Lado Selvagem
(Wild Side, França, 2004)



Três desvalidos sociais da Europa atual, cada um com uma história própria e trágica.

Stephanie, que outrora se chamava Pierre, é um transexual que se prostitui na noite de Paris.

Conhece Mikhail, um refugiado russo, e o leva pra dividir o apartamento juntamente com Jamel, namorado de Stephanie e também garoto de programa. Juntos, os três estabelecem uma relação amorosa intensa.

Mas, ao invés de contar a forma como os três foram se envolvendo, o diretor opta por uma narrativa completamente fragmentada e não linear, entremeada de flashbacks que apontam tanto para o passado presente quanto para o passado mais remoto (a infância) de Stephanie.

Com essas idas e vindas, o diretor tentar fazer com que o espectador compreenda não apenas o momento atual que levou à relação cúmplice entre as três personagens, mas também com que se estabeleça globalmente as circunstâncias que levaram as personagens ao momento em que se encontram. Sua relação com os familiares, com seus clientes, e com suas famílias. Seus pequenos dramas cotidianos e o mundo, por vezes sórdido e solitário, da vida de um/uma prostituta (o).

Contudo, a doença da mãe de Stephanie, que obriga que ela volte para a pequena cidade natal de onde saiu, levando consigo os dois namorados, é o drama principal que, de certo modo, ajuda a ordenar a linha narrativa ao ser reconhecido como o momento presente.

Essas idas e vindas de situações se mostram interessantes até certo ponto. Se por um lado ajudam a dar uma visão mais ampla e diversificada das personagens, por outro peca em não possibilitar um aprofundamento maior das mesmas em termos de personalidade e motivações. Os conflitos que as conduzem ficam restritos à descrições rasteiras e pontuais. Outro fator prejudicial dessa opção narrativa é a dificuldade que ela traz ao espectador de inicialmente compreender o que realmente está se passando, fazendo com que o envolvimento na trama demore efetivamente para ocorrer.

Isso não significa que LADO SELVAGEM seja ruim. É um filme interessante, assim como seus protagonistas, contudo, parece-nos que, talvez, uma seleção mais criteriosa das cenas-fragmentos mostrados poderia ter enriquecido mais o filme e levado a um desenvolvimento também maior de seus protagonistas, já que algumas situações mostraram-se desnecessariamente repetitivas, tirando a força de outras passagens belas e até mesmo poéticas.

     

Direção:
Sébastian Lifshitz

Com:
Stéphanie Michelini, Yasmine Belmadi, Edouard Nikitine, Josiane Stoléru, Antony Hegarty

Cotação: