10)
Prenda-me se for Capaz, de
Steven Spielberg - Spielberg continua mostrando, a cada
filme, o mesmo prazer de filmar que tinha há vinte e cinco
anos atrás. Mesmo que os resultados não sejam tão
memoráveis quanto os daquela fase, são sempre filmes
extremamente bem acabados, bem narrados e exibem uma faceta diversificada
do cineasta. É o caso deste Prenda-em se for Capaz,
uma divertida e empolgante comédia de aventuras, homenagem
rasgada aos filmes do gênero da década de 60. Peca
pelas barrigas do roteiro, quando este tenta desculpar as travessuras
do protagonista, culpando a infelicidade resultante do divórcio
dos pais. Mas fazer o quê? Este é o Spielberg pós-paternidade,
mais politicamente correto que nunca. Nossa sorte é que
ele é também um dos grandes diretores em atividade.

9)
Femme Fatale, de Brian De Palma
- Outro cineasta da mesma geração de Spielberg que
esbanja vitalidade. Brian De Palma chegou num ponto de sua carreira
em que superou a ânsia de agradar crítica e Academia,
procurando simplesmente o prazer de filmar o que quer. E Femme
Fatale é isso! O tesão aqui não é
só a estonteante Rebecca Romijn-Stamos,
mas também o cinema em si, que De Palma transforma numa
brincadeira das mais estimulantes, um quebra-cabeça de
imagens em movimento que só se completa ao se acrescentar
a última peça.

8)
Procurando Nemo,
de Andrew Stanton - Mais uma prova da imensa
capacidade dos artistas da Pixar em emocionar, criar e impressionar,
mesmo que trabalhando sobre arquétipos mais que manjados.
É deslumbrante a forma em que aplicam a técnica
em função da trama em si, nunca deixando esta se
sobrepor aos personagens. Com isso, criam obras - a quinta em
sequência a conquistar público e crítica -
que entretem platéias de todas as idades e classes. É
uma capacidade que Spielberg e Disney tinham no passado. Um legado
que John Lasseter e companhia assumiram com dedicação.
E o prazer é todo nosso.

7)
A Viagem de Chihiro,
de Hayao Miyazaki - É cada vez mais raro você
ir ao cinema e se surpreender a cada instante com que vê
na tela. Com A Viagem de Chihiro,
eu realmente não sabia o que ia ver a cada instante. Pode
ser por causa da minha ignorância suprema em se tratando
de animes e mangás. Mesmo o cinema japonês pra mim
se resume a Kurosawa, Imamura, Kobayashi, Oshima, Ozu, Akira
e Godzilla. O fato é que não só me surpreendi,
mas fiquei maravilhado com que ia descobrindo. Encantamento é
a sensação que fica ao final desta obra-prima de
Miyazaki, mais um nome para as minhas referências de cinema
japonês.

6) O Pianista, de
Roman Polanski - É saboroso o gostinho de revanche
quando vemos um cineasta que amamos e que há muito tempo
vem sendo considerado carta fora do baralho dar a volta por cima
e se postar no devido trono. Roman Polanski é um dos grandes
diretores de nosso tempo e não merecia as pedradas que
vinha recebendo com seus projetos mais recentes. Com O Pianista,
Polanski investe em terreno já mais que pisado anteriormente
e ainda assim se sai com uma obra da mais pura relevância.
E não só com respeito ao tema "importante",
mas principalmente pela bela lição de cinema narrativo
que ele nos dá. De quebra, a interpretação
de uma vida, cortesia de Adrien Brody.

5)
Gangues de Nova York,
de Martin Scorsese - Este foi o ano em que vários
cineastas veteranos mostraram que ainda possuem muita estrada
antes de uma aposentadoria forçada imposta pela crítica
babaca. Este vigoroso retrato da violência à americana
prova que Martin Scorsese consegue tratar um tema que lhe é
caro em toda sua filmografia, de forma madura e vibrante e ancorado
na performance magnética de Daniel Day Lewis.
Longe de ser o fiasco que vários críticos e profissionais
da indústria - como o outrora renomado roteirista William
Goldman - querem fazer crer, Gangues
escancara suas virtudes e defeitos com a mesma integridade e invenção.

