Matrix Reloaded
(The Matrix Reloaded, EUA, 2003)
Por: Katchiannya

Antes de mais nada gostaria de avisar que a minha resenha é cheia de spoilers, portanto, se você não viu o filme, não leia nada depois desse parágrafo (a não ser que você seja curioso demais). Se o filme vale a pena ver o filme? Vale, nem que seja pelos efeitos especiais, mas, se ele é melhor que o primeiro? Definitivamente não.

Matrix Reloaded tinha tudo para ser o segundo melhor filme do ano (porque, cá entre nós, duvido que qualquer um supere O Retorno do Rei que vai estrear no final do ano). Mas, infelizmente, não deu certo...

Não que Matrix Reloaded seja algo totalmente diferente do primeiro Matrix, tudo o que vimos no primeiro está lá, a cenas de lutas de kung fu, os efeitos, os óculos escuros e estilo fashion de ser das personagens e (embora, algumas pessoas digam que não) a parte religiosa e filosófica.

O tempo todo no filme as personagens se questionam sobre questões antigas de se somos seres determinados pelo destino ou não, se realmente temos o direito de escolher nosso caminho ou qual a influência da casualidade na vida humana. Também são perceptíveis outros apontamentos filosóficos como, por exemplo, a questão da dialética do Senhor e escravo, elaborado por Hegel, na relação entre humanos e máquinas (elas dependem de nós para viver tanto como dependemos delas, ou seja, quem é escravo de quem?). No confuso, hermético e rápido diálogo entre o Arquiteto e Neo, além dos questionamentos já citados, também é possível perceber a idéia da necessidade da existência de Zion (os rebeldes) para a manutenção da Matrix, a cada Matrix que existiu (excetuando a primeira, que era o paraíso e a segunda, que parece ter sido um inferno), o sistema permitiu a existência de uma Zion. O sociólogo Peter Berger, em um de seus trabalhos, também fala da questão da rebeldia como algo que está inserido no sistema (seja a sociedade ou a Matrix, no caso do filme), e não em oposição a ele.

Os Wachowski também continuaram bebendo na fonte das religiões orientais. Assim como existiram cinco Neos (predestinados anteriores), algumas religiões orientais admitem a existência de mais de um salvador. Por exemplo, no hinduísmo, o deus Krishna reencarnou diversas vezes, e uma de suas encarnações foi o Buda. Os janistas (seita indiana) também pregam que o mundo como conhecemos não foi o primeiro; na verdade, o universo seria composto de uma roda de doze raios, separados em dois conjuntos de seis (ascendentes e descendentes), num eterno ciclo de morte e renascimento, em que mundos são criados e destruídos. O nosso seria o 5º mundo do ciclo descendente e sempre há salvadores renascidos que reafirmam a doutrina janista, do mesmo modo que em Matrix Reloaded descobrimos que existiram outras versões da Matrix, outras Zion e outros Neos (pelo menos seis versões, segundo o Arquiteto).

Então, se tudo o que gostamos no primeiro Matrix está lá, qual o problema?

Bem, são vários... O primeiro deles é exatamente TUDO do primeiro Matrix estar lá, só que de forma extremamente exagerada. Está tudo muito over, todo mundo posa no filme como se fossem as pessoas mais legais e descoladas do planeta, as cenas de luta são basicamente no mesmo estilo do primeiro, mas são excessivas e desnecessárias. A parte filosófica está no filme inteiro, mas se apresenta, quando se apresenta, quase como em forma de enigmas, ou de forma tão hermética e complexa, que parece que quase foi feita só para os autores/diretores entenderem (o tal diálogo com o Arquiteto vem dando muito o que falar). A pessoa sai simplesmente massacrada do cinema, sem reação, ao mesmo tempo impactada pelas cenas de ação e se sentindo meio perdida, como se não tivesse entendido ou captado algo. Eu mesma saí do cinema com a sensação de que precisava ver o filme de novo, só para compreendê-lo, e mais de uma pessoa me disse o mesmo.

Outro problema foi exatamente essa frente de divulgação maciça do filme em diversas mídias diferentes, o que acabou criando uma expectativa muito elevada em relação à película, ao contrário da primeira, em que ninguém apostava nada e acabou se mostrando uma grata surpresa. Quer um exemplo? A tal famosa cena de perseguição, todo mundo dizia e afirmava que nunca haveria uma cena de perseguição como aquela, que seria revolucionária e tal, eu, sinceramente fiquei muito decepcionada, dada à expectativa que se criou em torno dela. O mesmo posso afirmar quanto a cenas da luta de Neo com os cem Smiths, quer dizer, essa cena eu realmente amei, mas imagino que poderia ser muito melhor, pois apesar de empolgante, me perguntei porque diabos em nenhum momento Neo mata nenhum dos Smiths ou porque ele não saiu voando logo dali. Fenomenal, sim, mas totalmente desnecessária.

E falando em desnecessário, pra quê tanta luta durante o tempo todo do filme? Esse com certeza é mais um problema do filme, ou melhor, mais alguns problemas do filme. Primeiro esse enfoque em cima das lutas (e nos efeitos também) em detrimento de outros aspectos demonstra que os Wachowski não sabiam a jóia que tinham nas mãos, pois o Matrix original não fez sucesso apenas por suas seqüências de batalhas, mas pelos questionamentos que suscitou. Foi quase como pegar um filme como O Tigre e Dragão, com toda aquela poesia e reflexão por trás, e transformar em um Ninja Americano 5 ou similar, mas eu disse quase... Ação demais que soterrou a já confusa parte filosófica.

Além disso, Neo é o Escolhido, um cara como ele não deveria ficar lutando kung fu o tempo todo com um monte de Zé Mané.

A sensação que eu realmente tive é que na verdade eu estava assistindo a um jogo de vídeo game em película. Vocês se lembram de um antigo jogo do Sega chamado Streets of Rage (ou similares), em que se tem lutar em todas as fases com um monte de bandidinhos e sub-chefes (como os Smiths, ou os gêmeos albinos) para se chegar no "chefão" (o Arquiteto)? Foi exatamente assim que me senti. O que leva a talvez o maior defeito do filme, a falta total de um ápice dramático...

O filme é completamente plano, não tem um grande conflito, que chega a um ponto angustiante e que leva a uma conclusão, ainda que parcial e que leve a um novo conflito. Talvez porque na verdade, Matrix Reloaded não é um filme, mas meio filme... Se pararmos para pensar, Reloaded e Revolutions formam um único filme de cinco horas e não dois de duas horas e meia, já que Reloaded acaba exatamente neste ápice dramático. Só que isso não é tanto uma desculpa, pois Peter Jackson fez um filme de 9 horas (O Senhor dos Anéis) e conseguiu colocar nas subpartes de seu filme pequenos ápices e pequenas conclusões sem deixar de lado o conflito principal (o crescimento da sombra de Sauron e seu desejo pelo Anel).

Mas, para não dizer que tudo em Reloaded é pior que em Matrix, tem três coisas que realmente devo destacar. Primeiro é a Carrie Anne Moss, a Trinity, muito mais confiante no papel, ela rouba o filme. Segundo são as cenas de vôo de Neo, especialmente a última. UAU!!! E, finalizando, o visual de Zion, uma coisa meio terceiro mundo (com todo o respeito). Bem coerente, afinal o mundo da superfície foi destruído, os recursos são escassos, seria muito forçado ver uma Zion toda limpinha e modernosa, dada a situação.

Mas, enfim, espero sinceramente que Matrix Revolutions ajeite todas as pontas de Reloaded; afinal, não dá para tirar nenhuma conclusão definitiva quando se vê só meio filme.

     

Direção:
Andy e Larry Wachowski

Música:
Don Davis

Com:
Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Hugo Weaving, Monica Bellucci