltam efeitos e maquiagem mais fascinantes.
Mas
nada disso diminui o prazer que é ver e rever (o que eu já fiz,
antes de escrever essa resenha) X-Men 2. Não é o melhor filme
de quadrinhos de todos os tempos (a honra ainda pertence a Superman,
o Filme), mas é um espetáculo vibrante, inteligente e divertido,
como deveriam ser todas as superproduções de verão.
|
|
|
|

Direção:
Bryan Singer
Música:
John Ottman
Com:
Patrick
Stewart, Hugh Jackman, Ian McKellen, Famke Janssen, Halle Berry,
Anna Paquin, Shawn Ashmore, Brian Cox, Alan Cumming, Rebecca Romjin-Stamos,
Aaron Stanford, Bruce Davison
|
|
|