4) Hulk,
de Ang Lee - Outro longa incompreendido, que
tomou pedradas da crítica e do público, simplesmente
porque se recusou a entregar o que todos esperavam dele: um filme
de super-herói convencional. Ang Lee não se deixou
curvar perante as expectativas do estúdio e aproveitou
a chance para homenagear igualmente os quadrinhos da era atômica
e os monstros clássicos da mesma Universal, reunindo elementos
como o anti-herói trágico, a mocinha fiel, o cientista
louco, a experiência que deu errado e a incompreensão
do resto do mundo, que só sabe responder com violência
aquilo que teme e desconhece. Falhas no roteiro - a primeira transformação
da criatura continua sem me convencer - não compremetem
o prazer de ver o cineasta integrar como nunca as possibilidades
narrativas de ambas as mídias e apontar novas propostas
para futuras adaptações de HQs. De quebra, cenas
espetaculares como a que o Hulk "vôa" sobre o
deserto e sente o prazer máximo da liberdade com o vento
no rosto, ou a que o monstro escala o topo da Golden Gate, uma
homenagem mais que carinhosa ao querido Kong.

3)
Embriagado de Amor,
de Paul Thomas Anderson - P. T. Anderson é
um caso único no cinema recente. Tão consciente
do cinema clássico como dotado de um frescor narrativo
de fazer inveja a qualquer cineasta de sua geração.
E disposto a trilhar um caminho próprio, sem atalhos oportunistas
e sem adotar a linha "moderninha de arte" de diretores
vagabundos (e adorados pela crítica também "moderninha",
como Wes Anderson). Com quatro filmes estupendos no currículo,
Anderson é um dos nomes mais interessantes da atualidade,
um artista completo, daqueles para se seguir de perto. Embriagado
de Amor exibe uma nova faceta na filmografia do diretor,
privilegiando a leveza e a ternura, mas mantendo sempre a sua
concepção própria de cinema, que beira a
perfeição.

2)
As Invasões Bárbaras,
de Denys Arcand - Se este filme belíssimo
não levar pra casa a estatueta de filme estrangeiro no
próximo Oscar, aí sim será de uma barbaridade
sem tamanha. Seriam também mais que justas indicações
nas categorias de direção e roteiro. O canadense
Arcand, do ótimo Amor e Restos Humanos, retoma
os personagens de outra grande obra sua, O Declínio
do Império Americano, para declarar um amor incondicional
ao prazer de viver. Isso sem parecer oportunista e criativamente
esgotado, como é normal com outros diretores que resolvem
realizar continuações de seus maiores sucessos quando
já não tem mais o que dizer. Consegue inclusive
superar a obra original. Atores formidáveis, roteiro enxuto
e direção elegante ainda são capazes de elevar
o cinema ao patamar de grande arte.

1)
O Senhor dos Anéis:
O Retorno do Rei, de Peter Jackson
- Um caso raro de crônica do sucesso anunciado. Esta terceira
parte da trilogia coroa este épico único, uma aventura
primorosa, à moda antiga, onde sentimentos nobres prevalecem
sobre a corrupção e a amargura. Jackson encerra
um marco do cinema recente, que ensina a Hollywood como fazer
novamente grandes produções dotadas de alma, criatividade
e senso autoral. Resta saber se ela aprendeu a lição.
Para nós, o que importa é que, antes do belíssimo
"The End" aparecer na tela, teremos vivido a "grande
aventura de nossa era" ao lado de personagens tão
marcantes e inesquecíveis. São raras as vezes em
que vemos nascer um clássico. Peter Jackson e sua equipe
nos presenteou com um momento assim nos últimos três
anos. E só por isso já merecia a coroa.
Menções
honrosas:
Dolls de Takeshi Kitano;
Sobre Meninos e Lobos de Clint Eastwood;
Arca Russa de Alexander Sukurov;
Confissões de uma Mente Perigosa de George
Clooney;
Dirigindo no Escuro de Woody Allen;
Longe do Paraíso de Todd Haynes;
Simplesmente Amor
de Richard Curtis;
X-Men 2 de Bryan
Singer
O Exterminador do Futuro
3: A Rebelião das Máquinas de
Jonathan Mostow (Kas)
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