O Senhor dos Anéis: As Duas Torres
(The Lord of the Rings: The Two Towers, EUA, 2002)
Por: Gelogurte

Imagine a cena: você é um alto executivo de um estúdio de Hollywood. Vamos dizer que você é um dos cabeças da New Line, subsidiária da Warner Bros. Entra na sua sala um neo-zelandês, baixinho, com óculos enormes, cabelos compridos e despenteados, barba por fazer, trajando uma bermuda velha e uma camisa polo bem gasta, dizendo que quer fazer dois filmes baseado na trilogia literária O Senhor dos Anéis de J. R. R. Tolkien. "Bem, quais são os filmes que você já fez?" - você pergunta. Ele responde que, na maior parte, filmes de zumbi de baixíssimo orçamento como Fome Animal e Trash - Náusea Total. Na verdade, seu maior trabalho foi para os estúdios da Universal, escrevendo, produzindo e dirigindo Os Espíritos, que teve os efeitos visuais realizados pela seu própria empresa, a Weta Workshop e produção executiva de Robert Zemeckis. Ele diz também que um dos seus filmes, Almas Gêmeas, foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original. A decisão está nas suas mãos. Essa pessoa que você mal sabe quem é pede para que você invista nele uma quantia absurda de dinheiro para que ele possa fazer os dois filmes. O que você responde? Se você fosse Robert Shaye, um dos produtores executivos, responderia algo como "Espere um pouco. Não são três livros? Por que não fazemos três filmes?".

E, alegorias à parte, foi assim que Peter Jackson saiu de uma quase anonimidade na Nova Zelândia e entrou para a lista dos mais cobiçados diretores da atualidade. Isso, depois de ser recusado por todos os outros estúdios e até mesmo esnobado pela 20th Century Fox, para quem o diretor disse que nunca trabalhará. Sua trilogia O Senhor dos Anéis que terá um custo total de pouco mais de US$ 300 milhões, já arrecadou quase o triplo deste valor apenas com o primeiro filme, A Sociedade do Anel, chegando à uma bilheteria total de US$ 860 milhões de dólares em todo o mundo, a segunda maior bilheteria de 2001, atrás apenas de Harry Potter e a Pedra Filosofal. Além disso, o filme é a nona maior bilheteria de todos os tempos nos Estados Unidos.

Na verdade, O Senhor dos Anéis nem estava nos planos atuais do diretor. Sua intenção era fazer junto à Universal, um "remake" do clássico King Kong de 1933, que tem direção de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, um dos filmes favoritos do neo-zelandês. Mas a Universal preferiu não arriscar um filme de altíssimo orçamento com um diretor desconhecido após o fracasso de Godzilla, de Roland Emmerich, preferindo manter-se longe desse gênero e acabou investindo na aventura A Múmia, de Stephen Sommers. Aliás, um outro filme "de monstro" que foi rejeitado pelo estúdio na época foi Hulk, baseado nos quadrinhos da Marvel Comics. Mas com o estrondoso sucesso de Homem-Aranha lançado pela Columbia Pictures em abril desse ano, a Universal voltou atrás e Hulk está sendo filmado por Ang Lee, diretor do ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, O Tigre e o Dragão. No elenco, estão o desconhecido australiano Eric Bana de Falcão Negro em Perigo e a bela e talentosa Jennifer Connelly, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Uma Mente Brilhante. O filme tem estréia marcada nos Estados Unidos para 20 de junho de 2003.

Depois da decepção de King Kong, Jackson e sua esposa Fran Walsh começaram a desenvolver O Senhor dos Anéis para a Miramax, subsidiária da Disney. Mas o valor astronômico da produção fez com que o estúdio recusasse o projeto, que foi parar nas mãos da New Line.

A partir do próximo dia 27, entra em cartaz em todo o Brasil a segunda parte da trilogia O Senhor dos Anéis, com o título As Duas Torres. O filme volta um pouco no tempo e começa quando Gandalf (Ian McKellen) cai nas sombras junto com o demônio Balrog durante a travessia das minas de Moria. Contar mais é estragar a surpresa mas uma coisa é certa: o filme já começa impressionante.

O filme mostra então uma Sociedade do Anel dividida. Os hobbits Frodo (Elijah Wood) e Sam (Sean Astin) estão tentando chegar a Mordor e ao castelo de Sauron, sendo seguidos pelo asqueroso Gollum (Andy Serkis). Aragorn (Viggo Mortensen), Legolas (Orlando Bloom) e Gimli (John Rhys-Davies) estão à caça do grupo de guerreiros Uruk-Hai que capturou Pippin (Billy Boid) e Merry (Dominic Monaghan). Por isso, se você começar a se sentir como se tivesse pego o filme no meio, não se preocupe, é assim mesmo. As Duas Torres é um meio de filme. Mas claro, tem início, meio e fim, assim como o seu antecessor. Aliás, é tão bom quanto! Mas para assistir à história completa, só mesmo em 2004, quando teremos as versões extendidas da trilogia disponível em DVD. Infelizmente, apenas importado, já que a Warner Bros. Brasil não dá sinal de que vai lançar tais versões. Só resta ao fã brasileiro esperar e torcer.

As Duas Torres, assim como seu antecessor, é um filme para todos os gostos. O companheirismo e a amizade, seja entre um homem e seu cavalo ou entre um elfo e um anão, ainda é um dos principais temas do filme. A busca pela redenção, o amor impossível, a busca pela batalha certa. Todos aqueles sentimentos que, de alguma forma, tocam as pessoas de maneiras diferentes por motivos diferentes. Como não se identificar com Frodo e sua dor ao ver que seu destino pode ser tão terrível como o de Gollum? Ou com Aragorn e seu amor impossível por Arwen?

Quando falamos em atuações em um filme como esse, fica difícil saber quem é o melhor pois todos se encaixam como uma luva. Cada um deles parece ter nascido para o papel e acabamos esquecendo que Ian McKellen, por exemplo, não nasceu Gandalf, ou que Christopher Lee não nasceu Saruman. Mas com certeza esses serão os papéis pelos quais os atores serão associados por um longo tempo. No caso dos mais jovens, apesar de experientes, como Elijah Wood e Sean Astin, fica quase impossível lembrar de filmes como O Anjo Malvado ou Os Goonies. Viggo Mortensen pode ser considerado o sortudo do grupo, já que foi chamado para substituir o irlandês Stuart Townsend (o Lestat de A Rainha dos Condenados) na última hora. O ator que vivia de papéis pequenos em filmes caros como Um Crime Perfeito, Daylight e Maré Vermelha, agora é capa das principais revistas de cinema de todo o mundo. Mas indicar qualquer um deles a um Oscar seria injustiça com todos os outros.

A personagem Gollum é talvez a mais bem feita criatura digital já criada até hoje. Cada ruga, traço e expressão facial foi cuidadosamente adaptada do rosto do ator Andy Serkis e o resultado vale uma indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante, como a New Line tem feito campanha. Além disso, Gollum é um fator crucial na história, como foi deixado claro em A Sociedade do Anel. O que vemos não é simplesmente um Jar Jar Binks (da decepcionante nova trilogia de Star Wars) ou Dobby, o Elfo da Casa (do ainda mais decepcionante e longo Harry Potter e a Câmara Secreta). Gollum é um personagem aflito, torturado, que sofre de uma forte crise de dupla identidade, que consegue fazer com que o espectador sinta pena ou raiva, dependendo da cena. Às vezes, os dois. Gollum é responsável por uma das cenas mais marcantes do filme, o seu "diálogo" com Sméagol.

Se o efeito especial evidente impressiona, o efeito invisível é ainda mais surpreendente. Os magos neo-zelandeses da Weta mostram que George Lucas e sua Industrial Light and Magic, a mais renomada empresa de efeitos especiais do mundo, ainda têm muito o que aprender. Durante a batalha do Abismo de Helm, por exemplo, em várias cenas, temos o uso de miniaturas, atores reais e milhares de guerreiros digitais, tudo isso mesclado em um mesmo quadro ao mesmo tempo. Nada parece deslocado ou fora do lugar.

Dessa forma, Peter Jackson entrega um filme magistral em todos os sentidos possíveis da palavra. Cinema como deve ser: mantendo o espetáculo mas sem deixar de lado os sentimentos e uma excelente história. Não premiar A Sociedade do Anel com os principais prêmios da Academia (principalmente Roteiro Adaptado e mesmo Melhor Filme) foi um crime. A história provavelmente se repetirá na entrega do Oscar ano que vem. A única justiça verdadeira seria se, em 2004, a Academia desse a Jackson um prêmio especial pela sua obra. Não pelo conjunto de todos os seus filmes, apenas à sua trilogia. Afinal, por melhor que algumas pessoas possam achar o filme, garanto que em dez anos, Uma Mente Brilhante, vencedor do Oscar, estará esquecido em uma prateleira empoeirada da memória da maior parte da população mundial, enquanto O Senhor dos Anéis é um marco da história do cinema. Assim como era Star Wars, até George Lucas começar a mudar os efeitos especiais da trilogia original e depois se empreitar em uma nova que está estragando sua reputação.

E o bom filho à casa torna. Quais serão os próximos projetos de Peter Jackson para depois que a trilogia O Senhor dos Anéis estiver concluída? Filmes de zumbis de baixo orçamento, só para relaxar. O diretor é um fã declarado desse tipo de filme e reclama que ninguém os produz mais, então que se ele quiser assistir algum novo, ele mesmo tem que fazer. Depois disso, quem sabe uma segunda tentativa com a Universal para que seu projeto King Kong saia do papel.

     

Direção:
Peter Jackson

Com:
Elijah Wood, Ian McKellen, Viggo Mortensen, Orlando Bloom, John-Rhys Davies, Liv Tyler, Cate Blanchett, Andy Serkis, Christopher Lee

Nota: