Kill Bill Volume 2
(Kill Bill Vol. 2, EUA, 2004)



Ao contrário do Kas, quando eu assisti ao primeiro volume de KILL BILL fiquei simplesmente extasiada. Não apenas pelas construções de cena, pelos jogos de câmaras, pelas cenas de lutas e pelas as deliciosas referências à cultura pop que permeavam todo o filme de Tarantino. Para mim, já havia naquela primeira parte um caráter de épico que se confirmou na segunda.

Quando digo épico, eu o afirmo não no sentido, por exemplo, empregado a filme como O Senhor dos Anéis, em que a saga dos heróis é vista como algo colossal do ponto de vista visual. Épico aqui é empregado no sentido de que a história da Noiva transcende a própria busca da personagem por vingança. Estamos novamente diante da reconstrução do mito do herói, no caso, de uma heroína caída.

O próprio Tarantino afirmou diversas vezes que KILL BILL é sua homenagens aos antigos faroestes de Sergio Leoni e aos filmes de samurai e kung fu que fizeram parte de sua infância. Kill Bill estaria para ele do mesmo modo como Indiana Jones e Guerra nas Estrelas estão para Steven Spielberg e George Lucas.

Contudo, KILL BILL é mais do que o resgate da infância do diretor. Apesar das histórias de samurai, de kung fu e de faroeste parecerem tão típicas de seus respectivos países natais, existem nelas algo quase arquetípico. Algo essencialmente humano. Não fosse por isso, nunca um filme como Os Sete Samurais poderia ter se transformado com tanto sucesso em um faroeste como Sete Homens e um Destino. As histórias de kung fu, de samurais e o próprio faroeste possuem em si a força de um mito de origem para os respectivos países em que surgiram, mas não apenas para eles. Essas histórias são, na realidade, o resgate de um passado não necessariamente perfeito, mas um passado no qual preceitos como honra, aprimoramento pessoal, busca por romper todos os limites possíveis fazem muito mais sentido que nos cínicos dias atuais. Mas ainda assim continuam sendo caros a todos nós. Talvez esse seja um entre tantos outros fatores que levou KILL BILL a causar tanto impacto nos seus espectadores.

E isso tudo ressoou em mim desde o primeiro volume. Talvez, porque ao contrário do Kas, histórias de samurais sempre foram parte importante da minha experiência cultural. Não sei se isso se deve ao fato de eu ter crescido em meados dos anos 80, numa época em que uma avalanche de seriados e desenhos japoneses assolou a televisão brasileira, e acabou por me marcar profundamente, me levando posteriormente a buscar produções de caráter similar, embora de maior qualidade. A questão toda é que os princípios de honra dos samurais e a busca de perfeição através do caminho do guerreiro sempre me chamaram a atenção.

E a história da Noiva passa exatamente por esse caminho. A Mamba Negra, codinome usado pela personagem quando trabalhava para Bill, escolheu percorrer a trilha do assassino e ser a melhor no que fazia. A trilha do assassino é usualmente uma trilha solitária e invariavelmente leva ao inferno, mas nem por isso é privada de senso de honra. Você pode alcançar um status quase sobre-humano percorrendo-a, mas o preço a se pagar é alto demais. Não há chance de redenção.

Ou melhor, aparentemente não há chance de redenção. Pois é exatamente aqui que Tarantino subverte essa noção de fatalidade. Como? Enganando a todos nós que assistimos ao filme. Pois ele apresenta a história de KILL BILL como uma história de vingança. A Noiva clama por sangue. Sangue para lavar o sangue inocente derramado no ensaio de seu casamento. Especialmente o sangue de sua filha não-nascida. Mas a menina está viva, e sendo assim, a vingança perde o sentido.

E é ai que realmente percebemos, ao assistirmos o segundo volume, que KILL BILL nunca foi uma história de vingança, mas sim uma história de amor e de redenção. KILL BILL é a história de amor entre Bill e a Noiva, mas também a história de amor da Noiva por sua filha.

Oscar Wilde já dizia: “A gente sempre destrói aquilo que mais ama, em campo aberto, ou numa emboscada, alguns com a leveza do carinho, outros com a dureza da palavra. Os covardes destroem com um beijo. Os valentes destroem com a espada”. Nada mais apropriado que essa frase para explicar a relação entre Bill e a Noiva. Ele realmente ama Mamba Negra. Mesmo matando todos os presentes no ensaio de casamento, mesmo dando um tiro na cabeça da Noiva, ele ainda a ama. E é exatamente por amá-la que ele faz isso tudo. E a Noiva ama Bill, o que não a impede de desejar ardentemente matá-lo.

Existem diversas formas de amor. Algumas formas aprisionam, como o amor de Bill e da Noiva. Um amor de possessão, egoísta, mas ainda assim forte e pungente. O que torna a história dos dois ainda mais trágica.

Mas também existe um outro tipo de amor. Amor de doação, capaz de libertar e levar á redenção. E como um bom geek que Tarantino é, ele, como muitos de nós, aprendeu há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante, que a única forma de se alcançar a redenção quando nos deixamos seduzir pelo lado negro é através de nossos filhos.

E, embora a Noiva seja, como o próprio Bill diz, uma assassina por natureza, ela também é uma mãe. E estaria disposta a abrir mão de todo o seu passado, de se purificar para dar a ela e a filha uma chance de serem felizes. É o amor pela filha que a move.

E é exatamente por isso que a saga da Noiva é também a reconstrução do mito do herói. Ela pode ser uma assassina, mas possui em si uma nobreza tal que a torna uma heroína caída. E, só é possível para ela alcançar o status de heroína plena através de toda a dor, sofrimento e sacrifícios que ela passa no decorrer dos dois filmes. Só assim lhe é permitido se assumir como mãe, se libertar das amarras de seu passado e se purificar. Foi exatamente nesse sentido que afirmei no início da resenha, que KILL BILL é um filme verdadeiramente épico.

É claro que tudo o que vimos em KILL BILL já foi visto milhares de vezes em outros filmes e em outras histórias. KILL BILL é recheado de clichês em praticamente todos os seus fotogramas. A gente sabe como o filme vai acabar exatamente no primeiro minuto em que começamos a assisti-lo, especialmente nesta segunda parte.

Mas porque KILL BILL é, então, assim tão genial? Creio que por uma junção de fatores. Já ouvi muitas vezes que o importante não é a história em si, mas como ela é contada. E nunca isso foi tão verdadeiro quanto em KILL BILL. São os diálogos inteligentes do roteiro de Tarantino, aliado ao primor visual, ao empenho em manter-se fiel ao estilo das obras que inspiram o filme, e todos os detalhes técnicos cuidadosamente trabalhados que tornam esse filme tão especial. É incrível o modo como as duas partes se completam tão perfeitamente dando consistência uma à outra. E ainda assim o tom das duas é completamente distinto. A primeira parte possui um ritmo frenético calcado nas cenas de ação, enquanto a segunda se apóia nos diálogos que conseguem ser tão ferinos quanto golpes de espada. A segunda parte é quase intimista. Os dois volumes de KILL BILL formam um único e grande filme, mas ainda assim são dois filmes distintos. É quase inexplicável, contudo um não faz o mínimo sentido sem o outro. Não é por um acaso que exatamente por isso no fim do VOLUME 2 temos dois letreiros finais, um inspirado no clima do VOLUME 1 e outro inspirado no deste segundo tomo.

Além de todos esses detalhes, outro fator chave para o sucesso do filme está na atuação de Uma Thurman. Impecável. Ela consegue ser ao mesmo tempo a noiva traída, a assassina cruel, a mãe zelosa, a mulher apaixonada, e emanar uma nobreza indescritível. Quando ela surge na tela, suplanta a todos que estão ao seu redor. Talvez isso se deva ao fato de ela ter sido mãe pouco tempo antes de filmar, como muitos críticos por aí hipotetisaram, o que a levaria a compreender melhor o conflito de sua personagem. Mas acho que o fato de a Noiva ser uma criação conjunta dela e de Tarantino tenha contribuído para a sua atuação tão primorosa. Uma não apenas encarnou a Noiva, a Mamba Negra é cria dela e, portanto, faz parte de Uma.

Em suma, KILL BILL não apenas se consolidou como um dos melhores filmes do ano e mostrou que Tarantino alcançou maturidade como diretor e roteirista, mas provou que ele, mesmo com todo o sangue espirrando e membros voando que mostra nos seus filmes, é, na verdade, um cara sensível. E que não existe amor maior que o de uma mãe (ou um pai) por seus filhos.

     

Direção:
Quentin Tarantino

Com:
Uma Thurman, David Carradine, Daryl Hannah, Michael Madsen, Gordon Liu

Cotação: