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Madrugada
dos Mortos
(Dawn of the Dead, EUA, 2004)
Filme
de zumbi é dos sub-gêneros favoritos de todo geek
e aqui na Galáxia
as coisas não são diferentes. Do mais tosco ao mais
sofisticado (que ainda estou para conhecer), a tripulação
tenta vasculhar cada título protagonizado por estes simpáticos
mortos-vivos, produzidos nos recôndidos mais extremos do universo.
Ano
passado, o povo aqui celebrou a chegada de Extermínio,
filme que logo foi alçado à condição
de cult, mais por ser o primeiro filme de zumbi "sério"
em muito tempo do que por méritos próprios. Claro
que a Katchiannya e o Gelogurte adoraram o filme, opinião
que eu não compartilho. Pra mim Extermínio
repete o erro do filme anterior de Boyle, o malfadado A Praia:
começa bem para degringolar de vez da metade para o final,
com a introdução de uma temática anti-militarista
que só dá ao filme uma "lição de
moral" desnecessária e simplista. Sem falar que os personagens
militares são tão ocos e odiáveis que a própria
"mensagem" sai pela culatra. Extermínio
tem lá seus méritos, como uma boa ambientação
na primeira parte e atores competentes, mas acrescenta pouco à
tradição dos mortos-vivos na telona.
Pra
mim, o último grande filme de zumbis foi Fome Animal,
que, apesar do tratamento cômico a la Monty Python introduzido
por Peter Jackson, ainda assim se sustenta como um bom filme de
horror. Sem falar na sanguinolência, insuperável até
hoje, sem porém ser gratuita. Cada gota de sangue tem sua
função dramática, seja ela cômica ou
asquerosa. À sua maneira, Jackson criou uma obra realmente
inovadora dentro do gênero, que necessitava de infusão
de criatividade desde que George A. Romero enterrou de vez seus
mortos ambulantes.
Bom,
criatividade e novidade não são exatamente palavras
que passaram pela minha cabeça quando uma refilmagem do segundo
capítulo da saga de Romero, Zumbi, O Despertar dos Mortos,
foi anunciada. Caímos na mesma questão: qual o sentido
de refazer um filme que já é perfeito, a não
ser para capitalizar mais sobre uma marca já estabelecida?
Essa não é porém uma regra sem exceção.
O próprio Peter Jackson está no comando da refilmagem
de uma obra perfeita, que não necessariamente clamava por
uma nova roupagem. Porque então King Kong está
no topo da minha lista de must see para os próximos
anos? Porque apesar do filme original ser uma obra-prima, das maiores
do cinema e um dos meus favoritos, sabemos que Jackson tem talento,
paixão e identidade suficiente para acrescentar novas idéias
e leituras a uma história tão conhecida. Não
é questão de qual será o King Kong
definitivo, simplesmente porque este será o King Kong
de Peter Jackson, ponto. Um filme a parte, próprio, que se
sustenta.
Esse
é o maior elogio que se pode fazer a MADRUGADA DOS
MORTOS, o tal remake do filme de Romero. Aliás,
o título nacional é bastante feliz por se afastar
do recebido pelo filme de Romero aqui. Algo aliás que os
produtores desta nova versão deveriam ter feito também
nos EUA. Mesmo que oficialmente baseado no roteiro de Romero, MADRUGADA
DOS MORTOS tem personalidade suficiente para não precisar
se apoiar nesta muleta.
Mérito
do roteirista James Gunn e do diretor de primeira
viagem Zack Snyder, que superaram a má vontade
minha e da maioria dos fãs de Romero, surpreendendo com um
filme envolvente, dinâmico e porque não, criativo.
Snyder e Gunn não exatamente reinventam a roda, mas entregam
o que ficou faltando em Extermínio:
algo que vá além da boa premissa, que sustente a tensão
e o clima até a conclusão.
O grande
trunfo de MADRUGADA DOS MORTOS são os personagens, todos
empáticos, ainda que não necessariamente profundos.
Mas se importar com os personagens é o primeiro e mais primordial
passo de um bom filme de horror, já que a preocupação
com o destino deles é que sustentará nossa atenção
pelas próximas duas horas. E é isso que Gunn e Snyder
conseguem. Do mais covarde ao mais corajoso, do mais pentelho a
mais cativante, todos são personagens críveis, humanos
o suficiente para não merecerem uma morte cruel nas mãos
das criaturas.
Mérito
também da escalação do elenco, que fugiu da
tentação de incluir um rostinho da moda para encontrar
atores de verdade, que realmente se encaixassem em seus papéis.
E de certa forma todos se saem com dignidade. Sou fã de Sarah
Polley desde As Aventuras do Barão Munchausen
e o fato dela ter crescido nada atrapalhou seu talento. Ving
Rhames contribui com sua presença habitual, enquanto
Jake Weber prova ser mais que um competente coadjuvante,
segurando seu papel com carisma de sobra. Os demais tem menos a
fazer, mas são igualmente eficientes. E prestem a atenção
na ponta do mestre da maquiagem Tom Savini, ele
mesmo o criador dos zumbis de Romero e diretor da refilmagem oficial
de A Noite dos Mortos Vivos, como um xerife meio aloprado
que dá entrevista na TV.
MADRUGADA
DOS MORTOS faz juz ao legado de Romero, ainda que uma ou outra coisa
tenham me incomodado um pouco. Uma delas é um problema corrente
na produção horrorífica atual: o excesso de
"limpeza" visual. É tudo muito estético,
seguro, clean. Com isso vai-se a sensação
de realismo que marca os filmes de Romero. E olha que estamos falando
de filmes de zumbis! Mas essa "sujeira" é um dos
aspectos que colaboram para o clima nos filmes de Romero. É
uma das coisas que os tornam tão pertubadores, o que parece
ter sido esquecido pelos diretores atuais. Foi-se também
a crítica social presente naqueles filmes, sobrando apenas
o aspecto "diversão". Mas pelo menos isso o filme
tem de sobra, apesar das cenas de ação sofrerem do
mal "Michael Bay", com a câmera tão tremida
que mal dá pra saber o que está acontecendo. Acho
que foi para evitar isso que inventaram o steady-cam.
MADRUGADA
DOS MORTOS também aproveita de Extermínio
a idéia de transformar os zumbis de criaturas lentas e rígidas
em feras assassinas velozes, com o intuito de aumentar a ameaça
e o impacto visual. Nada contra, ainda que nem um dos dois filmes
aproveite bem esta "evolução" dos zumbis.
Não sei exatamente porque, mas aquele andar vagaroso e desajeitado
dos zumbis de outrora são pra mim mais assustadores, talvez
porque aquela rigidez torne as criaturas mais realistas, afinal
esta é uma das características mais marcantes de um
cadáver. Ou talvez seja pelo fato de que por mais que você
corra e eles se arrastem, você sabe que no fim ainda assim
eles vão te alcançar e quando isso acontecer não
terá escapatória. Mais ou menos como acontecia com
Michael Myers ou Jason. Em MADRUGADA DOS MORTOS, os zumbis são
rápidos e com frequência alcançam suas vítimas,
mas estas escapam com uma facilidade improvável. Sem falar
que todos os personagens são bons de tiro. São detalhes
pequenos que atrapalham mas não comprometem.
Na
verdade, o último filme de suspense/horror que prendeu minha
atenção desta forma foi O Olho Que Tudo Vê,
disponível aliás em uma boa edição em
DVD. Eu, que era um dos que menos levava fé nessa refilmagem
(como todo mundo sabe, normalmente odeio diretores vindo da publicidade
e do videoclip), fiquei grudado na tela até o final. Quer
dizer, tirando um momento lá pelo meio da projeção...
Aconteceu que fui ver o filme com o Gelogurte. O cinema estava praticamente
vazio. Como sempre, fui ao banheiro antes da sessão, enquanto
o Gelogurte comprou sua Diet Coke habitual e ficou babando no poster
novo de alguma beldade. O filme tem início, com aquela ótima
sequência inicial que termina com a tomada aérea do
carro com a personagem de Sarah Polley atravessando a cidade em
caos. Alguns minutos depois e eu já estava praticamente absorvido
pelo filme, quando olho para o lado e vejo o Gelogurte se estrebuchando
no escuro. Normalmente eu não me preocuparia se os movimentos
da criatura não lembrassem demais os dos zumbis da tela.
Uns cinco minutos se passaram e nada do Gelogurte se acalmar. "Putz,
esse cara deve tá passando mal. Bem que eu imaginei que esses
pretzels não eram muito saudáveis.". Daí
o sujeito se levanta e sai da sala. Daí a pouco ele volta,
se senta e continua a ver o filme como se nada tivesse acontecido.
E assim foi até o final da sessão. Quando o filme
acabou, fui lá saber o que tinha acontecido. Com a cara mais
lavada do mundo, ele me vem com:
-
Pô cara, esqueci de ir ao banheiro antes do filme.
- E...
- Daí não queria perder nada e tentei fazer
pipi na latinha de Diet Coke.
- !?
- Mas desisti quando começou a pingar em mim.
Depois
de algumas elocubrações sobre o que teria ocorrido
se o Little Gurte se prendesse no buraquinho da latinha, o que seria
bem típico da criatura e que com certeza daria uma cena muito
mais nojenta que qualquer uma encontrada em MADRUGADA DOS MORTOS
ou até mesmo em Fome Animal, concordamos que o filme
de Zack Snyder é digno de seu ingresso e até mesmo
de um espaço na sua estante ou aqui no Gabinete quando sair
em DVD. |
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Direção:
Zack Snyder
Com:
Sarah Polley, Ving Rhames,
Mekhi Phifer, Jake Weber, Ty Burrell, Michael Kelly, Kevin Zegers,
Lindy Booth
Nota:
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