Retrospectiva 2003:
Os Melhores Filmes do Ano


8) Extermínio, de Danny Boyle - Filmado com câmeras digitais, o filme tem todo o jeitão de filme independente e de baixo orçamento como alguns clássicos do gênero costumam ter. A história de zumbis do inglês Boyle nos lembra o que a grande maioria das produções de terror hollywoodianas vive se esquecendo: um bom filme de terror não se faz com grandes efeitos especiais, mas com uma história intrigante e sugestiva, que sabe dosar de forma equilibrada ação, suspense, sustos e pavor. Algo que faz gelar sua espinha pela possibilidade, ainda que remota, de se tornar real. O diretor consegue entremear a trama com momentos de emoção, ternura e até um pouco de poesia sem quebrar o ritmo tenso da história, muito pelo contrário, é pelo contraste com esses momentos que muitas vezes a tensão é produzida.

7) X-Men 2, de Bryan Singer - Singer e cia. não realizaram apenas um excelente filme, mas também quebraram a regra de que continuações sempre são inferiores ao original: X-Men 2 é infinitamente melhor que o primeiro, disputando fortemente com Homem-Aranha e Hulk o título de melhor adaptação cinematográfica de super-heróis de HQ. O filme inteiro é de encher os olhos e acelerar o coração, alternando momentos de intensa ação com discussões de assuntos tais como perseguição e discriminação racial, seja por parte da sociedade como um todo como da família de quem é diferente. Além disso, os roteiristas souberam como ninguém aproveitar idéias importantes da saga mutantes nas HQs, ao mesmo tempo mostrando-as como algo novo e criando uma mitologia única e diferenciada dos mutantes na tela grande.

6) Procurando Nemo, de Andrew Stanton - Eu adoro as animações da Pixar. Eu sempre saio feliz do cinema quando assisto a algo produzido pelo estúdio. Não sei explicar, é um tipo de alegria leve, e o dia fica mais colorido. São histórias divertidas, cheias de referências culturais e cinematográficas, com personagens carismáticas e divertidas. É claro que possui as esperadas lições de moral, mas nada didático e enfadonho como nas maiorias das produções infantis. A animação é sempre fantástica e em Procurando Nemo as coisas não foram diferentes, aliás, estão ainda melhores que nas produções anteriores do estúdio. É possível perceber toda a vastidão, dinâmica e diversidade da fauna marinha. Cada personagem tem uma personalidade e característica próprias, que condiz com o tipo de animal que ela é. As cenas de ação são eletrizantes, as partes cômicas fluem naturalmente, sem forçar a barra, temas polêmicos como morte ou deficiência física são retratados de forma natural e respeitosa, sem aqueles não “me toques usuais” em filmes para crianças. Enfim, tudo muito bom.

5) Hulk, de Ang Lee - Lee conseguiu mostrar que é possível fazer uma adaptação fiel de uma personagem de quadrinhos sem se ater obsessivamente aos detalhes de sua origem e cronologia. Ele conseguiu captar e abstrair o que há de melhor e essencial no Hulk, que são as questões psicológicas atreladas à personagem: a maneira como Banner reprime seus sentimentos, sua relação conturbada com o pai, a incapacidade de amar Betty da maneira que ela deseja. O Hulk não é nada mais nada menos que a manifestação física e desenfreada de todos os desejos recalcados e de todas as frustrações do cientista. As seqüências de ação, quando aparecem, são de tirar o fôlego, e o Hulk digital... bem... ficou bastante legal e consegue passar toda a força da personagem, mas não chega a ser algo tão excepcional quanto o Gollum, de O Senhor dos Anéis. A atuação dos atores é um caso a parte. Eric Bana e Jenniffer Connely estão simplesmente fantásticos como Bruce e Betty. Todo aquele peso emocional existente entre as personagens é transmitido aos expectadores muitas vezes através de uma simples troca de olhares. E para não dizer que estou sendo tendenciosa, confesso que nunca fui muito fã do Hulk nos quadrinhos. Sempre achei que ele era uma boa personagem, mas que só funcionava nas mãos de um grande roteirista. Ou no caso, um grande diretor.

