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Herói
(Ying Xiong, China, 2003)
Depois
de se assistir a HERÓI fica ainda mais difícil
compreender a relutância das distribuidoras norte-americanas
em lançar o filme no país a ponto de Quentin Tarantino
precisar usar seu nome e prestígio para fazê-lo. Pois
o público de lá pode se considerar eternamente grato
ao “pai da Noiva”, e, de certo modo, nós também,
pois se não fosse por ele e o conseqüente sucesso que
o filme fez por lá, também estaríamos privados
de ver esse tesouro cinematográfico nos cinemas brasileiros.
E garanto a vocês que seria uma perda irreparável.
Invariavelmente
HERÓI será comparado ao mais famoso
filme de artes marciais vindo do oriente: O TIGRE E O DRAGÃO,
de Ang Lee. Mas, apesar da temática parecida (uma história
envolvendo Wuxia, os antigos guerreiros chineses dedicados
às artes marciais e ao aprimoramento da espada), assim como
a presença de seqüências de lutas plasticamente
impecáveis em ambos os filmes, em essência, suas histórias
são bastante diferentes.
Em
O TIGRE E O DRAGÃO, o drama das personagens, apesar de todas
as discussões filosóficas que existiam como plano
de fundo, era restrito praticamente ao nível pessoal. Uma
jovem nobre dividida entre o amor, seu desejo por uma vida de aventuras
e as obrigações de sua posição social.
Dois guerreiros veteranos que temem confessar o mútuo amor.
Em
HERÓI também temos um casal apaixonado
(Espada Quebrada e Neve Flutuante), mas a luta aqui é por
algo muito maior que os rumos de sua vida pessoal.A luta é
sobre os rumos de um país, de uma possível nação.
HERÓI é antes de mais nada um épico,
e trata de temas como lealdade, honra, vingança, amor, justiça,
mas de uma forma que ultrapassa as meras vidas dos indivíduos
que protagonizam a história.
Séculos
atrás, a China não era uma única nação,
mas sim um território dividido entre sete reinos distintos
que lutavam entre si. O mais poderoso de todos os reinos era a província
do norte, governada por Qin, cujo maior sonho era unificar “tudo
abaixo do céu”.
Sendo
tão poderoso e até mesmo um pouco inclemente para
conseguir seus propósitos, Qin ganhou diversos inimigos nos
demais reinos, e muitos foram os assassinos, que por vingança
pessoal, ou pelo desejo de livrar seu próprio povo da constante
ameaça dos soldados de Qin, que tentaram matar o rei.
Três
eram os mais famosos e habilidosos dentre os demais: Céu
(Donnie Yen), Espada Quebrada (Tony Leung
Chiu Wai), e Neve Voadora (Maggie Cheung).
Sendo que os dois últimos quase conseguiram concretizar o
assassinato em uma ousada invasão ao castelo do rei.
Sendo
assim, diante de tamanha ameaça, Qin prometeu riquezas inimagináveis
e o privilégio de beber junto a ele para quem matasse esses
espadachins. Todos os súditos só podiam ficar a 100
passos de distância do rei, mas quem matasse Céu poderia
ficar a 20 passos do rei, e quem matasse Espada Quebrada ou Neve
Voadora ficaria a dez passos.
Certo
dia, Sem Nome (Jet Li), um delegado de uma pequena
cidade do reino de Qin, proclama ter matado os três espadachins
e traz consigo as espadas dos guerreiros como prova. Levado ao Rei,
sem nome começa a narrar seus feitos que culminaram com a
derrota de Céu, Neve Flutuante e Espada Quebrada.
Como
no clássico RASHOMON de Akira Kurosawa, temos várias
versões de uma mesma história: a de Sem Nome, a do
Imperador e a que mostra como tudo realmente aconteceu. Mas, a proposta
de HERÓI não é discutir a
fragilidade da verdade como no filme do mestre japonês. Cada
versão nos ajuda a compreender as personalidades e as motivações
de todas as personagens. Para diferenciar cada versão da
história foi escolhida uma cor predominante, tanto nos cenários
quanto nos figurinos: vermelho, azul e branco. Quanto mais próxima
do que realmente ocorreu, mais clara a cor. O verde também
é usado, mas para relatar eventos passados.
Contudo
as cores não refletem apenas a veracidade dos fatos, mas
também são espelhos dos sentimentos dos protagonistas
em cada versão. O vermelho conta uma história de personagens
envoltos em paixões avassaladores, rancores e traições,
o azul denota um romantismo e idealismo quase pueril, já
o branco, seco e realista, mostra uma espécie cruzamento
entre as duas primeiras versões, existe amor, mas existe
amargura.
HERÓI
também é uma experiência visual sem precedentes.
Além das cenas de lutas serem belíssimas, com coreografias
que mais lembram um gracioso balé do que uma batalha sangrenta,
a união entre belos cenários, fotografia primorosa,
figurinos requintados transforma cada cena em um quadro de beleza
plástica imprescindível, que algumas vezes lembram
pinturas em movimentos. Uma das cenas mais lindas é quando
uma das personagens morre e todo o filme é banhado pelas
cores vermelhas, como se o sangue do morto tomasse toda a tela.
Outro
grande crédito de HERÓI é
usar o efeito bullet time, amplamente banalizado depois
de MATRIX, de um modo criativo, belo, e por que não dizer,
poético.
HERÓI
foi indicado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro ano retrasado,
mas infelizmente não ganhou. Mas quem consegue entender a
cabeça do pessoal da Academia?
Zhang
Yimou, diretor e roteirista de HERÓI,
conseguiu realmente ultrapassar Ang Lee e elevou efetivamente os
filmes de artes marciais ao cinema de arte. HERÓI
é a combinação perfeita de sensibilidade, ação,
romance e reflexão. Uma obra-prima inquestionável.
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Direção:
Zhang Yimou
Com:
Jet Li, Tony Leung Chiu-Wai,
Maggie Cheung Man-Yuk, Zhang Ziyi, Chen Dao Ming, Donnie Yen
Cotação:
   
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