A Máfia Volta ao Divã (Analyze That, EUA, 2002)
Por: Galactus e Kas

Galactus: Bem, vamos começar do começo. É uma continuação.

Kas: Isso é. Quer dizer que teve um primeiro e fez muito sucesso.

Galactus: Então, é uma continuação, porque o primeiro foi um sucesso. Por que o primeiro foi um sucesso?

Kas: Porque, como os demais filmes do Harold Ramis, se concentra num high concept bacana: "O que aconteceria se um mafioso tivesse crise de consciência e fosse procurar uma analista?". Nos seus filmes anteriores, como diretor ou roteirista, o Ramis propôs questões como "O que aconteceria se quatro parapsicólogos resolvessem caçar fantasmas em Nova York?", ou "O que aconteceria se você ficasse eternamente preso num mesmo dia?" ou ainda "O que aconteceria se você tivesse três clones seus para ajudar nas tarefas do dia a dia, como trabalhar, pescar e dar atenção à esposa?". São perguntas que o público gostaria de ver respondidas na tela, daí a adesão em massa a esses filmes.

Galactus: Coloque tudo isso com atores engraçados e famosos, uma boa trilha sonora, e você tem um bom filme. Mas o que levaria um diretor com tantas boas idéias a fazer filmes como Os Caça-Fantasmas 2 (no qual, como no primeiro filme, Ramis trabalhou apenas como ator e co-roteirista, com Ivan Reitman dirigindo) e A Máfia Volta ao Divã?

Kas: O problema maior é que os filmes ficam presos no high concept, são filmes de uma piada só. Tudo bem que são muito engraçadas, mas se esgotam dentro da duração do filme. E não sobra material pra uma sequência. Mas o sucesso exige continuações. Os Caça-Fantasmas 2 é exatamente uma reprise do primeiro. Tem sua cota de criaturas gosmentas, um ser gigantesco (a la Galactus) que caminha por Nova York no clímax, piadinhas infames, enfim, mais do mesmo.

Galactus: Fica a clara impressão de que tudo é feito só para cumprir tabela, manter os empregos de todo mundo... e afinal de contas, os atores famosos têm uma cota de filmes que eles precisam fazer por ano. Está no contrato. E é mais seguro fazer uma continuação dessas do que arriscar um abacaxi qualquer.

Kas: Claro! Quer maneira melhor de pagar o aluguel?

Galactus: Eles são PAGOS para fazer, e o público PAGA para ver. Mas tenho certeza que, se as pessoas pagassem DEPOIS de ver o filme, SE tivessem gostado do filme, esse tipo de coisa não iria mais acontecer...

Kas: O problema é que um A Máfia Volta ao Divã não permite nem mesmo uma reprise da mesma trama. Daí terem inventado não só uma, mas umas três tramas diferentes que se digladiam durante o filme. Você notou que o Robert De Niro interpreta três papéis diferentes no filme?

Galactus: Parece um esquizofrênico. A gente nunca sabe quando é pra rir e quando é pra chorar. As cenas em que ele(s) chora(m) são tão falsas que parecem um episódio de Chispita. Só falta aparecer o anjinho.

Kas: No começo do filme, ele é um grosso nojento, que adora mostrar as partes íntimas para os outros. No meio do filme, encarna o mafioso mau-humorado do primeiro filme e no final já vira uma mescla dos personagens que o próprio De Niro viveu em Fogo Contra Fogo e Ronin. Esse caráter esquizofrênico que você citou permeia o filme todo, que não se decide entre a comédia e o "heist movie"...

Galactus: Isso porque ele começa o filme cantando e dançando as músicas do West Side Story, e quase beija o psiquiatra na boca pensando que é a Maria. Que mafioso malvado, escroto e desbocado é esse que sabe as músicas de West Side Story de cor?

Kas: Todo mundo ali sabe as músicas de West Side Story de cor. Fiquei me sentindo um incompetente, que não sabia nem a primeira estrofe de "Maria, Maria"...

Galactus: Pois é, meu conhecimento de West Side Story se resume ao primeiro disco do Alice Cooper. Eu me lembrei agora do mafioso de Ghost Dog que gosta de ouvir Public Enemy. É muito mais absurdo e improvável, e no entanto, mais plausível e faz mais sentido.

Kas: A linha narrativa que o filme adota é tão fraquinha que nem dá pra ser resumida direito aqui. O mafioso vivido por De Niro simula um surto para poder sair da prisão e descobrir quem está tentando matá-lo. E no lugar de um bom high concept, o filme tem uns cinco bem fuleiras...

Galactus: Mas também o filme não é só desgraça. Tem seus bons momentos. O assalto, por exemplo, é bem legal. Adoro esses assaltos mirabolantes!

Kas: Hum... não gostei não. Simplesmente não me empolgou, sabe? Acho que quando chegou a sequência de assalto, que eu não vou entrar em detalhes pra não prejudicar o leitor masoquista que quiser se deliciar com essa pérola, eu já estava em outra sintonia, provavelmente pensando em que sala vou ver X-Men 2 na estréia... Sem falar que essa sequência poderia ter acontecido uns bons vinte minutos mais cedo.

Galactus: É, também não foi lá aquelas coisas, mas acho que foi a parte mais legal do filme, pra mim. Fora uma ou outra piada desconexa.

Kas: Gosto particularmente da sacada de De Niro servir como consultor técnico num seriado de TV, mas mesmo essa idéia não foi bem aproveitada. Aliás, como todas. O elenco também está risível, no mal sentido. Billy Crystal nunca esteve tão gordo e sem graça (e olha que sou dos poucos que gostam dele no Oscar). Lisa Kudrow está ali pra ocupar espaço. Poderiam substituir ela por um abajur que dava na mesma.

Galactus: Pode crer. Ela vai suar muito pra deixar de ser "aquela hippie esquisita do Friends". O lance do set de TV foi meio bizarro. Parecia uma metalinguagem. Aquela equipe destrambelhada, fazendo um seriado vagabundo. Sei lá, parecia que eles só viraram as câmeras para trás e filmaram a própria equipe do filme.

Kas: É verdade... Mas duvido que essa piada tenha sido intencional. Bom, só espero que o Harold Ramis não resolva continuar aquele que ainda é o seu melhor filme: Feitiço do Tempo. Pelo menos o Bill Murray parece esperto o suficiente pra não embarcar nessa furada...

Galactus: O que inclusive seria muito bizarro. O filme já é sobre um cara que não consegue passar para o dia seguinte. Fazer outro filme sobre isso seria uma afirmação de que o cinema americano não consegue sair do dia da marmota e continua preso fazendo a mesma coisa de novo. Um dèjá-vú atrás do outro.

Kas: Isso sim seria metalinguagem! Mas já basta vermos um ator como Robert De Niro se repetindo desse jeito. Como se não bastasse fazer A Máfia Volta ao Divã, ele ainda vai retornar esse ano na continuação de outra comédia mixuruca, Entrando Numa Fria. Não existe título mais adequado, aliás. Aposto que a sequência vai se chamar no Brasil Entrando Numa Gelada...

Galactus: O que mais me emociona nessa história toda é a esperança e o otimismo do público, que continua indo ao cinema para ver essas coisas. Não adianta se eles vêem 100, 1.000, 10.000 filmes ruins, eles continuam tentando. Não é nem dizer que eu sou um crítico chato e o público só quer se divertir: todo mundo sabe que o filme é ruim depois de ver. No entanto, continuam tentando. Essa perseverança me traz lágrimas aos olhos.

Kas: É porque sempre existe a esperança de encontrarmos um novo O Império Contra Ataca, O Poderoso Chefão 2 e, se Deus for piedoso, X-Men 2!!!!

Galactus: "Deus é um luxo que eu não posso ter!" Acabei de ouvir isso em um filme do Woody Allen, me pareceu apropriado...

     

Direção:
Harold Ramis

Com:
Robert De Niro, Billy Crystal, Lisa Kudrow, Cathy Moriarty, Joe Viterelli, Joey Diaz