A Vila
(The Village, EUA, 2004)




Vamos parar de achar que M. Night Shyamalan faz filmes de suspense. O Sexto Sentido é um drama que nos faz acreditar em fantasmas. Corpo Fechado é um drama para acreditarmos em super-heróis. Sinais é um drama para que acreditemos em alienígenas. A VILA é um drama para... bem... não vou contar para não estragar. Aliás, é meio difícil não estragar nada mas não custa tentar.

No meio de um bosque existe uma vila onde as pessoas vivem intocadas pelo mundo exterior. Não há dinheiro, todos repartem os alimentos que semeiam e colhem, todos são amigos e vivem em harmonia. E ninguém pode deixar o lugar por causa dos monstros que habitam a mata. Não se deve adentrar a floresta ou usar a cor vermelha, em qualquer coisa ou ocasião, já que ela atrai as criaturas. E nessa comunidade nasce o amor de Ivy Walker, a bela e carismática ruivinha Bryce Dallas Howard, filha do diretor Ron Howard, e Lucius Hunt, vivido por Joaquin Phoenix.

A VILA é mesmo uma história de amor, assim como todos os filmes de Shyamalan. Ivy é cega e apaixonada por Lucius, que também a ama e ela sabe disso. Como? Ela diz que quando crianças ele a guiava pelo braço mas com o tempo ele deixou de fazê-lo pois, ao tocá-la, teria medo que ela soubesse de seus verdadeiros sentimentos. Mas tudo o que um cego tem é o toque! Tudo bem que Ivy tem sua própria maneira de "ver" Lucius mas ainda assim... sem o toque, como sentir a pessoa amada? Esse talvez seja um dos pequenos pontos do roteiro que mais me chamou a atenção. O quanto o amor de Ivy é sofrido e ao mesmo tempo forte. A cena onde Ivy espera que Lucius chegue para protegê-la das criaturas é uma das mais românticas da minha história cinematográfica e nem mesmo um beijo tem! Porque essa é uma cena romântica e não de suspense. Você vai saber quando vir o filme. Se já viu, espero que concorde comigo. E todo esse tema do amor sem toque desenvolve-se através do filme em outros personagens de forma delicada e que dá prazer em ver.

Todo o resto é um grande mistério que não vale a pena entrar. Afinal, é isso que você quer, não é? O mistério que sempre rondam as produções dirigidas por M. Night Shyamalan. Pois pode esquecer! Quem avisa amigo é! Eu já sabia boa parte do final do filme e apoio os comerciais que dizem para não contar. Acredite, fica muito melhor se você não souber. Mas posso dizer que grande parte das críticas americanas malham o filme, principalmente o roteiro, porque ele é uma boa crítica aos Estados Unidos atuais (mesmo que Shyamalan diga em entrevistas que nunca pensou em um contexto subliminar).

Então como eu não vou entrar em detalhes (não adianta insistir!), vamos à parte técnica que torna tudo mais interessante. Como sempre, a fotografia é impecável e surpreende por ser o primeiro trabalho de Roger Deakins com Shyamalan (apesar de não faltar experiência ao moço). Não é tão impressionante como a de Corpo Fechado por exemplo, principalmente por uns dois momentos onde é óbvio o uso de câmera manual (que eu não sou fã) mas ainda assim impecável.

A atuação de Joaquin Phoenix finalmente me arranca um elogio. Nunca foi segredo que eu não gosto muito dele mas aqui sua atuação tímida e contida encaixa-se bem com o clima ameno da vila. Também me surpreendeu a atuação de Bryce Dallas Howard. Para a filha de um diretor bem mais ou menos ela até que se sai bem. William Hurt em seu pior papel ainda é gênio. Sigourney Weaver dá um certo brilho a um papel bem inferior, assim como Brendan Gleeson. Adrien Brody como o deficiente mental Noah Percy é bem competente mas não chama tanto a atenção pelo tamanho do papel pequeno, que só lhe permite fazer os mais comuns trejeitos que os atores normalmente usam a interpretar esse tipo de personagem.

Tirando alguns belos furos em um roteiro um pouco previsível, A VILA é um filme de atuações contidas. Uma história de amor singela em uma época de medo e que guarda pelo menos uma boa pequena surpresa no final em geral.

Fim de resenha. E sem entregar nada da trama em si.

     

Direção:
M. Night Shyamalan

Com:
Joaquin Phoenix, Bryce Dallas Howard, William Hurt, Adrien Brody, Sigourney Weaver, Brendan Gleeson

Cotação: