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Harry
Potter e o Prisioneiro de Azkaban
(Harry Potter and the Prisioner of Azkaban, EUA/Inglaterra,
2004)
Não
é novidade para ninguém que eu sou fã de Harry
Potter. Sou apaixonada pela série, tenho e li todos os livros.
Mas, não se enganem, o fato de eu ser fã de Potter
não quer dizer que eu seja complacente com os filmes da série.
Os
filmes dirigidos por Chris Columbus são apenas uma sombra
de todo o potencial que os livros contém. Infelizmente, Columbus
é formal e pasteurizado demais, o típico diretor de
estúdio, bom em termos técnicos, mas que não
sabe ousar e dar aquele tempero especial aos filmes que faz.
Mas
isso também não que dizer que Harry
Potter e a Pedra Filosofal e Harry Potter e a Câmara
Secreta sejam filmes ruins. Não, não são,
mas certamente poderiam ser infinitamente melhores nas mãos
de um diretor mais competente.
Costumo
dizer que desde O Jardim Secreto e A
Princesinha (este dirigido por Alfonso Cuarón)
não apareceu nas telas de cinema nenhum filme infanto-juvenil
realmente encantador, e que, querendo ou não, os filmes de
Columbus foram o que surgiu de um pouco mais interessante nos últimos
tempos.
Em
outras palavras, faziam quase dez anos que Hollywood nos devia uma
grande produção infanto-juvenil. Daquelas que deixam
as crianças fascinadas e enternecidas com o que vêem
nas telas e os adultos com aquela sensação deliciosa
de que voltaram a ser criança por breves momentos.
Hollywood
nos devia, não nos deve mais ... Pois HARRY POTTER
E O PRISIONEIRO DE AZKABAN é tudo isso e mais um
pouco.
Quase
todo mundo sabia que esse filme prometia ser o melhor dos três.
Primeiro porque era baseado no melhor e mais bem elaborado livro
da série. Segundo porque seria dirigido por Alfonso Cuarón,
um diretor cujo talento até o momento é inquestionável.
Mas, ainda assim HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN superou
as minhas expectativas.
Para
quem (ainda) não conhece a história do filme é
a seguinte: Harry está entrando no terceiro ano de Hogwarts.
E como já se espera, algum novo perigo vai rondar a vida
do bruxo adolescente. O nome dessa provável ameaça
é Sirius Black, fugitivo de Azkaban, seguidor de Voldemort,
condenado pelo seu envolvimento na morte dos pais de Potter. Para
impedir a entrada de Black na escola, são destacados os tenebrosos
guardas de Azkaban, os dementadores. Mas esses guardas, na realidade,
são muito mais perigosos que o fugitivo: são criaturas
vis e cruéis, que sugam toda a felicidade das pessoas.
Quando
anunciaram, nos cartazes do filme, que tudo iria mudar. Realmente
não estavam brincando.
A começar
pelo visual do filme. Mudaram os uniformes, a configuração
da escola, o figurino dos professores, numa forte explícita
de desvincular esse filme daqueles feitos anteriormente. Mas tais
mudanças são apenas a ponto do iceberg diante de todo
o resto.
Cuarón
possui um jeito de dirigir completamente distinto de Columbus. Ele
busca, mesmo em um mundo mergulhado na magia, um certo realismo
e naturalismo. Prefere tomadas externas a aquelas feitas no estúdio,
coloca os personagens usando roupas comuns além dos uniformes,
usa os efeitos especiais de forma sutil como parte da cena e não
como foco principal. Enfim, cria um mundo bruxo extremamente plausível,
tal qual ele provavelmente seria se fosse real.
E tal
opção de Cuarón reflete enormemente na própria
atuação do elenco. É incrível como eles
parecem todos muito mais seguros do que fazem, não apenas
por estarem revivendo suas personagens pela terceira vez na maioria
dos casos, mas se mostram mais tranqüilos e naturais em suas
interpretações. Agindo como pessoas e não como
personagens.

Falar
do elenco é até covardia. Quase todos estão
tão bem que fica até difícil destacar alguém.
Daniel Radcliffe está cada vez melhor como
Harry e é interessante vê-lo indo um pouco além
daquela imagem de “herói clássico” dos
dois primeiros filmes, e agindo mais como um adolescente que sente
raiva, medo, adora aporrinhar os tios e até mesmo pregar
peças nos amigos. Sobre Emma Watson (foto
acima) nem é preciso comentar, é sem dúvida,
a melhor do trio principal. Michael Gambon substitui
Richard Harris á altura com seu Dumbledore. David
Thewlis como o Professor Lupin também está
excelente, se mostrando como um ponto de apóio para Harry
e elo de ligação com os pais do menino, sem se tornar
paternal ou forçado demais. E quanto a Gary Oldman,
nosso Sirius Black, ele simplesmente arrasa quando aparece. É
a personificação perfeita de Sirius, passando toda
a angústia e a sede de vingança causada pelo sofrimento
de seus anos enclausurado em Azkaban.
Quanto
aos demais atores, como a novata na série Emma Thompson
(Prof. Sibila) e mesmo os veteranos dos filmes anteriores, fica
o lamento de eles aparecerem tão pouco na película.
Também
são dignas de nota as referências que Cuarón
se utilizou para construir sua visão do mundo criado por
J. K. Rowling. O universo potteriano de Cuarón
não é um mundo de fantasia cor-de-rosa e belo, existe
algo macabro mesmo nas situações mais comuns (como
aquela cabeça-encolhidas que auxiliam o motorista do Noitebus).
È um mundo de tonalidades acinzentadas em que nem tudo é
o que parece.
A inspiração
no estilo do Expressionismo Alemão e um pouco menos nos filmes
de terror dos anos 30 da Universal é notável. Como
no Expressionismo, Cuarón, mesmo em seu naturalismo, mostra
cenários íngremes e angulosos, refletindo o conflito
e a tensão que existe no ar. Sua Hogwarts é toda constituída
de sombras, aclives e declives. Como se tudo lembrasse que “algo
sinistro está se aproximando”. Também alguns
recursos de passagem de cenas (o “olho da lente” se
alargando ou diminuindo) é típico desse movimento
cinematográfico. Ainda sobre essa influência, não
pude deixar de pensar o quanto o empregado do ministro da Magia,
Cornelius Fudge, me lembrou uma mistura do Nosferatu com
o assistente corcunda do Dr. Frankenstein do filme de James Whale.
É
claro que não poderia deixar de falar do visual dos dementadores.
A produção do filme foi feliz em sua escolha. Além
deles serem completamente diferentes dos Espectros do Anel, de O
Senhor dos Anéis (coisa que eu realmente temia que acontecesse),
os monstros ficaram muito mais assustadores e ameaçadores.
Se eu tinha medo deles no livro, tive muito mais no filme.
Bicuço
também ficou fenomenal, não ficando em nada a dever
às Águias de O Senhor dos Anéis, e
muito melhor que o Dobby do filme anterior. As cenas de vôo
do hipogrifo são emocionantes.
O grande
acerto de Cuarón foi não tentar fazer uma transcrição
quase literal do livro para as telas, como fez Columbus, mas fazer
uma adaptação. Cinema e literatura são, obviamente,
linguagens diferentes, e nem tudo o que funciona em um dá
certo no outro. Ele soube bem o que colocar, o que tirar e o que
mudar.
Mas,
ainda assim o filme não é perfeito. Por incrível
que pareça, apesar de ser baseado no livro mais bem amarrado,
o filme apresenta certos furos no roteiro. Nada excepcionalmente
gritante, mas que pode prejudicar um pouco quem não leu o
livro. Dois exemplos mais gritantes (cuidado, são
spoilers importantes! Selecione com o cursor as frases
abaixo apenas se você já tiver lido o livro ou visto
o filme!): como Sirius Black descobriu
que Peter Pettigrew estava vivo e em Hogwarts? Isso aparece no filme
de forma tão rápida e completamente deslocada que
quem não leu a história antes dificilmente fará
uma ligação entre os fatos. O mesmo pode-se dizer
sobre o fato de o Prof. Lupin precisar tomar poções
para não virar um lobisomem, que é citado muito brevemente
e acaba por não fazer tanta diferença pelo modo como
foi colocado desleixadamente no contexto.
Para
os fãs da série, dois detalhezinhos deliciosos no
decorrer do filme: as aparições relâmpago de
Pansy Parkinson, namorada de Draco Malfoy, e Cedric Diggory, apanhador
da Lufa-lufa, que terá um importante papel no quarto filme.
Sinceramente,
tem tantas outras coisas bacanas nesse filme que eu poderia ficar
ainda horas e horas digitando e analisando, mas acabaria cansando
vocês. Só posso dizer que depois do que Cuarón
fez, pobre Mike Newell, diretor de O Cálice de Fogo,
vai ser difícil superar o mexicano.

Se
tem uma cena que sintetiza todo o filme, que transmite toda a magia,
fantasia e emoção da película, certamente é
a cena em que Harry voa pela primeira vez nas costas de Bicuço.
O prazer e o deslumbramento no rosto de Harry durante a travessia
são sublimes, assim como o vôo propriamente dito. Fiquei
extremamente emocionada. Me senti novamente com meus sete anos de
idade, vendo Atreyu voando nas costas do Dragão Falkor em
A História Sem Fim, e acreditando que mesmo em um
mundo de sombras é possível sonhar.
HARRY
POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN é realmente magia em sua
forma mais pura.
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Direção:
Alfonso Cuarón
Com:
Daniel Radcliffe, Emma Watson,
Rupert Grint, David Thewlis, Michael Gambon, Gary Oldman, Alan Rickman,
Emma Thompson, Julie Christie
Cotação:
  
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