Retrospectiva 2003:
Os Melhores Filmes do Ano


Encerrando as listas de Melhores de 2003, aqui vai a minha relação de escolhidos, aqueles filmes que imediatamente entram no meu panteão dentre os títulos exibidos no Brasil em 2003. Vejam também as escolhas do Gelogurte e da Katchiannya, assim como as de convidados da Galáxia. Concordam? Discordam? Mandem seus comentários e também suas próprias listas. Basta clicar aqui!

10) Prenda-me se for Capaz, de Steven Spielberg - Spielberg continua mostrando, a cada filme, o mesmo prazer de filmar que tinha há vinte e cinco anos atrás. Mesmo que os resultados não sejam tão memoráveis quanto os daquela fase, são sempre filmes extremamente bem acabados, bem narrados e exibem uma faceta diversificada do cineasta. É o caso deste Prenda-em se for Capaz, uma divertida e empolgante comédia de aventuras, homenagem rasgada aos filmes do gênero da década de 60. Peca pelas barrigas do roteiro, quando este tenta desculpar as travessuras do protagonista, culpando a infelicidade resultante do divórcio dos pais. Mas fazer o quê? Este é o Spielberg pós-paternidade, mais politicamente correto que nunca. Nossa sorte é que ele é também um dos grandes diretores em atividade.

9) Femme Fatale, de Brian De Palma - Outro cineasta da mesma geração de Spielberg que esbanja vitalidade. Brian De Palma chegou num ponto de sua carreira em que superou a ânsia de agradar crítica e Academia, procurando simplesmente o prazer de filmar o que quer. E Femme Fatale é isso! O tesão aqui não é só a estonteante Rebecca Romijn-Stamos, mas também o cinema em si, que De Palma transforma numa brincadeira das mais estimulantes, um quebra-cabeça de imagens em movimento que só se completa ao se acrescentar a última peça.

8) Procurando Nemo, de Andrew Stanton - Mais uma prova da imensa capacidade dos artistas da Pixar em emocionar, criar e impressionar, mesmo que trabalhando sobre arquétipos mais que manjados. É deslumbrante a forma em que aplicam a técnica em função da trama em si, nunca deixando esta se sobrepor aos personagens. Com isso, criam obras - a quinta em sequência a conquistar público e crítica - que entretem platéias de todas as idades e classes. É uma capacidade que Spielberg e Disney tinham no passado. Um legado que John Lasseter e companhia assumiram com dedicação. E o prazer é todo nosso.

7) A Viagem de Chihiro, de Hayao Miyazaki - É cada vez mais raro você ir ao cinema e se surpreender a cada instante com que vê na tela. Com A Viagem de Chihiro, eu realmente não sabia o que ia ver a cada instante. Pode ser por causa da minha ignorância suprema em se tratando de animes e mangás. Mesmo o cinema japonês pra mim se resume a Kurosawa, Imamura, Kobayashi, Oshima, Ozu, Akira e Godzilla. O fato é que não só me surpreendi, mas fiquei maravilhado com que ia descobrindo. Encantamento é a sensação que fica ao final desta obra-prima de Miyazaki, mais um nome para as minhas referências de cinema japonês.

6) O Pianista, de Roman Polanski - É saboroso o gostinho de revanche quando vemos um cineasta que amamos e que há muito tempo vem sendo considerado carta fora do baralho dar a volta por cima e se postar no devido trono. Roman Polanski é um dos grandes diretores de nosso tempo e não merecia as pedradas que vinha recebendo com seus projetos mais recentes. Com O Pianista, Polanski investe em terreno já mais que pisado anteriormente e ainda assim se sai com uma obra da mais pura relevância. E não só com respeito ao tema "importante", mas principalmente pela bela lição de cinema narrativo que ele nos dá. De quebra, a interpretação de uma vida, cortesia de Adrien Brody.

5) Gangues de Nova York, de Martin Scorsese - Este foi o ano em que vários cineastas veteranos mostraram que ainda possuem muita estrada antes de uma aposentadoria forçada imposta pela crítica babaca. Este vigoroso retrato da violência à americana prova que Martin Scorsese consegue tratar um tema que lhe é caro em toda sua filmografia, de forma madura e vibrante e ancorado na performance magnética de Daniel Day Lewis. Longe de ser o fiasco que vários críticos e profissionais da indústria - como o outrora renomado roteirista William Goldman - querem fazer crer, Gangues escancara suas virtudes e defeitos com a mesma integridade e invenção.

