O Homem do Ano
(Brasil, 2002)



O Homem do Ano sofre de uma psicose grave, uma esquizofrenia que faz com que muitas vezes entre em contradição. E não é do personagem principal, Máiquel, que estou falando e sim do próprio filme, estréia na direção de longas de José Henrique Fonseca.

Adaptado do best seller O Matador, de Patrícia Melo, o filme mostra a escalada da violência na vida de um rapaz de periferia pacato e sem rumo que, um dia, mata gratuitamente um sujeito. Mas eis que a vítima é um ladrão conhecido nas redondezas e odiado pelos habitantes do bairro. Com isso, o ato de Máiquel é comemorado por todos. Se antes era um Zé Ninguém, que nunca tinha feito nada que presta na vida, depois do crime Máiquel vira ídolo da baixada, recebe presentes e é cortejado pelas mulheres. Encontra, assim, seu destino.

De uma burrada acidental, o personagem vai cada vez mais se engendrando num fluxo de morte e violência. Enquanto mostra a ascensão do homem do ano, o diretor, a partir de um roteiro escrito por seu pai - o consagrado escritor Rubem Fonseca - é feliz ao criar identificação imediata com o personagem, mesmo sendo ele um sociopata assassino, ignorante e sem objetivo. Mas não tem nada de mal em torcer pelo vilão, quando alçado à categoria de anti-herói (Hannibal Lecter é um exemplo disso). O problema é que, após passar boa parte da projeção glorificando as atitudes de Máiquel, os realizadores decidem sem mais nem menos puni-lo. Só que essa punição nunca fica muito clara. E aí o filme começa a mostrar sua natureza contraditória. Em um determinado momento, a jovem amante do matador, vivida por Natália Lage, diz que ele vai parar no inferno, ao que Máiquel retruca: “Eu já tô no inferno!”. Será? Cercado de mulheres bonitas, rico e adorado pelos vizinhos, fica difícil acreditar nessa afirmação. E se o inferno é assim, agora eu sei porque está cheio de neguinho na fila.

A direção sem sutilezas de Fonseca peca também em transformar em caricatura os personagens secundários na segunda metade do filme, o que acaba provocando no espectador apenas vontade que o matador dê cabo deles mais rápido. É um sentimento meio incômodo, já que são todos legais e cativantes no início. A própria escolha do elenco contribui para essa mitificação da violência, já que ninguém, com exceção do protagonista, parece realmente fruto daquele meio e sim uma representação estilizada do que seriam essas pessoas. Essa estilização permeia também o visual do filme, fruto do background publicitário do diretor e de seus companheiros na produtora carioca Conspiração Filmes, especializada em comerciais e videoclipes.

Mas isso não quer dizer que o filme não tenha seus méritos. O protagonista, o excelente Murilo Benício, arrebenta no papel principal. Incomoda um pouco o fato dele passar todo o filme com a barba por fazer, e sempre do mesmo tamanho. Todo homem sabe – menos o diretor – que se a gente não faz a barba, ela cresce, mas nunca fica do mesmo tamanho, “charmosamente desleixada” (minha namorada tem algo a dizer sobre esse assunto).

O roteiro amarra bem as várias situações e aproveita excepcionalmente todas as oportunidades de injetar humor na trama (o porquinho Bill, chamado assim em homenagem a Bill Clinton, é um achado).

Enfim, O Homem do Ano diverte, não ofende e arranca boas risadas. Se houve a intenção de algum comentário social, esta ficou, bem, na intenção. Não é perturbador como O Invasor, nem criativo como O Homem que Copiava e muito menos bem narrado e cheio de energia como Cidade de Deus, mas acerta no alvo, graças à pontaria certeira de Murilo Benício.

     

Direção:
José Henrique Fonseca

Com:
Murilo Benício, Claudia Abreu, Natália Lage, Jorge Dória, Lázaro Ramos, Wagner Moura, José Wilker, Agildo Ribeiro

Nota: