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Sin
City: A Cidade do Pecado
(Sin City, EUA, 2005)
Robert
Rodriguez é um cara cheio de boas idéias.
Mas infelizmente, em geral, acaba pecando pelo excesso. Ele é
um bom diretor, um bom roteirista e positivamente apaixonado pelo
que faz.
E
talvez esse seja exatamente o problema de Rodriguez, essa paixão
exagerada que o faz querer colocar tudo-ao-mesmo-tempo-agora em
seus filmes. E é exatamente esse furor, mesclado com uma
certa ansiedade e um pouco de pressa, que impede que ele mostre
em todos os seus filmes o excepcional diretor que existe por baixo
de toda esse acumulo de idéias truncadas.
Por
que é apenas isso que impediu que filmes de grande potencial,
ainda que apenas de entretenimento, como ERA
UMA VEZ NO MÉXICO e PEQUENOS ESPIÕES 2 verdadeiramente
decolassem. Em ERA UMA VEZ NO MÉXICO,
a história, que daria um belo "faroeste mexicano com
toques de western spaghetti" se perde em meio a excesso
de personagens e situações. Até hoje não
consegui entender qual era, afinal, o propósito do agente
da CIA vivido pelo Johnny Depp. E, em PEQUENOS ESPIÕES 2,
uma seqüência de luta com um exército de esqueletos,
homenagem descarada ao clássico dos anos 70, JASÃO
E O VELO DE OURO, parece completamente deslocada e perdida no meio
da trama.
Bem,
talvez o problema de Rodriguez não seja exatamente o acúmulo
de referências geek que ele coloca em suas tramas,
pois outro diretor tão apaixonado e maluco quanto ele, seu
velho amigo Quentin Tarantino segue a mesma cartilha.
O problema de Rodriguez realmente é sua paixão. Paixão
pelas idéias que tem e um apego desmedido a elas, que impede
de ver que algumas vezes, mesmo que sensacionais, algumas seqüências
especificas precisam ser abandonadas para que a trama em geral flua
de modo ideal.
Talvez
por isso, apesar de ter bons filmes, apenas dois possam ser reconhecidos
como excepcionais. O primeiro é seu filme de estréia,
EL MARIACHI (que deu origem às seqüências A BALADA
O PISTOLEIRO e o já citado ERA
UMA VEZ NO MÉXICO). O segundo é UM DRINK NO INFERNO.
Se no primeiro, a contenção de verba (pouco mais de
7 mil dólares) foi um dos fatores de contenção,
no segundo temos o roteiro assinado por Tarantino.
Ou
seja, para Rodriguez revelar seu verdadeiro potencial, é
necessário que alguma coisa ou alguém segure esse
furor desmedido do diretor texano.
O
que nos leva ao seu mais recente trabalho: SIN CITY: A CIDADE
DO PECADO .
Posso
afirmar categoricamente que nunca Rodriguez fez um filme tão
bom. E olha que eu realmente gosto bastante de EL MARIACHI.
Talvez
seja o fato de Frank Miller, criador da série
nos quadrinhos, ser o co-diretor do filme. Talvez seja pelo fato
de ser uma material adaptado e não uma criação
original de Rodriguez. Ou talvez a soma de tudo isso. Quem sabe?
A questão é que estamos diante de um dos melhores
filmes do ano.
O
filme é divido em seis partes, unidas entre si por pequenos
intercruzamentos, coisa que já acontecia nos quadrinhos.
A seqüência inicial é baseado no oneshot
O CLIENTE SEMPRE TEM RAZÃO, que Rodriguez fez para convencer
Miller de aceitar sua proposta de transformar SIN CITY em filme.
As outras são adaptações de: THE HARD GOODBYE
(em que o brutamontes e esquizofrênico Marv deseja vingar
a morte da prostituta Goldie, a única mulher que lhe deu
carinho, mesmo que para isso tenha que enfrentar um canibal e um
dos poderosos da cidade), A GRANDE MATANÇA (focada na luta
em a máfia e as prostitutas da Cidade Velha em que se destacam
o detetive Dwight e Gail, a chefe das "meninas". Sem falar
é claro, da divertida seqüência dirigida por Quentin
Tarantino, em que Dwight conversa, em delírio, com um cadáver
do qual precisa se livrar) e O ASSASSINO AMARELO (dividida em dois
tempos, um no começo do filme e outro no final, e conta a
história do policial Hartigan, que amargou oito anos na cadeia
por proteger uma garotinha de um assassino pedófilo, filho
de um dos donos da cidade). Todas essas histórias já
foram lançadas no Brasil.
Miller, fã incondicional dos filmes e livros noir,
criou a séria como uma espécie de homenagem ao estilo,
mas também fez das HQs uma reconstrução do
gênero.