4) Adaptação, de Spike Jonze - Jonze e o roteirista Charles Kaufman sempre são uma dobradinha interessante. A começar pelo genialmente maluco Quero ser John Malkovich. Em Adaptação, a dobradinha se repete de forma ainda mais surpreendente. A forma como o roteiro brinca com recursos de metalinguagem, criticando tanto o cinema supostamente intelectual e cult quanto o cinema comercial sem mostrar explicitamente que é uma metalinguagem é genial. È o tom da narrativa que mostra essa mudança de enfoque, no começo, quando Charles Kaufman tenta escrever a adaptação de um livro sobre um ladrão de orquídeas, temos um filme denso, atormentado, intelectual. Mas quando ele começa a se enrolar seu trabalho e pede ajuda ao irmão gêmeo, Donald, aspirante a roteirista e adepto do cinema arrasa-quarteirão, tudo muda no filme e a história parte para um final cheio de clichês e reviravoltas falsamente surpreendentes. E apesar disso, as personagens continuam consistentes. Grande mérito dos atores, especialmente Nicolas Cage no papel dos gêmeos. O melhor de tudo é que nós, espectadores, percebemos essa mudança e ao entrarmos no jogo do diretor e do roteirista captamos qual a verdadeira proposta do filme (a crítica acima de tudo) e o quanto ele é espetacular.

3) Simplesmente Amor, de Richard Curtis - Uma das melhores comédias românticas a que assisti em toda a minha vida. O filme consegue em suas diversas histórias abordar os diferentes tipos de amor: amor entre amigos, irmãos, pais e filhos, amor entre casais (embora esse último seja o mais destacado no filme). Talvez principalmente sobre o fato como escolhemos lidar com esse amor ou qual tipo de amor é mais importante para a gente em determinado momento de nossa vida. E faz tudo isso de um modo emocionante, terno, cativante, sensível e ainda assim sendo bastante divertido e inteligente. Outro ponto positivo é o fato de que nem todas as histórias têm o típico final feliz hollywoodiano, como a do rapaz que é apaixonado pela esposa do melhor amigo, ou dos colegas de trabalho que se amam durante anos sem nunca se declararem, ou ainda a do casal que sofre os efeitos da crise de meia idade do marido e da possibilidade de um traição por parte dele. Pequenas interrogações, muitas possibilidades. As coisas não são fáceis ou simples na vida real, por que deveriam então ser fáceis no filme? Somando-se a um roteiro bem amarrado, temos um elenco de atores simplesmente fenomenal, encaixando-se de forma convincente e competente em suas personagens. Mas uma das melhores coisas do filme e uma das mais divertidas foi o escracho (elegante como todo inglês sabe ser) aos americanos, especialmente ao governo Bush. Perfeito. É por isso que eu adoro os ingleses. Um filme simplesmente apaixonante.

2) A Viagem de Chihiro, de Hayao Miyazaki - Chihiro tocou-me de forma tal como há muito tempo uma animação ou filme com uma temática próxima à apresentada nesta obra não fazia. Por trás das situações surreais da história, é possível perceber críticas ao capitalismo e ao materialismo desenfreado, à falta de propósito da juventude de nossos dias. A Viagem de Chihiro é um metáfora sobre a passagem da infância para a idade adulta. É uma história sobre a necessidade de se buscar um lugar e uma identidade própria e única no mundo, de ser reconhecido pelos outros através do que verdadeiramente se é, assim como da necessidade de se ter um sentido para a vida. Além de todos esses fenomenais aspectos contidos na história, ainda temos a alta qualidade da animação, muito superior ao da maioria das atuais produções, sejam elas japonesas ou americanas. Cada quadro é mais magnífico que o outro, alternando momentos de sublime beleza a outros que podem ser descritos como grotescos. Ambos os tipos, a seu modo, não deixam de ser impactantes. Totalmente poético.

1) O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, de Peter Jackson - Jackson provou mais uma vez porque é um dos melhores cineastas da atualidades. O filme é um espetáculo e uma aula de como se fazer cinema. O Retorno do Rei não se sustenta apenas em seus efeitos especiais como alguns filmes recentes. Além das trucagens fantásticas e revolucionárias, O Retorno do Rei e os demais filmes da franquia conseguem ter personagens cativantes e envolventes, alternar momentos de pura poesia e emoção com batalhas de tirar o fôlego. Mas como já disse, o que realmente me atraí e me faz ser uma fã apaixonada da obra é o forte fator humano (mesmo em elfos, hobbits ou anões) que a permeia. Os laços de amizade, a capacidade de se fazer sacrifícios pelo bem de uma maioria, de se lutar por liberdade e justiça, de ir além de seus limites por uma crença e superar todos os obstáculos. E que não importa o quanto você possa parecer pequeno ou insignificante, você pode fazer algo grande ou importante, depende de sua vontade ou das escolhas que faz diante das situações que a vida lhe impõe. Jackson conseguiu captar esse aspecto essencial da obra de Tolkien e transmiti-lo de forma competente e sincera em seus filmes. (Katchiannya)

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