4) Hulk, de Ang Lee - Outro longa incompreendido, que tomou pedradas da crítica e do público, simplesmente porque se recusou a entregar o que todos esperavam dele: um filme de super-herói convencional. Ang Lee não se deixou curvar perante as expectativas do estúdio e aproveitou a chance para homenagear igualmente os quadrinhos da era atômica e os monstros clássicos da mesma Universal, reunindo elementos como o anti-herói trágico, a mocinha fiel, o cientista louco, a experiência que deu errado e a incompreensão do resto do mundo, que só sabe responder com violência aquilo que teme e desconhece. Falhas no roteiro - a primeira transformação da criatura continua sem me convencer - não compremetem o prazer de ver o cineasta integrar como nunca as possibilidades narrativas de ambas as mídias e apontar novas propostas para futuras adaptações de HQs. De quebra, cenas espetaculares como a que o Hulk "vôa" sobre o deserto e sente o prazer máximo da liberdade com o vento no rosto, ou a que o monstro escala o topo da Golden Gate, uma homenagem mais que carinhosa ao querido Kong.

3) Embriagado de Amor, de Paul Thomas Anderson - P. T. Anderson é um caso único no cinema recente. Tão consciente do cinema clássico como dotado de um frescor narrativo de fazer inveja a qualquer cineasta de sua geração. E disposto a trilhar um caminho próprio, sem atalhos oportunistas e sem adotar a linha "moderninha de arte" de diretores vagabundos (e adorados pela crítica também "moderninha", como Wes Anderson). Com quatro filmes estupendos no currículo, Anderson é um dos nomes mais interessantes da atualidade, um artista completo, daqueles para se seguir de perto. Embriagado de Amor exibe uma nova faceta na filmografia do diretor, privilegiando a leveza e a ternura, mas mantendo sempre a sua concepção própria de cinema, que beira a perfeição.

2) As Invasões Bárbaras, de Denys Arcand - Se este filme belíssimo não levar pra casa a estatueta de filme estrangeiro no próximo Oscar, aí sim será de uma barbaridade sem tamanha. Seriam também mais que justas indicações nas categorias de direção e roteiro. O canadense Arcand, do ótimo Amor e Restos Humanos, retoma os personagens de outra grande obra sua, O Declínio do Império Americano, para declarar um amor incondicional ao prazer de viver. Isso sem parecer oportunista e criativamente esgotado, como é normal com outros diretores que resolvem realizar continuações de seus maiores sucessos quando já não tem mais o que dizer. Consegue inclusive superar a obra original. Atores formidáveis, roteiro enxuto e direção elegante ainda são capazes de elevar o cinema ao patamar de grande arte.

1) O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, de Peter Jackson - Um caso raro de crônica do sucesso anunciado. Esta terceira parte da trilogia coroa este épico único, uma aventura primorosa, à moda antiga, onde sentimentos nobres prevalecem sobre a corrupção e a amargura. Jackson encerra um marco do cinema recente, que ensina a Hollywood como fazer novamente grandes produções dotadas de alma, criatividade e senso autoral. Resta saber se ela aprendeu a lição. Para nós, o que importa é que, antes do belíssimo "The End" aparecer na tela, teremos vivido a "grande aventura de nossa era" ao lado de personagens tão marcantes e inesquecíveis. São raras as vezes em que vemos nascer um clássico. Peter Jackson e sua equipe nos presenteou com um momento assim nos últimos três anos. E só por isso já merecia a coroa.

Menções honrosas:
Dolls
de Takeshi Kitano;
Sobre Meninos e Lobos
de Clint Eastwood;
Arca Russa
de Alexander Sukurov;
Confissões de uma Mente Perigosa
de George Clooney;
Dirigindo no Escuro de Woody Allen;
Longe do Paraíso de Todd Haynes;
Simplesmente Amor de Richard Curtis;
X-Men 2 de Bryan Singer
O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas de Jonathan Mostow (Kas)

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