Nunca
o mundo foi tão cruel e corrupto, nunca os homens tão
durões e as mulheres tão sensuais quanto em Basin
City, Sin City para os íntimos. Todas essas marcas registradas
das histórias noir.
Miller
não quis apenas trazer os elementos narrativos do gênero
para as suas HQs. Ele sabe que, como o próprio nome diz (já
que noir vem do francês que significa negro, mas
também sombrio e hostil) que esse tipo de história
só funciona em um mundo de degradê cinzento, pincelado
apenas com ocasionais vermelhos, seja de sangue, seja de lábios
carnudos e sensuais, ou por uma amarelo enauseante...
Nos
quadrinhos, SIN CITY é uma das melhores experiência
no uso do preto, branco e cinza já feita.
E
no cinema, as coisas não poderiam ter sido de outra forma.
A fotografia e todo o jogo de luz e sombra usados no decorrer da
película são de encher os olhos como há muito
não se via em um filme preto e branco.
Mas
SIN CITY não se restringe apenas a fotografia. Cada seqüência
apresenta um cuidado no enquadramento, uma preocupação
com os mínimos detalhes de modo a envolver o espectador na
narrativa. Sejam nos momentos em que a ação está
em foco ou naqueles em que o diálogo é o mote mais
importante.
E
é por todo esse cuidado que muitos críticos e espectadores
estão apontado SIN CITY como uma das melhores adaptações
de quadrinhos feitas nos últimos tempos. E muitos outros
ainda se surpreendem com o fato de isso ter sido possível
graças ao fato de Rodriguez e Miller terem transposto para
os fotogramas quase que literalmente cada quadro pintado pelo quadrinista
nos volumes adaptados, a ponto de terem sido divulgadas na internet
fotos do filme mostradas ao lado de cada um dos quadros representados.
Eu,
particularmente, não entendo o porquê de tanta surpresa.
Quadrinhos e cinema são duas artes muitos mais próximas
do que se supõe. Ambas trabalham com imagem e texto associados,
ambas se utilizam de enquadramentos, cortes, montagem, iluminação
para compor sua narrativa. O que Rodriguez e Miller fizeram foi
tornar mais explícita essa relação.
Mas,
existe ainda outro aspecto que diferencia SIN CITY das demais adaptações
de quadrinhos. Este é o fato de que uma das maiores influências
de Miller são os quadrinhos japoneses, e estes, muito mais
que seus "primos" americanos, buscam na narrativa cinematográfica
sua fonte de inspiração, se tornando muito mais experiências
visuais que textuais, ao contrário de grande parte de seus
similares ianques. Tal fator
só facilitou a transposição da obra de Miller
para as telas.
Ler
SIN CITY (as HQs) é quase como ver um filme, e ver o filme,
é quase como as HQs, com um pequeno, mas significativo diferencial:
os atores!
Sim,
porque os atores contratados para o filme estão mais do que
perfeitos. Cada papel se encaixou como uma luva para aqueles que
foram escolhidos para protagonizá-los. Os maiores destaques
são, sem dúvida, para Jessica Alba,
como a sensual stripper Nancy Callahan, Bruce Willis
como o policial Hartigan, Clive Owen como Dwigth.
Mas quem realmente merece o maior crédito de todos é,
sem dúvida, Mickey Rourke como Marv. A forma
como ele demonstra a necessidade da personagem de não medir
esforço nem limites para vingar a morte de Goldie, apesar
de toda a brutalidade que emprega, chega a ser comovente. Foi uma
feliz surpresa, especialmente vinda de Rourke, que me desculpem
os fãs, mesmo no auge da carreira, nunca passou de um ator
mediano (incluindo CORAÇÃO SATÂNICO). A
única atuação que realmente deixa a desejar
é a de Britanny Murphy, histriônica
e caricata. Infelizmente algo recorrente em interpretações
anteriores da moça.
Uma
nova seqüência inspirada no volume A DAMA FATAL já
foi prometido pela dupla Rodriguez-Miller. Se for tão bom
quanto o primeiro (e promete, pois a história é, na
minha opinião, uma das melhores da série), estaremos
diante de outro excepcional filme muito em breve.
Mas,
o que realmente desejamos é que Rodriguez encontre em seu
caminho mais pessoas que o façam "baixar o facho",
para que seu talento aflore de modo devido e não apenas em
suas parcerias com Miller ou Tarantino.
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Direção:
Robert Rodriguez
Com:
Bruce Willis, Mickey Rourke, Jessica Alba, Clive Owen, Nick Stahl,
Powers Boothe, Rutger Hauer, Elijah Wood, Rosario Dawson, Benicio
Del Toro, Jaime King, Carla Gugino, Devon Aoki, Brittany Murphy,
Michael Clarke Duncan, Josh Hartnett, Alexis Bledel
Cotação:
    
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