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Sinais
(Signs, EUA, 2002)
Por: Kas
O cinema
hollywoodiano é caracterizado pelo high concept, ou
alto conceito numa tradução apressada, termo utilizado
para designar as tramas que podem ser resumidas em uma linha. Por
exemplo: quatro parapsicólogos montam uma empresa para capturar
fantasmas. Ou ainda: um arqueólogo enfrenta diversos perigos
em busca da arca da aliança. Esta prática é
comum numa indústria onde os roteiros devem vir resumidos
em sua primeira página.
O cineasta
de origem hindu M. Night Shyamalan leva o high concept ao
limite. Seus filmes não apenas podem ser resumidos em uma
frase, eles são a própria frase. Isto não significa
necessariamente superficialidade ou falta do que dizer. O grande
desafio proposto por Shyamalan em seus longas é significar
muito falando pouco. O cinema de Shyamalan é composto por
narrativas lentas, tempos mortos, silêncios angustiantes.
E por high concept.
Um
psicólogo tenta ajudar um menino que consegue ver espíritos.
Um homem comum descobre ser um super-herói indestrutível.
Um fazendeiro tenta proteger sua família e recuperar sua
fé enquanto alienígenas invadem a Terra. As sinopses
de O Sexto Sentido, Corpo Fechado e Sinais
(que estréia hoje em todo o Brasil) não resumem o
filme, são o filme. Mas nem por isso O Sexto Sentido,
lançado sem muito alarde no final do verão americano
de 1999, deixou de arrebatar multidões e conquistar a crítica
com seu clima absorvente e final surpresa. E mesmo o ainda mais
radical Corpo Fechado, se não repetiu a bilheteria
acachapante do filme anterior, se saiu muito bem, sobrevivendo às
altas expectativas geradas pelo próprio sucesso de O Sexto
Sentido.
Sinais
é um passo à frente e dois atrás na fórmula
de Shyamalan. O diretor e roteirista gosta de visitar lugares familiares
no cinema americano para observá-los de outro ângulo.
O planeta Terra da imaginação hollywoodiana já
sofreu todo tipo de invasão de seres de outro planeta, sempre
sobrevivendo às raças mais malignas. Os personagens
de Shyamalan em Sinais não são aqueles que
criam fórmulas miraculosas ou pilotam astronaves para enfrentar
os invasores. Eles são aqueles que assistem de longe a batalha,
que se angustiam com as notícias cada vez mais alarmantes,
que sentem medo e que permanecem em casa, impotentes quanto ao destino
do planeta.
Neste
aspecto, o cinema de M. Night Shyamalan se aproxima muito mais do
universo dos quadrinhos que o cineasta tanto admira (e que homenageou
em Corpo Fechado). Universo este habitado por criaturas fantásticas
e super-heróis imbatíveis, mas que permitem uma visão
"realista" mesmo sobre estes elementos fantásticos
inseridos em suas tramas. Minisséries como a aclamada Marvels,
contada do ponto de vista de um repórter que habita a mesma
Nova York onde os X-Men são perseguidos por preconceito contra
mutantes, o Quarteto Fantástico são os queridinhos
da América e o Homem-Aranha cruza os céus da cidade
pendurado em sua teia. Na narrativa de Shyamalan, isto é
recorrente. A fantasia está lá, mas o ponto de vista
é humano. Mesmo em O Pequeno Stuart Little, onde o
cineasta fez apenas o roteiro, esta opção prevalece.
O ratinho é adotado pela família, mas apesar de ser
um animal falante, é tratado como igual não só
por seus novos parentes, mas por todos os outros personagens, humanos
e animais.
Os
personagens de Sinais são assim: um fazendeiro viúvo
(Mel Gibson), que mora com seus dois filhos e o irmão, descobre
estranhos sinais em sua plantação. Com o tempo, descobre
ser de origem alienígena, um sinal para a invasão
eminente. Não resta nada a fazer, para pessoas tão
ordinárias, do que trancarem em casa e rezar. Para o personagem
de Gibson, até isso é impossível, já
que ele é um ex-reverendo que perdeu a fé após
a morte de sua esposa.
Aí
está outro elemento recorrente nos filmes de Shyamalan: a
busca pela fé perdida. Em O Sexto Sentido, Bruce Willis
é o psicólogo que faz da terapia que aplica no garoto
que diz ver fantasmas sua cruzada para recuperar a fé em
si próprio após outro paciente ter se suicidado na
sua frente. Em Corpo Fechado, o mesmo Willis interpreta um
homem medíocre com um casamento falido, que, ao descobrir
seus poderes sobre-humanos, busca acreditar novamente que pode fazer
a diferença em um mundo sem cores. Em Sinais, o ex-reverendo
procura pela fé e ela não necessariamente vem do espaço.
A narrativa
de Sinais é ainda mais extrema e pessoal que a dos
filmes anteriores. Se o final abrupto de Corpo Fechado desagradou
meio mundo, prepare-se para a conclusão aqui. O ritmo é
ainda mais lento e as informações são apresentadas
a conta-gotas, isso quando não são apenas sugeridas.
Se sua intenção é ver batalhas espetaculares,
efeitos visuais grandiosos e alienígenas viscosos, prepare-se
para imaginar as criaturas mais que presenciá-las em cena.
Neste aspecto, o filme vai contra a corrente do cinema industrial
e este é seu maior mérito. É admirável
quando o efeito visual mais elaborado do filme é justamente
em uma cena onde um cachorro ameaça duas crianças.
Por
outro lado, os detratores do cineasta - e estes são muitos
- terão muita matéria prima em Sinais. O grande
problema do filme, que já se apresentava nas produções
anteriores, é o fato de se levar à sério demais.
Em Sinais, isto é ainda mais problemático,
pois o filme exige uma cumplicidade com o espectador que nem sempre
consegue obter. Nestes momentos, o filme fica constrangedor. Um
exemplo é exatamente o clímax. O que deveria ser a
conclusão não de uma, mas de duas narrativas paralelas,
se dissolve numa solução ridícula tirada da
manga por Shyamalan. A impressão é a de que o cineasta
simplesmente não sabia como terminar o filme e decidiu-se
pela maneira mais ignóbil.
Sendo
assim, Sinais fica perdido em algum ponto entre a idéia
e a realização, a pretensão e a competência
narrativa. Shyamalan provou com O Sexto Sentido que, a partir
de uma idéia simples, consegue executá-la de forma
competente e exemplar. Em Sinais, ao radicalizar a própria
fórmula, se perde em flashbacks mal inseridos, clima capenga
e um visual que passa mais a impressão de um descuido generalizado
que o de elaborado.
Nada
disso, porém, impediu que Sinais fechasse a lucrativa
temporada de verão americano de 2002 com mais de 210 milhões
de dólares arrecadados nas bilheterias ianques, o que o coloca
num honroso terceiro lugar no ranking dos grandes sucessos daquela
estação, atrás apenas de Homem-Aranha
e Star Wars: Episódio II - Ataque dos Clones. Talvez
seja um recado do público para Hollywood. Queremos ver as
mesmas histórias sim, mas contadas de formas diferentes.
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Direção:
M. Night Shyamalan
Roteiro:
M. Night Shyamalan
Música:
James Newton Howard
Com:
Mel Gibson, Joaquin Phoenix,
Rory Culkin, M. Night Shyamalan
Cotação:

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