Hellboy
(EUA, 2004)




Sabe aqueles filmes que usam a velha campanha "assista o filme, leia a revista, jogue o videogame, compre o boneco"? HELLBOY é um desses filmes. E o melhor é que nesse caso, tudo funciona. Me virei no Mercado Livre para comprar todos os bonecos e são incríveis. Os quadrinhos de Mike Mignola, bem... não foi à toa que Guillermo Del Toro decidiu fazer a adaptação cinematográfica deles.

No final da Segunda Guerra Mundial, os nazistas resolvem invocar um demônio para garantir a vitória. Para isso, usam o russo Grigori Efimovich Rasputin. Sim, aquele feiticeiro maluco que era conselheiro da família imperial russa no começo do século passado. Só que um pelotão de americanos, acompanhados pelo Prof. Trevor "Broom" Bruttenholm, atacam o local do ritual no momento em que o portal é aberto. Por esse portal, escapa um bebê demônio que é logo apelidado de... ganha um doce se acertar... Hellboy. Os anos passam e sua existência é mantida em segredo. Ele cresce e se torna um agente do BPRD (traduzindo a sigla, Departamento de Pesquisa e Defesa Paranormal). Lá existem outras "aberrações" como o anfíbio telepata Abe Sapien (Doug Jones, dublado por David Hyde Pierce) e a pirocinética Liz Sherman (Selma Blair). Em uma de suas investigações, eles descobrem que Rasputin está de volta.

Parece maluco? E é. Mas é extremamente divertido. Os quadrinhos originais sempre se preocuparam muito pouco com a sanidade. Nunca foi perdido muito tempo fazendo desenvolvimento de personagens da maneira convencional. Aos poucos, através de suas atitudes, fomos aprendendo como cada um se portava. É aí que o filme se distancia um pouco, principalmente no relacionamento entre Hellboy e Liz. É um mal necessário pois a minha visão sobre o personagem é um pouco diferente da mostrada no filme. Mas como Del Toro trabalhou sempre próximo a Mignola, não cabe a mim reclamar.

Ron Perlman como o personagem título é perfeito. Não é surpresa Del Toro ter lutado tanto com o estúdio para que ele pudesse ser contratado. O estúdio queria alguém mais comercial e o nome de Vin Diesel foi citado várias vezes. A vantagem é que Perlman nunca foi uma celebridade e seus papéis mais elogiados em grande maioria envolveram pesadas maquiagens. Ou seja, aqui ele some no personagem, coisa que não seria possível com Diesel. Mas nem por isso os outros se apagam. O trabalho feito com Abe Sapien também é invejável e a dublagem de Pierce também foi uma escolha muito feliz (apesar de que meu voto ainda vai para Kevin Spacey, que foi mencionado).

Quem também chama a atenção é o agente John Myers, vivido por Rupert Evans. O peixe fora d'água para que o espectador se sinta mais envolvido. Mas para quê? Hellboy rouba o show! Pelo menos Myers foi muito bem escrito e consegue cativar. Assim como John Hurt como o Professor Broom. Selma Blair tem que fazer muito pouco já que a atriz, que não é daquelas de chamar muito a atenção, tem um papel do mesmo estilo: uma moça quieta, meio deslocada. Ou seja, também uma escolha feliz (apesar das reclamações do Kas).

HELLBOY pode desagradar a alguns por parecer um simples capítulo na vida do personagem, inclusive se levarmos em consideração a narrativa ágil. Mas até nisso o filme é fiel aos quadrinhos. A direção de Del Toro é segura e equilibrada, com cenas bem boladas que arrancam lágrimas, risadas, tensão e excitação em doses cavalares.

Os efeitos especiais são, na falta de uma palavra melhor, invejáveis. É impressionante que um filme com um orçamento de apenas US$ 66 milhões (modesto para os padrões americanos) tenha efeitos digitais tão bons! Um ou outro efeito com fios não me agradou muito e poderia muito bem ser substituído pelos incríveis efeitos digitais usados no filme. Os designs também são impecáveis, mesmo que a decisão de colocar o personagem num ambiente urbano na maior parte do filme não seja a minha favorita. E o ponto alto: maquiagem. Sinceramente, até agora meu voto para o Oscar de melhor maquiagem de 2004 vai para HELLBOY. Porque ela ainda ajuda no efeito digital. Tudo se mescla. Lindo!

A música de Marco Beltrami, que nunca foi um dos meus compositores favoritos, é surpreendente. Pode até não ser uma daquelas que ficam grudadas no cérebro (como as marchinhas de John Williams) mas consegue transmitir clima, suspense e emoção muito bem. Ainda tive que pagar caro pelo CD, que parece que não vai ser mesmo lançado no Brasil. Mas o tema é bem superior, por exemplo, ao de Homem-Aranha de Danny Elfman (que apesar das reclamações, é uma trilha sonora bem competente como tudo que Elfman faz).

Este é um dos mais modestos filmes deste verão e certamente um dos melhores. Se o Superman dizia "Para o alto e avante!" e "Verdade, Justiça e American Way" e o Sombra dizia "Quem sabe o mal que se esconde no coração dos homens? O Sombra sabe!", eu sou muito mais o "Aw crap!" de HELLBOY! É nessas horas que Vin Diesel deve estar com remorso por ter feito A Batalha de Riddick, um filme muito mais caro, muito pior e lançado na mesma época.

     

Direção:
Guillermo Del Toro

Com:
Ron Perlman, Selma Blair, John Hurt, Rupert Evans, Karl Roden, Jeffrey Tambor, Doug Jones

Cotação: