Kill Bill: Vol. 2
(EUA, 2004)



Quando Quentin Tarantino anunciou seu retorno ao cinema com um pastiche dos filmes de artes marciais da década de 70, não levei muita fé. Não por duvidar do talento do diretor. Meu medo era que Tarantino delirasse sobre o próprio umbigo e realizasse um "sonho molhado nerd", carregado de referências mas vazio em conteúdo e personalidade.

O primeiro volume de Kill Bill, que eu curti bastante, não diminuiu essa impressão. Apesar de inegavelmente divertido e bem realizado, com sequências de ação de primeira que os trabalhos anteriores de Tarantino não deixavam antecipar, o filme ainda não me convencia como obra que se sustentasse por si só.

Talvez por isso nunca me entusiasmei tanto com KILL BILL VOL. 2, da mesma forma que o Gelogurte, por exemplo. Se eu queria ver o filme? Claro! Mas não era nem de longe o que eu mais estava alucinado para conferir. A "estratégia" de lançamento da Imagem Filmes (a pior distribuidora brasileira), que atrasou em seis meses a estréia de ambas as partes com relação ao lançamento no resto do mundo, só atrapalhou.

Pois bem, KILL BILL VOL. 2 é a metade da laranja de Tarantino e não só porque é a segunda parte da jornada da Noiva, concebida como um único filme e dividida pelos desígnios mercadológicos de Harvey Weinstein. Mas principalmente, porque dá à primeira parte - e por conseguinte, à toda a saga - a consistência que esta necessitava para se manter em pé sozinha.

Simplesmente porque em VOL. 2 Tarantino não embarca em mais uma ego-trip de referências de sua infância, e realiza no lugar o filmão que sabemos ser ele capaz de fazer. Tudo bem que Vol. 1 serviu para apresentar a mitologia, como o próprio diretor deixa claro em suas entrevistas, mas VOL. 2 tem o mérito de ser praticamente independente, ainda que não torne supérfluo tudo que vimos antes; pelo contrário, é onde ganha foco toda a trama criada pelo cineasta.

Claro que as referências estão lá, senão não seria um filme do Tarantino, mas desta vez inseridas em um contexto e um drama forte o bastante para que não se perca a cada nova tomada emprestada de clássicos de Sergio Leone ou Sergio Corbucci. Aliás, enquanto na primeira parte o foco do diretor era os filmes de kung fu vagabundos, aqui Tarantino se volta para a nata dos westerns spaghetti, emulando com conhecimento de causa o melhor que o sub-gênero ofereceu. Com isso, VOL. 2 vira um western moderno que John Carpenter, Kevin Costner e Robert Rodriguez dariam um braço para fazer. A grande sacada de transferir a conclusão da trama para o México, depois de vagar pela China e Japão (do Oriente para o Ocidente) só denota essa opção de Tarantino por mudar de gênero, sem transfigurar sua obra. E sem dúvida os filmes de Leone e companhia dizem muito mais a mim do que os Shaolin da vida, daí a ressonância que encontrei nesta segunda incursão na vingança sangrenta da Noiva.

No lugar da ação desenfrada do primeiro episódio, predomina aqui o conteúdo dramático e os diálogos saborosos, como o discurso proferido por David Carradine (perfeito como Bill) comparando a protagonista com Superman, e aquele travado por Uma Thurman e Carradine logo no início do filme:

NOIVA
Você quer vir ao casamento?

BILL
Só se eu puder me sentar no lado da noiva.

NOIVA
Acho que você vai se sentir um pouco solitário no meu lado.

BILL
O seu lado sempre foi um pouco solitário.

VOL. 2 confirma Tarantino como um cineasta de grande apuro técnico e narrativo. Seu uso do Cinemascope é memorável, auxiliado pela câmera magnífica do grande Robert Richardson, componente imprescindível da mitologia erguida pelo diretor. E a segurança que empreende ao breve duelo final entre os dois perigosos oponentes carrega-o com a mesma gravidade dos embates travados naqueles westerns com sabor italiano.

A homenagem rendida por ele nos letreiros finais a Leone, Corbucci, Lucio Fulci, Charles Bronson, Lee Van Cleef e mais alguns fecha com chave de ouro a saga da Noiva, agora sim uma obra completa, fabulosa e digna dos nobres nomes que a inspiraram.

     

Direção:
Quentin Tarantino

Com:
Uma Thurman, David Carradine, Daryl Hannah, Michael Madsen, Gordon Liu, Samuel L. Jackson

Nota: