| |
|
O
Senhor dos Anéis:
O Retorno do Rei
(The Lord of the Rings: The Return of the King, Nova Zelândia/EUA,
2003)
Numa
entrevista para o New York Times, o diretor Peter Jackson
diz acreditar que outra trilogia como a de O Senhor dos Anéis
não deverá ser realizada, nem por ele, nem por ninguém
em Hollywood. Para o cineasta neozelandês, é um risco
financeiro muito grande e apesar de O Senhor dos Anéis
ter sido um dos maiores sucessos da história do cinema, poderia
também ter representado a falência do seu estúdio,
caso não funcionasse nas bilheterias.
Ao
concentrar sua observação apenas na questão
mercadológica, Jackson destila a modéstia que lhe
é característica. Realmente, outra trilogia como O
Senhor dos Anéis não só é pouco
provável como nunca havia acontecido antes, tanto em sucesso
quanto em méritos técnicos e artísticos. Muito
já se falou em números da trilogia, sejam eles referentes
a prêmios, custos, renda, recordes, pessoas envolvidas, quantidade
de extras, cenários, personagens, objetos de cena, efeitos
e figurinos desenvolvidos pela produção. Mas pouco
se pensou sobre a importância histórica desse feito
cinematográfico. O Senhor dos Anéis não
é apenas um marco recente e sim uma obra que ainda será
celebrada daqui a 50, 60 anos. Assistir a um filme como O
Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei –
terceira e última parte da trilogia – nos cinemas é
como ter conferido na telona filmes como King Kong, E
O Vento Levou, Ben-Hur, Lawrence da Arábia
ou 2001: Uma Odisséia no Espaço na época
de seus respectivos lançamentos. É não só
se deslumbrar com um espetáculo de primeira grandeza, mas
também ter consciência de que está presenciando
História, com H maiúsculo.
Essa
sensação pode passar em branco para parte do público
que vê nos filmes da trilogia, sob o manto subestimado da
fantasia, apenas uma aventura hollywoodiana bem realizada. Longe
das facilidades logísticas possíveis na capital do
cinema, Jackson e sua equipe tiveram de reinventar algumas técnicas,
desenvolver novas tecnologias e criar um mundo crível, mesmo
que ambientado em um universo fantástico. O resultado é
nunca menos que inesquecível. O maior desafio enfrentado
pela trilogia foi, porém, encarar a platéia cínica
atual, acostumada a aplaudir épicos forjados como Gladiador.
Desafio superado, haja vista a idolatria que a saga despertou ao
redor do mundo. Isso sem abrir mão do espírito original
e da vontade de criar uma aventura emocional única, com um
pé no passado (há quanto tempo você não
vê um filme terminar com um “The End”?) mas antenado
com as possibilidades do cinema moderno.

O
Retorno do Rei mantém a concepção inicial
do filme anterior, As
Duas Torres, levando em consideração que
o público acompanhou a jornada de Frodo e companhia até
aqui. Após um breve flashback – que remete à
ocasião em que Gollum trava contato com o Um Anel pela primeira
vez, levando-o a assassinar seu irmão – num trecho
visivelmente inspirado em Caim e Abel – Jackson não
perde tempo recapitulando o que foi contado antes. Mais do que qualquer
outra série do cinema, O Senhor dos Anéis
precisa ser visto como um todo. Quem assiste apenas ao segundo ou
ao terceiro episódio tende a ficar confuso ou ter a sensação
de que perdeu algo importante. E perdeu mesmo. Cada filme subseqüente
faz referência a eventos desenrolados no(s) episódio(s)
anterior(es). O que poderia ser o calcanhar de Aquiles da série,
acaba fazendo sentido e contribuindo para o caráter único
da trilogia. Com exceção de rápidos flashes
para situar o espectador a respeito dos personagens referidos nos
diálogos, Jackson, consciente de que cada minuto é
precioso em se tratando de uma adaptação deste porte,
segue em frente mostrando os desenlaces finais da Guerra do Anel.
Em estrutura, porém, O Retorno do Rei é mais
palatável que o episódio anterior. Enquanto As
Duas Torres é contado como várias narrativas
paralelas que permanecem assim até o clímax, que acontece
ao mesmo tempo, mas em espaços diferentes de ação,
em O Retorno do Rei essas narrativas se cruzam em diversos
momentos, reiterando o objetivo em comum dos diversos personagens
e tornando a trama mais sólida e a narrativa mais fluida.
Enquanto
Frodo (Elijah Wood) e Sam (Sean Astin)
são guiados por Gollum (Andy Serkis) para
uma armadilha mortal nas cavernas que cercam a fortaleza do inimigo,
Gandalf (Ian McKellen) parte para Minas Tirith,
a grande cidade branca, coração do reino de Gondor,
para convencer o regente Denethor (John Noble)
a se preparar para a guerra que se aproxima. As tropas de Sauron,
o vilão da trama, estão se reunindo para destruir
de vez o mundo dos homens. Gandalf encontra porém Denethor
enlouquecido devido à pressão dos conflitos eminentes
e à morte de seu filho favorito Boromir (Sean Bean).
Com o povo de Gondor sem liderança, resta a Aragorn (Viggo
Mortensen, foto ao lado) assumir de vez seu posto como
herdeiro legítimo do trono, reunindo os povos na batalha
final contra Sauron.
O fim
da era da magia se aproxima. Cabem aos homens, acompanhados pela
valorosa ajuda de uns poucos amigos de outras raças, salvar
a Terra Média das forças do mal e da corrupção
absoluta. São os homens – vivos ou mortos - que tem
de superar o medo que infesta seus corações e encontrar
a força necessária para tomar as rédeas de
seus destinos. É equilibrando essa veia humanista com a grandiloqüência
do espetáculo que Peter Jackson constrói algumas das
seqüências mais contundentes já presenciadas.
Mais uma vez o público é agraciado com imagens vibrantes,
uma narrativa primorosa, cenas pungentes e interpretações
igualmente apaixonadas de todo o elenco. O Retorno do Rei
dá a cada um dos personagens a chance de provar seu valor
dentro da trama e provar que mesmo a menor das criaturas pode fazer
diferença. Valores como heroísmo, honra, lealdade,
sacrifício e compaixão são reforçados
pelas atitudes dos personagens, sem pieguismo, mas também
sem evitar a emoção genuína. A batalha dos
Campos de Pelennor, de uma grandiosidade insuperável, combina
com perfeição os magníficos efeitos visuais,
a partitura soberba de Howard Shore, a fotografia
de cores impossíveis e a câmera inquieta de Jackson
com a expressividade do rosto de cada um dos protagonistas, buscando
sempre a reação destes perante os eventos de escala
divina que os cercam.
Em
todos os aspectos, O Retorno do Rei supera seus antecessores,
o que só faz aumentar a admiração pela conquista
obtida pela equipe de Jackson. É certo que o terceiro livro
da obra de Tolkien, se não é o mais fácil (porque
fácil é uma palavra que não se aplica à
empreitada de adaptar a obra para o cinema), é o menos complicado
de se traduzir para a tela grande. Só para efeito de comparação,
considere os três filmes como apenas uma única aventura.
E agora pense em O Retorno do Rei como o grande clímax
desta aventura, onde todas as emoções estão
no auge e tudo é superlativo. Aqui, assim como nos capítulos
anteriores, tanto as cenas intimistas como as de caráter
espetacular emocionam na mesma medida, pois importa ao público
não só o destino da Terra Média, mas também
o de cada personagem. E esse destino nem sempre é feliz como
desejado. A guerra aqui traz conseqüências, algumas irreversíveis.

A aclamação
mundial e o sucesso estrondoso nas bilheterias só vieram
coroar este que é um dos mais bem sucedidos épicos
já filmados. Num ano agraciado com alguns grandes filmes
(As Invasões Bárbaras, Embriagado
de Amor, Hulk, Gangues
de Nova York, O Pianista, Femme Fatale,
A Viagem de Chihiro,
Dolls, entre outros), O Retorno do Rei reina soberano.
Simplesmente porque, mais do que um belíssimo filme, Peter
Jackson fez um milagre. Ele, assim como o público, a equipe,
os atores, a comitiva do anel e os demais personagens de O Senhor
dos Anéis, chegam vitoriosos ao fim da jornada, uma
epopéia travada por conta de um só motivo: “Por
Frodo”.
|
|
|
|

Direção:
Peter Jackson
Com:
Elijah Wood, Sean Astin, Viggo
Mortensen, Ian McKellen, Billy Boyd, Dominic Monagham, Andy Serkis,
Miranda Otto, Liv Tyler, Bernard Hill, John Noble
Nota:
|
|
|