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Os
Incríveis
(The Incredibles, EUA, 2004)
Quando
pensei em escrever esta resenha me perguntei o que poderia dizer
sobre OS INCRÍVEIS que já não
foi dito até agora, afinal todos você já deve
ter lido em diversos outros lugares que este filme é sensacional,
genial, inventivo e empolgante.
Em
outras palavras, não há realmente nada mais para se
escrever que saísse um pouco desse esquema de elogios. Afinal,
o filme é tudo isso e um pouco mais.
Como
todos sabem, OS INCRÍVEIS é mais um produto da parceira
Pixar/Disney, e como já manda a tradição, mais
uma vez superou a produção anterior, PROCURANDO NEMO,
em termos de bilheteria. E, suspeito eu, em termos qualidade também.
Muita
gente, incluindo a própria Disney, acredita que parte do
grande sucesso das produções da Pixar se deva ao fato
de investirem na animação digital ao invés
das técnicas tradicionais. Não fosse isso, a Disney,
ao perder sua galinha dos ovos de ouro, não teria anunciado
que NEM QUE A VACA TUSSA seria a sua última animação
tradicional e que de agora em diante investiria na animação
por computador.
Contudo,
acredito que todo mundo está completamente enganado quando
pensa que a chave do sucesso da Pixar se encontra exatamente nas
questões técnicas. Por mais que outras empresas tenham
investido nessa área, com exceção da Dreamworks
com SHREK (e realmente apenas com SHREK diga-se de passagem, apesar
de O ESPANTA TUBARÕES ser bacaninha) e a Fox, em menor escala,
com A ERA DO GELO, ninguém nunca conseguiu efetivamente alcançar
o mesmo patamar dos criadores de Wood, Buzz, Sully e Nemo.
O grande
diferencial da Pixar sempre foi trazer uma diversão ao mesmo
tempo tanto inteligente quanto inovadora e ousada.
Enquanto
sua parceira, a Disney, se deixou prender em uma receita de bolo
para fazer seu filmes desde a estréia de A PEQUENA SEREIA
em 1989, a Pixar conseguiu manter o humor da época de ouro
da casa do Mickey e ainda assim dar um passo um pouco mais além
tratando seus personagens de forma mais realista.
Não
estou dizendo que eu não goste dos filmes da Disney. Sou
fã de A PEQUENA SEREIA sim, adoro ALADDIN, amo MULAN de paixão,
sem falar da admiração que sinto pelo lado completamente
Hamlet de O REI LEÃO. A questão é
que em todos os filmes da Disney nos últimos 15 anos temos
sempre a mesma estrutura de história, com pouquíssimas
variações: uma mocinha um pouco rebelde na maioria
das vezes, um mocinho com um jeito de príncipe encantado
mas não tão perfeito, um vilão e um ou dois
personagens cômicos de contraponto. Chega em um momento que
a fórmula certamente se esgota.
A
Pixar, por outro lado, mostrou sempre uma variedade de enredos e
abordou temas sérios (como portadores de deficiência
física em PROCURANDO NEMO) de forma sensível, inteligente
e, principalmente, natural.
E toda
esta inteligência e sagacidade existe de sobra em OS INCRÍVEIS.
Com o acréscimo de que ainda há o dedinho mais do
que talentoso do diretor Brad Bird no trabalho.
Quando
OS INCRÍVEIS foi anunciado, especialmente depois do teaser
trailer (aquele no qual o Sr. Incrível tenta em vão
colocar o cinto de seu uniforme em sua gorda pança), muita
gente acreditou que ele seria uma crítica e paródia
ao mundo das HQs de super-heróis e ao filmes desse gênero
que andam invadindo os cinemas nos últimos tempos.
É claro que o filme de Bird brinca com vários dos
clichês típicos de histórias de super-heróis
(a história da capa na minha opinião é certamente
uma das melhores) e não deixa realmente de ser uma grande
brincadeira com o gênero. Mas antes de desconstruir o mundo
dos super-heróis, OS INCRÍVEIS é uma grande
e sincera homenagem a esse tipo de história.
Brad
Bird é positivamente um grande fã e conhecedor de
história em quadrinhos. Ele já havia provado isso
com seu O GIGANTE
DE FERRO, no qual um robô gigante caí em uma pequena
cidade norte-americana e faz amizade com um garotinho. As referências
explícitas ao Superman (já que o filme é da
Warner) eram uma constante naquele filme.
Agora,
com OS INCRÍVEIS, Bird se volta principalmente para os heróis
da Marvel Comics. Com exceção de Dash (ou Flecha),
todos os outros membros da família Parr (ou Pêra) são
explicitamente baseados nos membros do Quarteto Fantástico.
Embora o Sr. Incrível seja fisicamente atraente (lembrando
um pouco Superman), ele é certamente inspirado no Coisa,
o homem de pedra do quarteto: forte e invulnerável. A Mulher
Elástico é uma versão feminina do Sr. Fantástico
(ou Homem-Borracha para quem assistia aos desenhos da Hanna Barbera
nos anos 80). Violet, a filha mais velha, tem os mesmo poderes da
Mulher Invisível. E o bebê, Jack-Jack, esse é
melhor não comentar. Só Dash, como seu próprio
nome original nos lembra, é inspirado no Flash da DC Comics.
Até
os codinomes dos pais heróis foram retirados do Quarteto:
Sr. Fantástico/Sr. Incrível e Mulher Invisível/Mulher
Elástico. A título de curiosidade, o nome original
da Mulher Elástico é Elastic Girl. Até nesses
detalhes existe um paralelo com os heróis da Marvel, afinal
a Mulher Invisível se chamava Invisible Girl e só
mudou para Invisible Woman pouco antes de se casar.
É
claro que apesar de serem inspirados no Quarteto, Os Incríveis
são um pouco diferentes dos seus modelos em termos de personalidade...
A escolha
do Quarteto como fonte de inspiração e homenagem não
deve te sido aleatória, afinal esses heróis sempre
foram apontados, inclusive por um de seus próprios criadores,
Stan Lee, como uma família de super-heróis.
E OS
INCRÍVEIS é antes de tudo uma história sobre
uma família como outra qualquer, se não fosse o fato
dos super-poderes. Esse também sempre foi um ponto importante
no trabalho de Bird desde O
GIGANTE DE FERRO: a questão das relações
familiares. No filme de 1999, temos uma viúva tentando criar
sozinha o filho pequeno, agora temos uma família problemática.
Um pai insatisfeito com o emprego, uma filha insegura e tímida
que está entrando na adolescência, um filho cheio de
energia mas incapaz de direcioná-la de modo construtivo e
uma mãe que a todo custo tenta segurar um lar que está
se desmoronando. Não por falta de amor, pois é visível
que todos ali se amam profundamente, mas por falta de diálogo
e espaço para se expressarem.
Poderia
muito bem ser um enredo para um drama, ou, nas mãos de alguém
incompetente, descambar para uma história melosa e forçosamente
moralizante. Mas isso não acontece. Tais temas são
inseridos de forma tão natural e realista na trama que, além
de darem mais profundidade para as personagens, conseguem dar aos
espectadores ao mesmo tempo uma empatia maior com os heróis
e uma possibilidade de reflexão sobre o que estão
assistindo.
Em
linhas gerais, OS INCRÍVEIS conta a história de Robert
Parr, o Sr. Incrível, herói popular durante muitos
anos como mostra o começo do filme (notadamente inspirado
na Era de Prata dos quadrinhos nos anos 60, quando a Marvel começou
a adquirir maior força). Certo dia ele, recém-casado
casado com Helen/Mulher Elástico, é julgado por ter
salvado alguém (um suicida) que não queria ser salvo.
Isso acaba gerando uma onda de protestos que leva à proibição
do uso de super-poderes pelos heróis e o banimento dos mesmos
(em outra referência a uma importante obra das HQs, WATCHMEN,
escrita por Alan Moore nos anos 80). Quinze anos depois, ele se
encontra morando um típico subúrbio americano com
a mulher e os três filhos, em um emprego entediante. Sua única
alegria é relembrar os tempos de glória. Até
que um dia ele ganha a oportunidade de voltar à ativa. Mas
como as coisas não dão muito certo, a família
toda acaba por se envolver na história.
Além
de tratar, como já mencionei, de aspectos das relações
familiares, OS INCRÍVEIS ainda acha uma brechinha para abordar
a questão do preconceito (no caso contra os super-heróis)
e a necessidade de nos mostrarmos e nos aceitarmos como somos para
realmente conseguirmos ser felizes.
E o
mais fenomenal disso tudo é que o filme consegue ainda ser
empolgante e eletrizante com seqüências de ação
que dariam inveja ao Spielberg na época em que dirigiu a
série INDIANA JONES ou ao John Woo.
Certamente
esta é a melhor produção da Pixar até
o momento. E por mais que eu tentasse não conseguiria ser
capaz de tecer todos os elogios que gostaria para descrever a produção.
Minha
única reclamação vai para a decisão
de traduzirem os nomes das personagens principais, transformando
Bob, Helen, Violet, Dash e Jack-Jack Parr em Beto, Helena, Violeta,
Flecha e Zezé Pêra. É um tipo de decisão
que não acrescenta nada à história. A desculpa
usual desse tipo de decisão é que ao transformarem
os nomes americanos em correspondentes nacionais estariam aproximando
mais as personagens do público brasileiro. Eu não
acredito que esse tipo de coisa faça sentido nos dias de
hoje em que as crianças estão acostumadas a verem
animações japonesas cujos protagonistas se chamam
Inuyasha, Goku ou Kenshin, nomes bem mais diferentes e complicados
que um simples Bob.
Mas
tirando essa pequena observação, só posso falar
que, como o próprio nome diz, o filme é Incrível!
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Direção:
Brad Bird
Com:
Craig T. Nelson, Holly Hunter,
Samuel L. Jackson, Jason Lee, John Ratzenberger, Wallace Shawn,
Brad Bird
Cotação:
   
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