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Os
Sonhadores
(The Dreamers, EUA, 2004)
Numa
idade em que a maior parte dos cineastas deixa a inquietação
de lado e se acomoda em trabalhos burocráticos, Bernardo
Bertolucci parece ir na direção contrária
e filma cada vez com mais paixão adolescente. De conformista
o cineasta parece não ter nada, como nos diz BELEZA ROUBADA,
ASSÉDIO e agora o maravilhoso OS SONHADORES.
Dos
filmes mais belos dos últimos anos e dos melhores que Bertolucci
realizou em sua brilhante carreira, OS SONHADORES é daquelas
obras que permanecem, caso você se deixe impregnar por ela.
O tesão que o cineasta exibe aqui é contagiante. O
filme me tirou o sono por vários dias, e não só
pela vênus escultural que é a Eva Green.
O tesão está principalmente em sua narrativa suculenta,
seu bom gosto extremo, sua inteligência e seus movimentos
de câmera elegantes. Aliás, Bertolucci tem a câmera
mais elegante da atualidade. É incrível como o cineasta
consegue filmar resíduos corporais como sêmen, cuspe,
urina e sangue, sem nunca resvalar no gratuito e no grotesco.
Aqui
temos Bertolucci mais uma vez imerso nas agruras da juventude. Se
bem que não pode ser chamado exatamente de agrura passar
dias em uma mansão parisiense decandente, bebendo vinho,
fazendo sexo e discutindo cinema.
É
o que fazem os três protagonistas de OS SONHADORES.
Enquanto seus pais viajam e o mundo agoniza lá fora, os irmãos
Theo (Louis Garrel) e Isabelle (Green) convidam
o americano Matthew (Michael Pitt), com quem compartilham
o amor pelo cinema e a palidez de quem passa a maior parte da vida
em escuras salas de exibição, a ingressar em seu mundo
particular, onde não existe trangressão porque não
existe regra, a não ser a de nunca revelar ao mundo externo
a própria existência deste sub-universo. E é
claro, a obrigação em pagar as prendas, de formas
cada vez mais provocantes, que acompanham as perguntas sobre filmes.
O filme
tem início durante os protestos pela expulsão de Henri
Langlois do comando da Cinemateca Francesa que este mesmo fundou,
pelo recém-instituido Ministro da Cultura do governo De Gaulle,
Andre Malraux. Misturando cenas de arquivo com tomadas recentes
(inclusive reaproveitando Jean-Pierre Léaud,
que aparece tanto hoje quanto ontem, nas cenas de arquivo), Bertolucci
parece estar filmando outro planeta. Onde mais o povo iria às
ruas para protestar contra algo relacionado a cinema? No Brasil
é que não. Quando Collor acabou com os incentivos
(e a viabilidade) do cinema nacional, vários chiaram mas
ninguém protestou publicamente. Vendo não só
o movimento dos cinéfilos como também a forma que
apreciavam os filmes na época deixam um gosto ao mesmo tempo
doce e amargo na boca. Entre maratonas com a filmografia completa
de Nicholas Ray, discussões sobre o último Samuel
Fuller e reprodução da famosa corrida dentro do Louvre
de BANDE À PART de Godard, os protagonistas respiram cinema.
Em off, Matthew explica o porquê dos cinéfilos
que se prezam lutarem para sentar na primeira fileira da sala de
exibição, "...para assim receber a imagem
primeiro, ainda pura, sem que esta tenha sido contaminada pelos
olhos dos demais". É das maiores declarações
que já vi sobre o cinema, e não é a única
do filme.
Bertolucci
até mesmo introduz a mais famosa das disputas do mundo da
cinefilia: quem é melhor, Keaton ou Chaplin? E a cena em
que Isabelle reproduz os gestos de Greta Garbo em RAINHA CRISTINA,
reconhecendo pelo tato as formas do quarto, é de chorar.

Não
só de cinema trata OS SONHADORES, ainda
que a paixão pela arte esteja em cada fotograma. Bertolucci
aproveita para rever antigas inquietações: de ÚLTIMO
TANGO EM PARIS e ASSÉDIO aproveita a relação
entre os protagonistas e espaço físico; de LA LUNA,
a temática incestuosa; de ANTES DA REVOLUÇÃO,
os cortes bruscos e imprevisíveis; de BELEZA ROUBADA, o frescor
da narrativa; de 1900 e O ÚLTIMO IMPERADOR, o background
político.
É
impressionante a forma como o cineasta trata os elementos cênicos
para visualizar a condição dos personagens. Repare
nos espelhos sempre triplos que parecem estar em todos os ambientes
do casarão e pense em quanto isto nos diz sobre Isabelle,
por exemplo.
Mas
talvez, o que seja mais contundente em OS SONHADORES
é o olhar crítico que Bertolucci deposita sobre aqueles
jovens (sendo ele próprio um deles) que queriam mudar o mundo,
idealizando-o a partir, parece dizer o artista, de uma visão
romanceada e, porque não, cinematográfica da realidade.
O mundo particular dos protagonistas é um mundo de certa
forma infantil, uma espécie de Terra do Nunca, não
permitido aos adultos repressores. O sexo surge como se fosse uma
brincadeira de criança, sem maldade ou perversão,
evolução natural dos jogos infantis, bombardeados
de hormônios em ebulição. E todos agem como
se estivessem interpretando, mimetizando a atitude cool
de seus ídolos. Em determinado momento, Isabelle afirma,
ao ser questionada por Matthew, que morreria caso seus pais descobrissem
sobre sua relação com o irmão. A inconsequência
das afirmações e dos atos acaba sendo mais significativa
quando passa a abranger os eventos externos, no caso os protestos
de maio de 68. Só mesmo uma brincadeira maior ainda para
suplantar a que os jovens amantes praticam dentro da casa.
É
quando o filme finalmente abandona aquele espaço delimitado
para chegar às ruas que Matthew abandona igualmente as reações
infantis e adota uma postura sensata e madura, coisa que os irmãos
se recusam a fazer. E o que Matthew vê - e o público
vê com ele - é a visão que Bertolucci tem hoje
dos eventos, e daí o aspecto (auto) crítico.
E nos
faz com isso, freaks que somos, que nos critiquemos também.
É nesse ponto que o filme toca fundo, contrapondo o tesão
pela razão, como se nos cutucasse e nos dissesse, "Agora
você é um de nós".
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Direção:
Bernardo Bertolucci
Com:
Michael Pitt, Eva Green, Louis
Garrel, Anna Chancellor, Robin Renucci, Jean-Pierre Kalfon, Jean-Pierre
Léaud
Nota:
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