A Lenda do Zorro
(The Legend of Zorro, EUA, 2005)




É triste ver como um bom filme acaba ganhando continuações idiotizadas ou infantilizadas. Já vimos acontecer e todos temos nossos exemplos favoritos. O meu costumava ser BATMAN e suas atrocidades cometidas por Joel Schumacher. Mas após rever o filme de Tim Burton recentemente, fiquei altamente decepcionado e atualmente acho que os filmes de Burton e Schumacher só diferem na quantidade de neon e mamilos nos uniformes.

Exageros à parte, esse não é o caso de A LENDA DO ZORRO. O primeiro filme da série, mesmo tendo seus momentos, era um filme pesado, com cenas arrastadas e uma direção altamente burocrática. Aqui, o diretor Martin Campbell parece ter relaxado um pouco, entregando um filme bem mais leve e divertido, com momentos até mesmo imperdíveis.

Após 10 anos, Alejandro de la Vega (Antonio Banderas) vive feliz com sua esposa Elena (Catherine Zeta-Jones) e seu filho Joaquin (Adrian Alonso). Para cuidar de sua família ele tenta usar a identidade do justiceiro mascarado apenas quando realmente necessário mas suas constantes escapadas enfurecem Elena ao ponto dos dois se separarem. Até que as eleições sobre a união da Califórnia aos EUA, bizarros acontecimentos e a chegada de um conde francês (Rufus Sewell) tornam necessária a volta de Zorro.

O projeto de A MÁSCARA DO ZORRO passou por vários diretores, entre eles pelo produtor Steven Spielberg (com Andy Garcia no papel título) e Robert Rodriguez (com Salma Hayek como Elena) mas acabou nas mãos de Martin Campbell, recém saído do sucesso de 007 CONTRA GOLDENEYE, um diretor "pau mandado" que precisava entregar o filme de qualquer jeito para o lançamento no verão americano de 1998. Aqui, Campbell ainda parece ter que entregar um filme corrido mas pelo menos parece ter se inspirado nos próprios Spielberg e Rodriguez.

A LENDA DO ZORRO, como o Kas bem colocou, lembra os filmes dos tempos áureos da Amblin, a produtora deste filme e de clássicos do entretenimento como as OS GOONIES, GREMLINS, O ENIGMA DA PIRÂMIDE e a série DE VOLTA PARA O FUTURO, cujo chefe é o próprio Spielberg. Filmes ágeis e mais descompromissados que mesmo quando tocam em temas mais sérios os faz de forma leve e divertida.

As influências de Spielberg e Rodriguez (este nada tem a ver com a franquia) se tornam óbvias na importância da família na vida de seus protagonistas, mas nem por isso abre mão de colocar todos os seus membros no meio da aventura e do perigo. Aliás, há anos não vejo uma criança tão carismática em uma comédia de ação como Adrian Alonso, que parece tomar emprestado alguns trejeitos de Banderas e não ser simplesmente mais a criança problema, que só serve como desculpa para iniciar ou estender uma seqüência de ação (lembra de Freddie Boath, o filho de Brendan Fraser e Rachel Weisz em O RETORNO DA MÚMIA?). Banderas, por mais envelhecido e magro que pareça e aqui usando uma péssima cabeleira alisada, ainda é charmoso e carismático para carregar o papel título. Zeta-Jones continua linda e levando seu papel tão a sério que suas cenas de ação são tão convincentes quanto as de Banderas e não apenas um "temos que dar algo para a personagem dela fazer".

O conde Armand, interpretado por Rufus Sewell, consegue algo aparentemente impossível nos filmes de ação atuais: transformar um personagem clichê em algo mais honesto, menos caricato, inclusive usando um sotaque francês leve e crível, ao invés de um chatíssimo sotaque como o usado por Lambert Wilson, o Merovingian de MATRIX RELOADED.

As cenas de ação também são uma evolução, mostrando um Zorro muito mais acrobata e ágil, cujos movimentos são cheios de graça e que debocha de seus adversários. A falta de sangue e mortes no filme na verdade não faz falta. Afinal, pra que perfurar um inimigo com uma espada se o herói pode simplesmente nocauteá-lo? Isso inclusive ajuda a forçar o diretor a fazer cenas de ação mais criativas e ousadas.

Claro que o filme tem seus problemas. Algumas cenas continuam arrastadas e pesadas e o roteiro parece ter sido feito às pressas, apesar do calibre dos roteiristas. O padre Felipe é um personagem dispensável interpretado por um ator que não consegue trazer muito ao papel.

A LENDA DO ZORRO é sim uma seqüência infantilizada de A MÁSCARA DO ZORRO. E isso eleva o filme a um patamar de diversão que Martin Campbell jamais alcançou.

     

Direção:
Martin Campbell

Com:
Antonio Banderas, Catherine Zeta-Jones, Rufus Sewell, Adrian Alonso

Cotação: