Identidade
(Identity, EUA, 2003)



Hitchcock costumava desprezar o sub-gênero conhecido como whodunit, por acreditar que era demasiadamente cerebral. Essa modalidade é aquela imortalizada por autores como Agatha Christie e Edgar Wallace, onde temos um ou mais crimes misteriosos e vários suspeitos. O célebre cineasta inglês preferia uma abordagem mais emocional. Para ele, era necessário que o público compactuasse da identidade do assassino, ao contrário do mocinho ou da mocinha, porque, ao sabermos algo que o protagonista não sabe, o suspense e a tensão se constrói.

Apesar de fã incondicional de Hitchcock, sou igualmente apaixonado por essas tramas de assassinato, cujo autor do crime só se revela no final. É estimulante principalmente por estabelecer com o espectador uma cumplicidade, que lembra bastante a proposta de um jogo. Este ganha se conseguir descobrir a identidade do assassino antes que os demais suspeitos sejam todos trucidados. Senão, a casa leva tudo. Essa relação interativa é o grande barato, mas para que isso aconteça, é necessário que a obra dê espaço para que o espectador participe da construção narrativa, que ele contribua com sua imaginação e não receba tudo de mão beijada.

A verdade porém é que está cada vez mais difícil se surpreender com as reviravoltas e as revelações deste tipo de trama, tão acostumado estamos a finais pretensamente surpresa em filmes dos mais variados gêneros. Dois grandes exemplos de whodunit, poucas vezes equiparados, são Testemunha de Acusação, bela adaptação do romance de Agatha Christie pelas mãos de Billy Wilder, e a sátira Assassinato por Morte, um dos cults da minha vida, escrito pelo dramaturgo Neil Simon.

Quando vi pela primeira vez o trailer de Identidade, fiquei curioso pra saber se o filme faria juz a esse sub-gênero tão batido. A boa recepção por parte do público e crítica nos EUA só aguçou minha curiosidade.

Pois bem, pode ver Identidade sem medo. Como sempre nesse tipo de filme, quanto menos você souber da trama, melhor. Basta saber que a história se passa quase que toda em um motel de beira de estrada (palco de um marco de Hitchcock, Psicose), onde vários personagens se reunem por acidente (será?) numa noite chuvosa. E onde um a um vão sendo vítimas de um misterioso assassino.

Identidade é um thriller que prende a atenção do começo ao fim, isso é fato. Mas está longe de ser memorável, graças a ridícula necessidade de entregar tudo mastigado para o espectador. O diretor James Mangold, dos medíocres Copland, Garota Interrompida e Kate & Leopold, leva a trama com mão segura, ainda que pesada, caindo mais do que deveria nas facilidades proporcionadas pelo enredo. Com isso, acaba desprezando a inteligência de seu roteiro e, por consequência, do espectador. O que seria a grande reviravolta da trama se anuncia minutos antes, graças às obviedades narrativas, provocando um anti-clímax indesejado. E como é cada vez mais comum no cinema americano, o filme teima em estender por demais seu final, caindo na redundância despropositada e evitando qualquer possibilidade de sugestão.

Isso não quer dizer porém que Identidade não seja digno de nota. O roteiro parte de uma premissa interessantíssima, aproveitando os elementos do whodunit mas indo além em suas possibilidades. E o elenco, formado por rostos que ficaram marcados em papéis semelhantes aos interpretados aqui, é um achado à parte. O lugar-comum de escalar Amanda Peet como uma vagabunda, John Cusack como o mocinho relutante, Ray Liotta como o policial mais que suspeito, a sumida Rebecca DeMornay como a megera, Clea Duvall como a adolescente problemática e John Hawkes como o caipira inofensivo funciona dentro da trama, que utiliza da expectativa do público para com esta relação já estabelecida entre ator-personagem, para criar novos elementos surpresa.

Enfim, se o filme possui uma identidade (trocadilho infame, mas na falta de um melhor, uso assim mesmo), é graças a esses elementos citados aí em cima. Se não insistisse em ser tão óbvio, poderia alçar vôos mais altos, com resultados mais surpreendentes e convincentes.

     

Direção:
James Mangold

Com:
John Cusack, Ray Liotta, Amanda Peet, Rebecca DeMornay, Clea Duvall, Alfred Molina, Jake Busey, William Lee Scott, John Hawkes

Nota: