Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith
(Star Wars: Episode III - Revenge of the Sith, EUA, 2005)


Quero deixar bem clara a minha posição em relação a STAR WARS. Confesso que sou uma fã da saga. Fã apaixonada, diga-se de passagem. Quando eu tinha cerca de uns nove anos de idade, assisti pela primeira vez a O IMPÉRIO CONTRA ATACA e ainda me lembro do impacto que, para mim, foi descobrir que o vilão da história era pai do herói. Se não fosse esse filme, eu não teria me apaixonado por cinema, e consequentemente, por literatura de fantasia, mitologia e quadrinhos. Isso realmente mudou a minha vida e agradeço eternamente a George Lucas por ter me aberto a porta para um mundo muito maior que o meu quintal.

Mas, não é por ser uma fã que devo fechar os olhos diante dos inúmeros erros e equívocos que a atual trilogia carrega consigo. Alguns podem dizer que pelo fato de eu ser fã é que tanto me irritou esses deslizes de Lucas. Pode até ser. Mas nunca fui uma fã fanática que fica irada com qualquer mudança que contradiga a minha visão das personagens. Isso nunca foi problema para mim. Sou tão apaixonada por Tolkien e por Harry Potter quanto sou por STAR WARS, mas isso não me impediu de concordar com as alterações sofridas na trama e nas personagens na trilogia do SENHOR DOS ANEÍS e em HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN, pois foram mudanças que efetivamente enriqueceram a história do ponto de vista cinematográfico.

O que realmente me irritou foi o fato de uma história com tanto potencial quanto a derrocada de Anakin Skywalker (Hayden Christensen) e sua conseqüente transformação em Darth Vader tenha se tornado algo tão superficial diante da grandiosidade que ela demandava.

Antes que me atirem pedras, não estou dizendo que STAR WARS: EPISODIO III - A VINGANÇA DOS SITH seja um filme ruim, mas também não é um filme sensacional. Até concordo que ele é o melhor dos três filmes da atual trilogia, mas poderia ser muito mais do que aquilo que foi mostrado na tela.

Mesmo para quem não é fã, o filme não funciona completamente como um produto empolgante de entretenimento. Começa com uma ação desenfreada, mas depois fica morno e um pouco monótono até chegar à virada total. Esse, contudo, é uma falha que já existia no episódio anterior, ATAQUE DOS CLONES.

O grande problema desta nova trilogia reside em uma única pessoa: George Lucas. Sim, o grande criador da saga estelar é o culpado pela perda da magia nesta nova cinessérie.

Lucas pode ser um excelente homem de negócios, um bom produtor, um pioneiro nas áreas de efeitos visuais e efeitos sonoros, mas não é e, me desculpem, nunca foi um bom roteirista e, principalmente, um bom diretor.

Podem dizer que estou exigindo demais de alguém que quer fazer um filme de entretenimento, mas isso não é desculpa. Existem excelentes diretores desse tipo de filmes, que mesmo (ou principalmente) buscando a diversão do público, conseguem imprimir em suas obras um traço pessoal e original, construindo obras-primas. Citar Spielberg é mais que óbvio, Peter Jackson também.

Lucas é um excelente argumentista, mas não tão bom para desenvolver suas histórias, que ficam muito mais interessantes quando trabalhada por outros.

Nessa nova trilogia ele peca por dar atenção aos efeitos especiais, às cenas de luta, ao visual até mesmo um pouco exagerado. Claro que os efeitos são importantes, claro que as elaboradas cenas de lutas entre jedis são de tirar o fôlego e nos fazer segurar na poltrona, claro que ver naves fazendo loopings ousados no espaço fazem o coração acelerar. Contudo isso não basta! De que vale todas essas coisas, se a história fica vazia de conteúdo? Se as personagens não causam uma real empatia no público?

Não que Padmé, Anakin ou Obi-Wan sejam personagens ruins e nem um pouco carismáticas. Quem teve a oportunidade de assistir à série animada STAR WARS: CLONE WARS, no Cartoon Network, concebida por Gendy Tartakovsky (O LABORATÓRIO DE DEXTER, SAMURAI JACK) sabe o quanto essas personagens podem ser cativantes e envolventes.

Aliás, ver CLONE WARS – que se passa entre ATAQUE DOS CLONES e A VINGANÇA DOS SITH - faz com que ver os filmes seja ainda mais frustrante, pois Tartakovsky conseguiu realmente retomar toda a magia e o clima da trilogia original, equilibrando na medida certa os momentos de ação, humor, romance e drama. Coisa que infelizmente escapou a Lucas.

É incrível que um personagem tão fascinante quanto o General Grievous, surgido no desenho como uma figura verdadeiramente ameaçadora e aterrorizante, capaz de matar sozinho três Jedis, um padawan e deixar duas Jedis seriamente hospitalizadas, perca tanto da sua forma ao ser transportado para o cinema, a ponto de receber uma morte que poderíamos denominar de no mínimo patética.

Mas, mais lamentável mesmo é o modo como toda a história é construída. Quando Anakin enfrenta Dookan (Christopher Lee) é explicita a referência à cena do duelo entre Luke Skywalker e Vader na presença do Imperador na Estrela da Morte em O RETORNO DE JEDI. A mesma iluminação, o cenário semelhante... E por que a seqüência não tem o mesmo impacto da original? Talvez por ser rápida demais, talvez por que o conflito de Anakin em matar ou não Dookan tenha sido resolvido de um modo tão rasteiro que a sua dramaticidade se esvaiu completamente.

A própria transformação de Anakin em Vader, mesmo sendo reforçada pelas visões constantes da morte de Padmé (Natalie Portman) pelo jedi e futuro sith, parece-nos acelerada e destituída de uma carga motivacional maior. Obviamente existem todas as armações de Papaltine (Ian McDiarmid) ao manipular Skywalker, existem os sentimentos de Anakin frente a Conselho Jedi, que ele acredita não confiar nele. Mas, ainda assim, falta algo consistente para realmente acreditarmos nessa transformação tão radical.

E sabe o que verdadeiramente faltou? Uma interpretação mais apaixonada de todos os atores. Quem conhece os trabalhos de Ewan McGregor (TRANSPOTTING) e Natalie Portman (basta verem CLOSER, que vocês realmente vão ver do que esta menina é capaz) sabe que eles podem muito, muito mais do que mostraram na película. E acredito que Hayden Christensen não seja tão ruim quanto pintam.

Apaixonado pela tecnologia, Lucas parece esquecer que o que realmente faz um filme (além de saber contar uma história) é extrair do seus atores a capacidade de criar uma empatia tal com o público a ponto de os espectadores se apaixonarem pelas personagens e se importarem de coração com elas. Mas cada um dos atores parecem autômatos em cena. A seqüência na qual Obi-Wan descobre que Anakin matou todos os pequenos padawans no Templo Jedi é uma ducha de água fria. Para alguém que acaba de ver seu aprendiz, alguém que você criou desde os nove anos de idade, treinou, viu crescer e considera como irmão, trair a você e a tudo em que você acredita de modo tão hediondo, Obi-Wan se mostra impassível por demais. Claro que ele é um jedi e deve controlar seus sentimentos, mas mesmo um jedi sofreria pelo choque. As reações de Yoda (Frank Oz), geradas por computador, diante da grande verdade, são muito mais “humanas” que as de Obi-Wan.

Outros pequenos detalhes passam liso pelo filme sem maiores aprofundamentos. Por exemplo, para mim nunca, realmente nunca ficou claro, no decorrer dos filmes, como nasceu essa forte amizade entre Anakin e Papaltine, essa relação quase paternal a ponto de Skywalker confiar assim tão cegamente no futuro Imperador.

Também fiquei com a sensação de que os Jedis ou são muito burros ou muito idiotas. Pelo menos Anakin e Obi-Wan. É tão na cara que Papaltine é um Lord Sith que só faltava ele usar uma plaquinha de néon no pescoço com os dizeres Darth Sidius para deixar mais óbvio. A fala dele durante a luta de Anakin com Dookan, a história que ele conta sobre um Lord Sith para Anakin. Será que o jovem mestre nunca se perguntou como Papaltine tinha conhecimento daquilo? O mesmo digo de Obi-Wan (e dos demais Jedis) sobre a gravidez de Padmé. Sempre que Obi-Wan vai procurar alguém para conversar sobre Anakin, lá vai ele atrás de Amidala. A senadora aparece grávida, ninguém sabe quem é o pai, e Ben Kenobi nem mesmo chega a se perguntar sobre isso? Por favor, é só somar dois mais dois... Como o raciocínio lento de Obi-Wan somou depois de nove meses.

A luta final entre Anakin, já sagrado Darth Vader, e Obi-Wan no planeta de lava também é decepcionante. Esteticamente impecável, mas tão cativante quanto poderia ser. Quem se lembra de O RETORNO DE JEDI, sabe que o mais legal na luta entre Vader e Luke na presença do Imperador era a junção entre a luta propriamente dita e os diálogos entre as três personagens. A verdadeira batalha se passava nos corações de Luke e Vader. O filho dividido entre salvar o pai e proteger a irmã. Entre se render ao lado negro da força ou manter-se fiel aos preceitos jedis. O pai entre servir ao mestre ou recuperar a bondade em seu coração e proteger o filho.

Na luta ente Ani e Obi-Wan não existe conflito, ou ele é tão banalizado a ponto de argumentação dos jedis serem piores que as de crianças de cinco anos. Ben vira para Anakin e diz: “Palpatine é mau!”, ao que Ani replica: “Para mim, os Jedis é que são maus!” E a discussão fica por isso mesmo.

Mas para não dizerem que eu estou sendo inclemente com A VINGANÇA DOS SITH, existem algumas seqüências muito bem sacadas e interessantes. A morte dos Jedis por toda a galáxia, sendo traídos pelos exércitos de clones foi chocante e ao mesmo tempo comovente. A visita de Anakin ao templo dos Jedis, onde mata todas as crianças. A visita dele aos líderes separatistas. E, principalmente a transformação final de Anakin em Vader na cama cirúrgica mostrada em paralelo ao nascimento dos gêmeos. Também não poderia deixar de destacar a construção da Estrela da Morte e o fim do filme, enfocando Owen, Beru e o bebê Luke em Tatooine, como elo explicito ao EPISÓDIO IV.

Contudo, o que realmente me irritou em A VINGANÇA DOS SITH foi a falta de atenção de Lucas à sua própria obra. Lucas deixa escapar um erro de continuidade quase aberrante. Quem viu O RETORNO DE JEDI, deve se lembrar que Luke, antes de contar para Leia que eram ambos irmãos e filhos de Vader, pergunta à princesa como era a mãe dela, a VERDADEIRA mãe dela. Leia diz que se lembra muito vagamente, mas que a mãe era uma mulher muito bonita mas muito triste.

Como assim? Padmé morre no parto em A VINGANÇA DOS SITH. Como é possível que a princesa se lembre da mãe se apenas a viu quando era uma recém-nascida na hora do parto? Seria Leia tão forte na Força a ponto de reter uma lembrança de seu próprio nascimento?

Do jeito que Lucas é, não duvido nada que, depois que ele veja a manota que deu, ele chame Mark Hamill (Luke) e Carrie Fischer (Leia) para redublarem essa cena em O RETORNO DE JEDI. Não seria algo inédito.

Mas entre muitos trancos e vários barrancos, finalmente a verdade sobre Darth Vader foi revelada, mesmo não sendo exatamente a que queríamos ouvir.

     

Direção:
George Lucas

Com:
Hayden Christensen, Ewan McGregor, Ian McDiarmid, Natalie Portman, Samuel L. Jackson, Frank Oz, Christopher Lee, Jimmy Smits, Kenny Baker, Anthony Daniels, Keisha Castle-Hughes, Peter Mayhew

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