Tróia
(Troy, EUA, 2004)



O maior elogio que se pode fazer a TRÓIA é que o filme de Wolfgang Petersen evita a todo custo os maneirismos visuais e narrativos modernos, quase uma prerrogativa nas atuais grandes produções de estúdio. Petersen fez um filme à moda antiga, até mesmo anacrônico. Mas isso age a seu favor.

Por outro lado, o diretor alemão não é William Wyler, David Lean, George Stevens, Anthony Mann e muito menos Stanley Kubrick. Seu TRÓIA pode lembrar por vezes os grandes épicos de outrora, mas nunca é grande e maior que a vida o suficiente. Grandeza em um épico não é simplesmente encenar batalhas com milhares de soldados ou encher a tela com cenários opulentos. Tanto que os melhores momentos de TRÓIA - e aqueles que mais se aproximam das mega-produções do passado - não são os das cenas de batalha.

Estas explicitam a influência que O Senhor dos Anéis tem sobre as superproduções modernas. Mas nem por um momento chegam a empolgar como as criadas por Peter Jackson.

Não quer dizer porém que TRÓIA não tenha outros méritos. O roteiro de David Benioff pode errar aqui e ali com alguns diálogos capengas, mas cria situações capazes de manter o interesse do público pelas mais de 2 horas e 40 minutos de projeção. Mas o melhor são os personagens. Ao contrário do que a crítica em geral vem dizendo, o Aquiles de Brad Pitt não é um popstar da época atrás apenas de glória e sucesso. Mesmo afirmando que os deuses invejam a finitude dos homens, Aquiles quer ser tão imortal quanto eles e sabe que a única forma de superar sua condição humana é atingindo a notoriedade eterna lutando em Tróia. Seu corpo pode perecer, como afirma sua mãe, a deusa Tetis (Julie Christie), mas seu nome será lembrado para sempre.

Se Aquiles tem motivação suficiente para justificar seus atos, o troiano Heitor é ainda melhor. Único sensato em uma época de belicismo e superstição, Heitor foi um presente dos deuses para Eric Bana, que aproveita ao máximo o potencial do papel, construindo um personagem memorável e emocionante, um homem honrado dividido entre os interesses de seu país e o amor pelo seu irmão Páris.

Os demais nomes do elenco estelar se saem com dignidade. Brian Cox se firma como um dos vilões de plantão do momento, mas o faz com firmeza. Se Páris parece um fraco na tela, não é por causa de Orlando Bloom. Ele consegue inclusive criar empatia para seu personagem, um jovem imprudente e egoísta - como o são a maior parte dos adolescentes - mas que ao mesmo tempo procura amadurecer perante a crise que desencadeou. Sean Bean compõe um Ulisses amargurado e consciente dos excessos de seu governante mas sempre fiel a Grécia. A novata Diane Kruger, que tem na minha opinião o papel decisivo de toda a trama não brilha mas também não compromete, se limitando a aparecer linda.

O melhor porém fica com o grande Peter O'Toole. Há muito tempo O'Toole não tem um papel à altura de seu talento majestoso quanto aqui. E o ator preenche cada milímetro da tela quando surge em cena. Sua presença magistral se faz sentir mesmo quando não está lá, seja na persona de Heitor, seja na fidelidade de seus comandados. Bem que o ator declarou, quando foi anunciado que receberia um Oscar por sua carreira, que ainda era capaz de ganhar uma estatueta por conta própria, não necessitando da homenagem. E aqui ele prova que estava certo. Sei que ainda é cedo para se falar em prêmios mas dêem um Oscar para Peter O'Toole por TRÓIA! É de Peter O'Toole a melhor cena do filme, quando este confronta Aquiles e ensina ao semi-deus o que significa respeito e imponência.

Imponência esta que faz falta em Brad Pitt. Seu Aquiles é esforçado mas nunca impressiona como deveria. O personagem deveria impor como Spartacus fazia, mas isso nunca chega a acontecer. Pitt pode ser mais bonito e fotogênico, mas não possui a mesma presença de cena que seus colegas de elenco. É inevitável sentirmos falta o tempo todo de um Daniel Day Lewis, que consegue impor só com a intensidade do olhar. Mas qual filme não ficaria melhor com Day Lewis?

Não vou entrar no mérito de fidelidade ao relato de Homero, já que adaptações são sempre necessárias por finalidades dramáticas, mas incomoda as concessões excessivas ao que se supõe ser o gosto médio do público, como as patéticas tentativas de esconder o relacionamento homossexual entre Aquiles e Patroclus (Garrett Hedlund). No filme, Patroclus é apresentado como "primo" de Aquiles, o que lembra as alcunhas pelas quais homossexuais enrustidos gostam de apresentar seus amantes mais jovens, como "este é meu sobrinho". É rídículo. Acredito que o público é inteligente o suficiente para entender o contexto da época, em que relações homossexuais entre homens era algo aceitável, principalmente entre mestre e pupilo, que é o que acontece aqui. Inclusive essa informação agregaria inteligência à relação entre ambos os personagens. Não acho que o público iria condenar Aquiles e tratá-lo como uma "bichinha zangada", como parece acreditar os executivos de Hollywood.

Um acerto de Petersen foi nunca fazer da guerra algo bonito de se ver. Suas batalhas estão longe de ser glamourizadas. Como no superestimado O Barco: Inferno no Mar, Petersen faz com que o público torça todo o tempo para que a guerra não aconteça e que todos consigam resolver suas desavenças e manter a paz. Daí a importância que ganha Heitor na trama. É com ele e com seu discurso pacifista que o público se identifica. Não é pouco para uma época em que discursos anti-bélicos podem ser confundidos com anti-patriotismo.

Os valores de produção são grandes, como não poderia ser diferente numa produção de US$ 200 milhões. Fotografia, cenários, figurinos, música e efeitos são competentes como se espera, sem nunca aparecer mais que a trama ou os personagens.

É principalmente graças aos seus personagens que TRÓIA se segura. Há 40, 50 anos atrás teríamos Kirk Douglas como Aquiles, Charlton Heston como Heitor, Tony Curtis como Páris, Michael Rennie como Ulisses, talvez a própria Julie Christie como Helena. Mas teríamos mais que um artesão competente e irregular como Wolfgang Petersen na comando, capaz de elevar uma empreitada como esta acima da mera diversão e galgar até o Olimpo dos grandes épicos do cinema.

     

Direção:
Wolfgang Petersen

Com:
Brad Pitt, Eric Bana, Orlando Bloom, Brian Cox, Diane Kruger, Saffrom Burrows, Sean Bean, Brendan Gleeson, Julie Christie, Peter O'Toole, Tyler Mane

Nota: