A Viagem de Chihiro
(Sen to Chihiro no Kamikakushi/Spirited Away, Japão, 2002)
Por: Katchiannya

A Viagem de Chihiro é a primeira produção do Estúdio Ghibli a chegar nos cinemas aqui no Brasil. Apenas outros de seus filmes, se eu não me engano Meu Amigo Totoro e Nausicaä do Vale dos Ventos (1984), foram lançados em vídeo por estas bandas. Outras de suas produções, como Laputa, o Castelo dos Céus (1986), podem ser encontradas em clubes de animes. O que é uma pena, afinal, o Ghibli é o maior e melhor estúdio de animação do Japão, suas produções são conhecidas pelo sucesso de crítica e público, arrastando multidões aos cinemas na Terra do Sol Nascente. Ghibli é sempre sinônimo de qualidade, criatividade e sensibilidade.

Se no Japão o estúdio é um fenômeno nacional, só agora ele está ganhando o espaço que merece no ocidente, primeiro com Princesa Mononoke (ainda inédito no Brasil, cuja adaptação pra o inglês foi feita nada mais nada menos que pelo grande Neil Gaiman, autor de Sandman e Deuses Americanos) e agora com o consagradíssimo A Viagem de Chihiro.

O principal diretor do estúdio é Hayao Miyazaki, responsável por todos os filmes citados acima, e considerado o Disney japonês, apesar de não gostar de tal comparação. Seu próximo projeto é Howl´s Moving Castle que será lançado em 2004 no Japão.

A Viagem de Chihiro é um tipo de filme que não se encaixa nas demais animações a que estamos acostumados. Quem é fã de anime e está esperando a uma produção semelhante às exibidas na TV, ou a algo no estilo de Akira ou Ghost in the Shell (lançado em DVD como O Fantasma da Futuro), longas de animação japonesa mais conhecidos do público brasileiro, vai se decepcionar, pois o filme de Miyazaki não possui quase nenhum dos elementos típicos dessas produções. Quem espera um filme infantil ao estilo Disney, com uma heroína destemida enfrentando um vilão/vilã em cenas de ação entremeadas por contrapontos cômicos, com finais reconfortantes e lições de moral claras e definitivas, também pode esquecer. A Viagem de Chihiro é algo singular e único, talvez comparado apenas às outras produções da Ghibli, e vai muito além do descrito acima.

Antes que alguém queira me apedrejar e me chamar de herege, quero deixar bem claro que sou fã de anime. Akira é um dos meus filmes favoritos do gênero. E também gosto muito das produções da Disney. O que quero ressaltar é que A Viagem de Chihiro me tocou de forma tal como há muito tempo uma animação ou filme com elementos próximos aos apresentados na obra não fazia.

Muitos têm comparado Chihiro a Alice no País das Maravilhas pela estrutura da história (uma garotinha que se vê perdida em um mundo mágico), além de outras similaridades. Mas, talvez o exemplo ocidental que mais se aproxima do filme seja A História Sem Fim. E muito mais o livro de Michael Ende que o filme de Wolfgang Petersen. Como Bastian, a garotinha Chihiro é alguém que desconhece sua própria capacidade e força interior. Alguém que por um acaso do destino, num momento crucial de sua vida, topa com o inesperado e sai renovado e fortalecido do processo.

A história do filme é a seguinte: Chihiro é uma menina de 10 anos, que está mudando de cidade com os pais. Por um engano, eles acabam perdidos em um lugar que, a princípio, parece um parque temático abandonado. Os pais se empaturram com a comida que encontram no local. E quando a noite cai, a verdadeira natureza do lugar se revela: ali é uma espécie de casa de banhos que serve a centenas de deuses e divindades japonesas. Pela ousadia de comerem a comida dos hóspedes, os pais de Chihiro são transformados em porcos. Com a ajuda de Haku, um misterioso menino, Chihiro consegue um emprego com a feiticeira Yubaba, evitando ser transformada em animal. Mas um preço é preciso ser pago: ela perde seu verdadeiro nome. Agora ela precisa não só salvar os pais, mas também encontrar um modo de recuperar sua identidade.

No início, mimada, desmotivada e medrosa, Chihiro se vê perdida e desorientada, necessitando de ajuda externa para conseguir lidar com esse novo e estranho mundo que a rodeia, seja de Haku, ajudante da feiticeira, seja de Lin, sua companheira de serviço ou de um Sem Rosto. Mas, à medida que o tempo vai passando e ela vai superando certos desafios (como dar banho em um deus fedido), Chihiro se descobre capaz de realizar grandes feitos e assumir responsabilidades.

Por trás das situações surreais da história é possível perceber críticas ao capitalismo e ao materialismo desenfreado, representado principalmente pela feiticeira Yubaba, ou à falta de propósito da juventude atual A Viagem de Chihiro é um metáfora sobre a passagem da infância para a idade adulta. Trata-se de uma história sobre a necessidade de se buscar um lugar e uma identidade própria e única no mundo, de ser reconhecido por quem se é (representado pela recuperação do verdadeiro nome), assim como da necessidade de se ter um propósito na vida (salvar a si, seus pais e Haku), mas, sobretudo sobre o fato de que ninguém é feliz isolado, somos parte de uma cultura e de uma sociedade, e é na interação com os outros que nos encontramos e descobrimos nossa força interior.

Mas qualquer análise feita é pouco para descrever a complexidade, o lirismo e a beleza desta obra de Miyazaki.

Além de todos esses fenomenais aspectos contidos na história, ainda se tem o acréscimo da alta qualidade da animação, muito superior ao da maioria das atuais produções, sejam elas japonesas ou americanas. Cada quadro é mais magnífico que o outro, alternando momentos de sublime beleza a outros que podem ser descritos como grotescos, mas ambos os tipos, a seu modo, não deixam de ser impactantes.

A Viagem de Chihiro definitivamente não é um filme para crianças. É atemporal. E tenho certeza que quem for assisti-lo despido de qualquer preconceito e pré-conceito vai se surpreender e se apaixonar.

A título de curiosidade, além do Oscar 2003 por melhor longa-metragem de Animação, A Viagem de Chihiro ganhou os seguintes prêmios:

  • Urso de Ouro do Festival de Berlim (primeira animação a ganhar o prêmio)
  • Melhor Filme de 2001, Academia Japonesa de Cinema
  • Outstanding Achievement, Melhor Direção, Melhor Roteiro, Melhor Música, Annie Awards de 2002
  • Melhor Longa-Metragem Animado de 2002, NY Film Critics Circle Awards, LA Film Critics Awards, Critics` Choice Awards, NY Film Critics Online Award, Florida Film Critics Circle, National Board of Review, Online Film Critic Society, Dallas-Forth Worth Critics, Phoenix Film Critics Society
  • Special Commendation for Achievement in Animation, 2002 Boston Society of Film Critics Awards
  • Melhor Trilha Sonora em Comédia ou Musical, 78th Annual Glaubber Awards
  • Melhor Filme Animado ou de Mídia Mista, 7th Annual Golden Satellite Awards
  • Preferido do Público, 45th San Francisco International Film Festival
  • Melhor Filme Asiático de 2002, Hong Kong Film Awards
  • Melhor Filme, Cinekid 2002 International Children`s Film Festival.
     

Direção:
Hayao Miyazaki

Com as vozes de:
Rumi Hiragi, Miyu Irino, Mari Natsuki, Takashi Naitô, Yasuko Sawaguchi

Duração:
2h05min

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