Van Helsing:
O Caçador de Monstros

(Van Helsing, EUA, 2004)



A expectativa era a pior possível. A crítica americana, a brasileira (que em grande parte só segue a onda da americana), o público que teve acesso a sessões promocionais... todos estavam acabando com VAN HELSING: O CAÇADOR DE MONSTROS. Imagine a minha surpresa.

Não, não estou tentando ser diferente ou ir contra a maré. Acho Stephen Sommers um diretor acima da média dos diretores comerciais americanos, principalmente no divertido Tentáculos. A Múmia é uma boa aventura e O Retorno da Múmia é assistível. Mas ouso dizer que em uma luta entre Hugh Jackman e Brendan Fraser, Jackman ganha. Não ganha de Treat Williams mas isso já é outra história.

Sim, VAN HELSING é melhor do que A Múmia ou sua continuação.

Resumindo: Gabriel Van Helsing é um caçador de monstros a serviço de uma tal Ordem. Apesar do esconderijo ser no Vaticano, pessoas de todas as raças e religiões fazem parte dessa organização, incluindo o frei Carl, vivido por David Wenham, o Faramir de O Senhor dos Anéis, que é o responsável pela fabricação das armas. Os dois vão à Transilvânia para matar Drácula e defender a princesa Anna Valerious, vivida pela bela Kate Beckinsale (foto ao lado), recém saída de Anjos da Noite - Underworld.

O roteiro pára por aí. Aliás, como diria o Kas (que diz estar citando o Heitor Capuzzo), parece que Sommers escreveu o roteiro no banheiro. Ele abre um leque de histórias paralelas mas não resolve nenhuma. A origem de Van Helsing, sua natureza, sua relação com Anna Valerious ou com Drácula, nada disso é explicado. Se não fosse mencionado, tudo bem. Mas parece que o diretor/roteirista/produtor quis criar algo para ser usado em uma continuação e acaba perdendo o fio da meada. Por exemplo: se você estranhou o nome Gabriel ao invés de Abraham, isso é uma liberdade que Sommers tomou apenas por detestar o nome Abraham. Acho que a mudança até veio para bem pois esse novo Van Helsing é tão diferente do original que é melhor encará-los como dois personagens completamente diferentes. Primos, irmãos, escolha à vontade.

Outro problema é que os personagens são de papelão, possuem a profundidade de um pires. Nenhum surpreende ou se mostra mais do que aparenta ser. Aliás, falham em emocionar ou atrair o espectador. Até Hugh Jackman demora um pouco para conquistar o público pois, apesar de seu carisma inegável, ele simplesmente não tem boas falas. Aliás, ninguém tem, com a exceção de David Wenham. Mas aqui, as ações contam muito mais que as palavras.

É triste ver que o que atrapalha o filme é o próprio diretor. Afinal, Sommers acumula em suas mãos as principais funções em um filme e acaba faltando o senso crítico. Pode-se fazer um filme que seja bobo, vazio, mas com grandes efeitos e cenas de ação ininterruptas? Claro! Mas poderia ser um filme com conteúdo e ainda assim ter os efeitos e a ação. É o que diferencia a trilogia O Senhor dos Anéis dos outros. Mas é o mesmo problema de A Liga Extraordinária que, por sua vez, é ruim mesmo. É o uso (ou desperdício?) de personagens fenomenais.

Mas o filme não é bom? Calma! Chegaremos lá!

VAN HELSING é uma sessão da tarde no melhor sentido da palavra. Repito: é bobo, vazio e acaba se tornando uma grande sequência de cenas de ação. É até um pouco longo, são duas horas e doze minutos de projeção. Mas é um tempo de diversão pura, mesmo que descerebrada. Não chega aos pés de um Indiana Jones, por exemplo, mas diverte.

Por mais que os efeitos digitais sejam usados em demasia (e nem são muito bem usados em algumas cenas), ainda são eficientes. O visual dos monstros, principalmente das noivas de Drácula, são bacanas. Para quem gosta de RPG, o lobisomem é uma adaptação perfeita de um Crino de Lobisomem: O Apocalipse. Aliás, o que Anjos da Noite: Underworld ficou devendo em mostrar uma luta entre um vampiro e um lobisomem, VAN HELSING compensa e até tira de letra. Além do mais, os efeitos são das duas melhores empresas da atualidade: a WETA Digital de Peter Jackson e a Industrial Light and Magic de George Lucas. Alguns podem até achar que parece falso mas o uso é tão intenso que você acaba se acostumando (e gostando!) lá pro meio da projeção.

Do começo ao fim, tudo parece, além de uma aventura, uma homenagem. Não só aos monstros em si, mas à própria Universal e a seus antigos filmes. Os primeiros minutos, em preto e branco, dão uma grande sensação nostálgica, mostrando até mesmo um certo respeito ao monstro de Frankenstein e fazendo dele um ser amedrontado e perseguido ao invés de uma simples criatura sem consciência ou sentimentos.

Uma das coisas que eu temia era os gadgets, os apetrechos que Van Helsing faria uso. Até isso acaba funcionando pois é dada uma certa atenção aos detalhes que fazem com que elas não se sobressaiam tanto ou fiquem exageradas demais. Na verdade, elas nem são tão usadas assim.

Algumas coisas no filme são genuinamente boas. A música de Alan Silvestri é enérgica e eficiente como um bom John Williams. Faltou só uma música tema mais forte para que você saísse assobiando do cinema, mesmo caso da trilha de Sinbad: A Lenda dos Sete Mares, de Harry Gregson-Williams. Só de não ser bandas de Nu-Metal já me deixa mais que satisfeito. A fotografia de Allen Daviau, que trabalhou com Steven Spielberg em E.T., Império do Sol e A Cor Púrpura também é extremamente competente, assim como os designs dos sets.

Hugh Jackman é um charme, Kate Beckinsale é linda (apesar de ser dela o pior papel do filme) e David Wenham mostra um lado cômico surpreendente. São dele as boas piadas. O protegido de Sommers, Kevin J. O'Connor, disfarçado sob a pesada maquiagem de Igor, aparece pouco e não chateia como em A Múmia. O Drácula de Richard Roxburgh é bem diferente do célebre ser que ficamos acostumados a ver nos velhos filmes com Christopher Lee ou mesmo Gary Oldman no impecável Drácula de Bram Stoker de Francis Ford Coppola.

VAN HELSING é uma tremenda matinée e tem a despretensão de até fazer graça em cima dele mesmo. Nos faz relembrar os tempos de criança onde lógica, física e outras coisas mundanas não importam. E serve para mostrar a picaretas como McG, Paul Anderson, Michael Bay e Simon West que, mesmo com um roteiro horrendo, pode-se fazer um filme bastante divertido.

     

Direção:
Stephen Sommers

Com:
Hugh Jackman, Kate Backinsale, Richard Roxburgh, David Wenham, Kevin J. O'Connor, Elena Anaya

Cotação: