King Kong
(EUA, 2005)


Antes de tudo, gostaria de agradecer imensamente aos srs. Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack por terem feito KING KONG em 1933. Sem eles e seu filme, nós não teríamos um diretor do calibre de Peter Jackson na ativa, pois foi ao ver esse filme, que, ao nove anos, o neo-zelandês decidiu se tornar diretor de cinema. A ausência de Jackson no cinema atual seria, positivamente, uma perda inestimável. E esta nova versão do filme do gorila gigante é mais uma prova disso.

O filme de Cooper e Schoedsack é um dos marcos da história do cinema, dada a inventividade, ousadia e qualidade dos seus efeitos especiais e sonoros para os padrões da época. Foi um sucesso de bilheteria, tirando a RKO do buraco e sendo constantemente relançado pelo estúdio, com cenas adicionais, entre 1933 e 1952. Chegando até mesmo a ter uma obscura continuação chamada O FILHO DE KONG (1933).

A trágica história do imenso gorila que se apaixona por uma mulher e se vê cercado por aviões no alto de um prédio em Nova York é uma figura tão forte e se impregnou de tal forma no imaginário popular a ponto de muitas pessoas que nunca viram o filme jurarem de pés juntos que o assistiram. E mesmo quem nunca viu nem o filme de 33, nem a lastimável refilmagem de 1976, reconhece de imediato a figura de Kong no alto de um prédio.

Portanto, Jackson tinha em suas mãos um desafio muito maior do que poderia conceber. Mas, para quem enfrentara bravamente um exército de orcs e os ainda mais temíveis fãs ardorosos de J.R.R. Tolkien e triunfara bravamente, talvez o gorila gigante não fosse o monstro que pareciam pintar.

E se KING KONG era mais uma prova de fogo na carreira de Jackson, posso atestar que ele passou com louvor.

Eu particularmente sou bastante fã do filme de 1933. Levando em consideração a época em que foi feito, os efeitos especiais são mesmo de encher os olhos. As seqüências de ação são eletrizantes, e as personagens carismáticas. Embora, tenha que admitir que alguns diálogos sejam um pouco caricatos e existam alguns furos no roteiro. Mas, dá-se um desconto, considerando que tinha os dois pés fincados nas matinés aventurescas do período.

Enfim, KING KONG de Cooper e Schoedsack é um filme sensacional, mesmo com seus pequenos defeitos. E, depois do fiasco de 1976, duvidava-se que algum dia, alguém conseguiria alcançar o feito desses diretores.

Mas Jackson conseguiu não apenas alcançar o feito de seus ídolos, mas também supera-los. Seu KING KONG é simultaneamente uma homenagem e um aprimoramento.

O filme do neo-zelandês é um amontoado de decisões acertadas. A começar com a sábia resolução de manter a história nos anos 30 como no filme original, dando aquela mistura de inocência, romantismo e fantasia que o período evoca. Uma época em que ainda era possível acreditar em ilhas perdidas com criaturas fantásticas.

O segundo acerto está no equilíbrio entre a manutenção do que havia de melhor no filme original (a ação desenfreada) e o aprimoramento de seus pontos mais fracos. O roteiro está bem mais coeso, e as personagens ganharam uma tridimensionalidade humana que faltava à versão original, além do acréscimo de cativantes personagens secundárias.

Ann Darrow (Naomi Watts), a bela que domou a fera, é agora uma atriz de vaudeville (teatro de comédia) desempregada que acaba esbarrando com o diretor e aventureiro Carl Denham, vivido por Jack Black, um cineasta cheio de boas intenções, mas bastante trapaceiro e ambicioso. Denham está prestes a realizar um filme na misteriosa Ilha da Caveira, mas seus produtores o abandonaram e sua estrela também o abandonou. Só lhe resta a opção de sair às pressas para a Ilha no cargueiro SS Venture, com sua equipe, o astro do filme e sua nova e recém descoberta atriz. Ainda, meio que a contra-gosto, o dramaturgo Jack Driscoll (Adrien Brody) se junta aos passageiros.

Driscoll, par romântico de Darrow, que no original, era o primeiro imediato do navio, transformou-se em um intelectual, segundo o diretor, para fazer contraponto com o "outro amor" de Ann, King Kong. Mas apesar de ser um "homem-de-idéias", o escritor sabe se portar como um herói quando precisa proteger a amada (que em momento algum é uma típica donzela em perigo. Sabe se virar sem perder a delicadeza).

O papel de primeiro imediato ficou com Evan Parke (Hayes). E junto com ele, outros personagens secundários se destacam, como o capitão Englehorn (Thomas Krestchmann), o cozinheiro Lumpy (Andy Serkis - que também faz o Kong), Preston (Colin Hanks), o idealista e ingênuo assistente de Denham, o ator de filmes de aventura Bruce Baxter (Kyle Chandler), e Jimmy, "filho adotivo" de Hayes, vivido por Jamie Bell, que continua tão carismático quanto na época de BILLY ELLIOT. O personagem de Jamie lembra muito o menininho que acompanha Indiana Jones em INDIANA JONES E O TEMPLO DA PERDIÇÃO, tendo uma função semelhante na história. Bem, a verdade, é que KING KONG de Jackson remete bastante a esse filme de Spielberg, até mais que a JURASSIC PARK, apesar dos dinossauros. Justamente por ter um clima de aventura mais sombrio como o segundo filme da série INDIANA JONES.

A escolha do elenco foi impecável e cada ator caiu como uma luva para o papel escolhido. E, obviamente, não podemos deixar de dar destaque ao próprio rei, afinal, a composição do gorila, interpretado por Andy Serkis através do mesmo processo utilizado para a criação do Gollum está perfeita. Conseguiram dar ao animal uma dimensão trágica e emocional muito mais forte. Aproximaram seu comportamento ao de um gorila de verdade. Por mais que eu goste do Kong de 1933, sempre fiquei com a impressão que ele era uma besta fera descontrolada, cujo único traço de bondade é seu amor (ou obsessão) por Ann Darrow. Na versão de Jackson, Kong é muito mais do que isso. È o último ser de sua espécie, que luta para sobreviver. Um solitário em busca de afeto, e que ataca apenas para proteger aqueles que considera como seus. Isso tudo sem deixar de ser o animal que é.

Dizer da qualidade dos efeitos especiais é elogiar o que não precisa ser elogiado, tamanho é o esmero da produção. E como eu prometi a mim mesma não passar nenhum spoiler na resenha, porque falar realmente não tem a mesma graça de se ver na tela, não vou entrar em detalhes sobre os dinossauros, nem sobre o próprio Kong ou sobre as seqüências de Nova York. Só peço que acreditem em mim de que elas são de tirar o fôlego e não ficam em nada a dever aos melhores filmes de aventura já realizados. Ou melhor, não acreditem em mim, vejam o filme.

Outro detalhe que não dá para deixar passar em branco é o fato de que, apesar de não seguir rigidamente o filme original, várias cenas e diálogos dele foram completamente recriados na nova versão, e embora, em contextos diferentes daqueles mostrados no original, são completamente reconhecíveis. Faço uma reverência a Jackson, e às roteiristas Fran Walsh e Phillippa Boyes pelo feito. E peço que prestem atenção à uma divertida referência ao filme original na cena do táxi, no diálogo sobre o manequim número 38.

Sem dúvida, KING KONG é o filme da vida de Peter Jackson. Cada filme anterior seu, de certo modo, se vê refletido no filme atual. Os primórdios de seus filmes de terror B são vistos na assustadora tribo da Ilha da Caveira, o drama e o sentimento de inadequação latentes de ALMAS GÊMEAS também está sutilmente presente ali na trágica figura de Kong, e toda a aventura, grandiosidade e frenesi das seqüências de ação de O SENHOR DOS ANÉIS podem ser revistas aqui. Foi preciso cada uma dessas experiências para que Jackson chegasse à maturidade necessária para fazer de KING KONG o filme que o sonho de criança do diretor e o filme original mereciam ser.

     

Direção:
Peter Jackson

Com:
Naomi Watts, Adrien Brody, Jack Black, Andy Serkis, Thomas Kretschmann, Colin Hanks, Jamie Bell, Evan Parke

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