Kill Bill: Volume 1
(EUA, 2003)
Por: Galactus

Eu ainda não assimilei totalmente o conteúdo de KILL BILL: VOLUME 1, o novo longa do todos-respeitam-mas-ninguém-sabe-por-que Quentin Tarantino. A enorme profusão de citações, paródias, plágios, pastiches e outras citações é tão avassaladora que fica difícil um viciado em cultura pop como eu passar impune por um filme desses.

Para quem ainda está por fora, uma breve revisão: vários anos depois do lançamento de seu último longa, Jackie Brown, Tarantino passou algum tempo envolvido com outros projetos, como o roteiro de um filme de guerra que ele finalizou e ainda pensa em produzir. KILL BILL demorou a ser lançado porque era um projeto muito mais audacioso e complexo do que os filmes anteriores do diretor. Filmado em três países diferentes e apinhado de cenas de artes marciais, KILL BILL tem mais de três horas de duração e está sendo lançado em duas partes (para arrecadar mais bilheteria, provavelmente).

Daqui em diante eu começo a falar sobre o filme, então se você é sensível e não gosta de saber detalhes antes de ver um filme, pare de ler agora mesmo. Se você está curioso, basta continuar lendo!

Bem, já que insiste...

A história do filme é relativamente simples. Através de vários flashbacks, vamos lentamente descobrindo que uma mulher (Uma Thurman), cujo nome é censurado durante todo o filme através de um daqueles beeps que a TV usa para censurar as pessoas, começa a caçar e eliminar, uma a uma, cinco pessoas de uma lista que ela preparou em um pedaço de papel. Pelo que podemos entender do filme (que ainda é apenas a parte 1/2), Thurman (a quem vou me referir daqui em diante como "A Noiva") fazia parte de um grupo de
assassinos profissionais com nome de cobra. Quando resolveu sair do grupo para levar uma vida normal, casar e ter filhos, foi "assassinada" pelo grupo, chefiado pelo tal Bill do título. Receosos de sua debandada, o grupo resolve matá-la ainda no altar. Ela perde o filho que trazia na barriga, mas consegue sobreviver, e após uma espetacular fuga do hospital começou sua vingança. Viajando até o Japão, ela elimina a líder da Yakuza, que também fazia parte do grupo que pensou ter assassinado A Noiva.

Agora um pequeno guia de coisas legais.

Para começar, eu nunca vi tanto sangue voando na minha vida. Eu já vi Dia dos Mortos, Fome Animal, e até já fui ao Rio de Janeiro, mas nunca tinha visto tanto sangue jorrar pelos ares, fazendo tantos barulhos engraçados. 450 galões de sangue ao todo. É tudo tão exagerado que qualquer idiota percebe que não é "estetização da violência" nenhuma. O motivo é muito simples: é um maldito filme de kung fu!

Há também uma cena interessantíssima onde vemos um flashback contado na forma de um desenho japonês.

Os atores do filme também são um show à parte. Para começar, Uma Thurman, improvável como especialista em artes marciais, mas não deixa a desejar em momento algum do filme. Detalhe para a roupa amarela que ela usa, cópia
fiel do modelito usado por Bruce Lee em seu filme póstumo, O Jogo da Morte. Inclusive o capacete.

Improvável também é a sumida Daryl Hannah, que apavora vestida de enfermeira sexy, com tapa-olho e tudo mais. Lucy Liu é a vilã principal, e é bom saber que ela pode usar seu kung-fu para motivos mais honrados do que As Panteras: Detonando. Fazendo uma ponta temos o lendário Sonny Chiba, um dos mais "famosos" atores de filmes de kung-fu da atualidade.

Outro detalhe interessante sobre o filme é que Tarantino filmou tudo no estilo dos anos 70. Para começar, utilizou o estúdio dos irmãos Shaw, uma famosa dupla de diretores da Hong Kong. Os efeitos especiais seguem a mesma filosofia: não há nada digital em todo o filme. Até mesmo os detalhes cenográficos são da época: quando o sangue espirra, ele não está saindo de tubinhos profissionais de Hollywood, mas sim de camisinhas chinesas estourando. O diretor de fotografia Robert Richardson (JFK, Cassino) foi obrigado a passar por um curso intensivo de filmes vagabundos de kung fu para aprender a filmar no estilo da época.

A referência (ou seria "reverência"?) vai ainda mais além. No meio do filme, aparentemente sem motivo, surge uma seqüência em preto e branco, que termina em cores novamente. Mero recurso estilístico? Talvez não: nos anos 70, os distribuidores de filmes de kung fu dos Estados Unidos tinham vários problemas com a censura, que ficava melindrada ao ver tanto sangue na tela. Assim eles faziam cópias em preto-e-branco, e a falta da cor vermelha na tela permitia que os filmes fossem aprovados e exibidos na TV.

Quando a censura americana decidiu que KILL BILL deveria receber uma marca de faixa etária maior por causa da tal seqüência, Tarantino se lembrou dos velhos tempos e usou o mesmo artifício: colocou a tal seqüência em preto e branco e enviou novamente para análise. Sucesso!

Quanto à trilha sonora, só posso dizer uma coisa: genial. Ouvir o disco deixa uma impressão esquisita, porque as músicas não têm nada a ver umas com as outras, e são até mesmo bem ruins às vezes. Quer dizer, que dia eu esperei que iria ouvir o viadíssimo Santa Esmeralda, o new-agíssimo (e nem por isso menos viadíssimo) Zamfir e o barulhentíssimo Neu! no mesmo disco? Pior ainda, no mesmo dia? Ou ainda mais pior ainda: no mesmo filme?

Pois pasmem. Vendo KILL BILL, tudo faz sentido. Parece mágica. Façam a experiência: decorem o disco primeiro e vejam o filme depois!

Acho que é mais ou menos isso aí.

O "problema" com os filmes do Tarantino é que os "críticos" de cinema passam tempo assistindo filminhos normais que quando pegam uma enciclopédia de referências obscuras do cultura pop como um filme do Tarantino eles não sabem nem por onde começar. Quer dizer, estamos falando de pessoas que criticaram os "duendes" de O Senhor dos Anéis. Poupem-me!

Direto do futuro, Galactus, especialmente para A Galáxia.

     

Direção:
Quentin Tarantino

Com:
Uma Thurman, Lucy Liu, Daryl Hannah, Sonny Chiba

Cotação:
(a cotação completa será apresentada quando sair o segundo filme)