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Quarteto
Fantástico
(Fantastic Four, EUA, 2005)
Existem
filmes que são vítimas da pressa com que são
feitos. Não é o caso de QUARTETO FANTÁSTICO,
um projeto que já se desenrola por 11 anos, passou por diversos
diretores e roteiristas até, nas palavras de Avi
Arad, produtor e todo-poderoso da Marvel Films, "encontrar
a equipe e o tom certos".
Não
é o que se vê na tela. Aliás, temos exatamente
o contrário. Não consigo pensar em equipe menos apta
a levar os heróis (ou qualquer outro personagem) para o cinema
que esta. QUARTETO FANTÁSTICO comete erros básicos
que normalmente não se vê nem no mais medíocre
filme de estúdio.
O
visual, por exemplo, erigido ao custo de US$ 100 milhões,
é feio, mundano e pobre. Fotografia, desenho de produção
e efeitos visuais de segunda, que lembram o famigerado SUPERMAN
IV. Os efeitos do Sr. Fantástico são constrangedores,
assim como os da nave chegando na estação espacial.
Pode-se normalmente acusar Hollywood de tudo, menos de filmes mal
produzidos. Mas QUARTETO FANTÁSTICO perde até para
as séries de TV, que dão um banho em matéria
de concepção visual e realização. Basta
conferir ALIAS e ENTERPRISE para tirar a dúvida.
O
grande problema é que o projeto de QUARTETO FANTÁSTICO
foi condenado desde sua origem. Dispostos a realizar uma produção
leve e divertida para toda a família com ênfase no
humor e na aventura (nada contra até aí), os produtores,
desde o princípio, só consideraram diretores de comédia
para comandar a produção. O problema é que
são diretores de comédias ruins! De Chris Columbus
(que preferiu fazer bombas como NOVE MESES, O HOMEM BICENTENÁRIO
e LADO A LADO no lugar, permanecendo apenas como produtor executivo)
a Peter Segal (O PROFESSOR ALOPRADO 2, TRATAMENTO DE CHOQUE, COMO
SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ), de Raja Gosnell (ESQUECERAM DE MIM 3,
SCOOBY-DOO) a Peyton Reed (TEENAGERS: AS APIMENTADAS), só
diretores de quinta passaram pelo projeto. Dentre os cogitados,
as exceções foram o também roteirista Brian
Helgeland (que tem uma carreira pouco expressiva como diretor) e,
mais recentemente, Robert Rodriguez, que recusou por não
querer admitir a excessiva interferência dos executivos do
estúdio.
Tirando
a intenção de fazer humor, é difícil
saber o que os produtores viram em diretores tão vagabundos
que os habilitasse a assumir uma produção digna de
um James Cameron da vida. Ainda mais quando cineastas do porte de
Ang Lee e Steven Soderbergh declararam se interessar em assumir
a direção. Mas não! Pra que ter Ang Lee se
você pode ter Tim Story? Quem é o
cara que dirigiu comédias familiares maravilhosas como O
BANQUETE DE CASAMENTO, COMER, BEBER, VIVER e RAZÃO E SENSIBILIDADE
e filmes de aventura e fantasia deslumbrantes como O TIGRE E O DRAGÃO
e HULK, perto do realizador de UMA TURMA
DO BARULHO e TÁXI? Faz sentido, certo? Para Avi Arad e os
executivos da Fox, faz todo o sentido do mundo.
Amaldiçoado
desde o berço, não é surpresa nenhuma que o
resultado final seja exatamente aquilo que vemos na tela. Só
é triste, muito triste. O Quarteto, em seus melhores momentos
ao longo de seus quarenta anos nos quadrinhos, foi sinônimo
de personagens bem delineados, aventuras repletas de imaginação,
visuais espetaculares e bom humor. Não deixe de conferir
as excelentes fases capitaneadas por John Byrne (que está
sendo relançada no Brasil) e por Mark Waid e Mike Wieringo
para ver o potencial que foi desperdiçado por Story, Arad
e os demais realizadores.
Curiosamente,
um dos pontos mais criticados pelos fãs desde o início
das filmagens é o elenco. Mas, sinceramente, apesar de mal
dirigidos, não acho que houve nenhuma falha de casting,
com exceção de Jessica Alba, mas
mesmo essa, apesar das lentes azuis ultra-fakes, não
compromete. Arrisco a dizer que, nas mãos de um diretor no
mínimo competente, o elenco poderia até mesmo brilhar.
Ioan Gruffudd tem a tarefa ingrata de encarnar
o papel mais difícil, o líder do grupo (e meu favorito)
Reed Richards, o über-geek: semi-autista, gênio na ciência
e incapaz de lidar com o sexo feminino. Chris Evans
e Michael Chiklis estão mais à vontade,
mas também seus personagens tem mais o que fazer. Chiklis
até mesmo contorna as limitações de sua vestimenta
e injeta emoção em seu Coisa. Já Julian
McMahon, que realmente tem o porte perfeito para um James
Bond (minha segunda opção depois de Clive Owen), sofre
com dignidade com o arremedo de canalha no qual se transformou o
principal super-vilão da Marvel. O que mais distinguia o
Dr. Destino dos demais bandidos de plantão era o fato de
ser um ditador de um país fictício, amado por seu
povo. E também ser uma mistura de cientista brilhante e feiticeiro
cigano. Tudo isso foi jogado na lixeira, em prol de um sub-Duende
Verde, um empresário ególatra que perde sua fortuna
para o conselho administrativo e põe a culpa no herói
mais próximo, no caso, Reed Richards. Se ele ao menos culpasse
Richards por ter acabado com sua pinta de playboy, tudo bem, mas
nisso ele é até grato, pois graças ao acidente
ganhou - como revela no clímax do filme - o que sempre quis,
"poder absoluto".
Mas
não tente encontrar lógica no roteiro capenga. Numa
determinada cena, os heróis precisam resgatar o Coisa na
ponte do Brooklyn e são barrados pela polícia. Reed
sugere a Susan que ela é a única que pode ultrapassar
o cerco, graças a sua invisibilidade, o que ela faz... pra
logo depois se encontrar com Reed e Johnny, que misteriosamente
conseguem o feito sem a menor explicação! A origem
da máscara de Destino então, é de fazer rir.
De raiva.
O
que deixa mais triste é que aqui e ali podemos imaginar o
filme que QUARTETO FANTÁSTICO poderia ter sido. Mais que
HOMEM-ARANHA, X-MEN ou HULK, QUARTETO tinha
tudo pra ser a franquia mais cinematográfica da Marvel. A
já citada cena da ponte, por exemplo, seria o equivalente
atual da lendária sequência do salvamento do helicóptero
em SUPERMAN, O FILME, o grande e emocionante momento onde o(s) herói(s)
é(são) apresentado(s) à população.
Nas mãos de Tim Story, a sequência é tão
mal dirigida e decupada, que resulta apenas em uma cena de ação
rasteira e ligeiramente passável.
Infelizmente,
QUARTETO FANTÁSTICO vem se juntar a DEMOLIDOR e A
LIGA EXTRAORDINÁRIA (não por coincidência,
todos produzidos pela Fox) na lista de adaptações
que poderiam ter sido grandes, mas se contentaram a ser desinteressantes,
vazias e inconsequentes. Nisso, são inegavelmente bem sucedidas.
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Direção:
Tim Story
Com:
Ioan Gruffudd, Jessica Alba,
Chris Evans, Michael Chiklis, Julian McMahon, Kerry Washington
Nota:
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