O Segredo de Brokeback Mountain
(Brokeback Mountain, EUA, 2005)



Ang Lee é uma daqueles raros diretores cuja sensibilidade para os meandros da natureza humana e os detalhes das especificidades de cada cultura o levam a extrair dessa unicidade algo paradoxalmente universal.

RAZÃO E SENSIBILIDADE trata da vida de duas irmãs na Inglaterra vitoriana, O TIGRE E O DRAGÃO de guerreiros da chineses medieval, HULK de um cientista que acidentalmente é transformado em um monstro, O BANQUETE DE CASAMENTO (1993) de um imigrante chinês gay que precisa fingir para os pais que está noivo, e atual O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN sobre dois cowboys que se envolvem amorosamente nos anos 60.

E apesar de cada uma dessas películas retratar com fidelidade cada uma dessas épocas e lugares, e de, aparentemente O BANQUETE DE CASAMENTO ter uma temática próxima daquela de BROKEBACK MOUNTAIN, todos os filmes de Lee trazem em si um tema caro a grande parte de humanidade: a busca pelo amor e as barreiras impostas pela sociedade ou por nós mesmos para a concretização desse amor.

Diferenças de classe, preconceito, apego cego às tradições, problemas familiares, dúvidas pessoais. Observando cada um dos filmes mencionados, é fácil encontrar pelo menos um desses elementos. E, ao perceber a universalidade dessa problemática, Lee teve maturidade artística o suficiente para tratar O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN como aquilo que ele realmente é: uma história de amor. Qualquer outro diretor menos talentoso descambaria para o caminho fácil de polêmica.

E é isso que o filme é: uma história de amor impossibilitada pelo mundo machista e preconceituoso dos tradicionalistas estados do meio oeste americano, mais especificamente Texas e Wyoming (embora, a mesma história pudesse ocorrer em muitos outros lugares).

Apesar de o filme atravessar os anos 60 e 70, cuja efervescente revolução cultural, social e sexual se espalhou mundo afora, pouca coisa mudou nesses estados. Tudo que se espera de um homem é que ele se case, trabalhe e tenha filhos com uma bela mulher. Ali é o lugar em que "os homens são homens", numa perpetuação desmedida dos lendários cowboys da história e dos filmes americanos.

É neste mundo restrito de possibilidades que Ennis Del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal) se conhecem. Designados para trabalharem juntos no pastoreio de ovelhas na Montanha Brokeback do título, surge entre os dois uma amizade que se transforma em um caso de amor que se estende por longos vinte anos.

Mas, apesar de manterem essa "vida secreta", simultaneamente, ambos tentam dar à sociedade aquilo que ela lhes cobra, e eles próprios, até certa medida, parecem também se cobrar: casamento, esposa, filhos.

Ennis se casa com Alma (Michelle Williams), sua namorada de longa data, enquanto Jack se une à Lurren (Anne Hathaway), uma ex-vaqueira de rodeios, como ele.

A batuta competente de Lee não nos presenteia apenas com as imagens plasticamente belas das paisagens do meio oeste americano, mas também extrai atuações primorosas de seus protagonistas, garantindo uma sinceridade e veracidade comoventes a seus papéis.

Quem está acostumado a ver Anne Hathaway nas comédias adolescentes da Disney certamente ficará surpreso com seu desempenho, bem acima da média que em seus filmes anteriores. Jake Gyllenhaal, já acostumado com papéis difíceis e controversos desde os tempos de DONNIE DARKO, dá voz a angústia pulsante de Jack Twist, que tenta, por vezes, a questionar a necessidade de se esconder por trás dessa fachada hipócrita socialmente estabelecida.

Michelle Williams revela-se uma atriz dramática de primeiro escalão (Gelogurte e sua fixação pela Katie Holmes que me desculpem), por que era a melhor atriz da série DAWSON'S CREEK e a única capaz de sustentar uma carreira verdadeiramente consistente no cinema.

Mas, o filme é completamente tomado pela atuação contida e fascinante de Heath Ledger. O australiano não apenas reproduziu com perfeição o sotaque típico do interior americano, mas também, e principalmente, conseguiu passar toda a complexidade conflituosa de Ennis em sutis, porém, significativas, expressões faciais e corporais.

Talvez o ritmo um pouco lento seja um incômodo inicial para os espectadores, mas ele é necessário ao reforçar que quanto mais as coisas mudam, mais elas continuam as mesmas, ajudando também a perpetuar a sensação de melancolia e incompletude que permeia todo o filme.

O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN não apenas mereceu cada um dos prêmios que recebeu ou para os quais foi indicado, mas se mostrou como mais uma comprovação do talento de Ang Lee, e também da potencialidade do cinema como arte.

     

Direção:
Ang Lee

Com:
Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Michelle Williams, Anne Hathaway, Randy Quaid, Linda Cardellini, Anna Faris, Scott Michael Campbell, Kate Mara

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