Harry Potter e o Cálice de Fogo
(Harry Potter and the Goblet of Fire, EUA, 2005)

Dizer que sou fã de Harry Potter é praticamente chover no molhado. Quem lê A Galáxia sabe disso há muito tempo, entretanto não sou uma fã purista daquelas que se ressente porque determinado trecho do livro não foi literalmente transposto para a tela de cinema. Exatamente porque, da minha perspectiva, por mais que possam existir aproximações entre cinema e literatura (e muitos movimentos de vanguarda inclusive reforçam essa aproximação, mas discorrer sobre isso aqui é fugir do nosso tema), cinema e literatura são efetivamente meios diferentes. Cada um com recursos e gramáticas próprias, portanto, muitas são as vezes em que aquilo que fica maravilhosamente bem nos livros, pode ser tornar enfadonho e sem graça na telona.

E, é exatamente por compreender isso tão bem, que HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN, dirigido por Alfonso Cuarón, é um dos meus filmes favoritos na franquia do bruxo adolescente criada por JK Rowling. Se havia algum problema no terceiro filme, era mais por questão de roteiro (alguns lapsos na história que devem ter passado despercebido pelo roteirista Steven Kloves) que propriamente pela direção do mexicano. Cuarón soube aproveitar ao máximo os elementos que a história lhe oferecia, reforçando em cada cena os aspectos de um filme quase de terror que a trama pedia, além de remeter continuamente nas questões dos retornos literais e metafóricos no tempo. Com ele descobrimos que Hogwarts podia realmente ser tão real quanto qualquer escola de nosso mundo "trouxa".

E Mike Newell (QUATRO CASAMENTO E UM FUNERAL), assim como também Kloves, parecem ter aprendido essa valiosa lição vinda do filme anterior. Hogwarts continua tão plausível quanto uma escola "de verdade", e as personagens continuam apresentando as nuances psíquicas que felizmente começaram a emergir no PRISIONEIRO. Harry (Daniel Radcliffe) não é apenas um herói, mas também um adolescente tímido com problemas com as garotas, Ron (Rupert Grint) não é só o palhaço da turma e o sidekick de plantão, mas também é capaz de comportamentos infantis e egoístas. Tampouco Hermione (Emma Watson) é apenas a nerd estudiosa da escola, mas uma garota que é capaz de ter seus rompantes românticos, ainda que discretos (afinal, ela não seria Hermione Granger se agisse de outro modo).

È claro que todos esses aspectos das personagens já estavam presentes nos textos da J. K. Rowling, mas nas mãos de uma equipe menos sensível que focasse principalmente a questão da ação simples e pura, tudo isso passaria completamente batido e muito do encanto do filme se perderia.

Tentar comparar rigidamente O PRISIONEIRO DE AZKABAN e HARRY POTTER E O CÁLICE DE FOGO é uma tarefa relativamente ingrata, porque ambos os filmes são excepcionais naquilo que eles realmente se propõem. Se me perguntarem qual deles é melhor, acho que diria que é quase um empate. Talvez em termos visuais e de soluções de construção de cenas, AZKABAN tenha algumas sacadas bem mais interessantes, porém O CÁLICE também tem seus méritos.

Como disse antes, AZKABAN foi concebido para ser um filme de terror infanto-juvenil, pois sua história assim pedia. Afinal, Sirius Black era supostamente um louco assassino que irracionalmente estaria atrás de Harry. Sem falar, é claro, das figuras aterrorizantes dos Dementadores.

Já, em relação ao livro O CÁLICE DE FOGO, temos um pequeno problema. Por ser um livro extenso e cheio de meandros, existiam milhares de maneiras de abordá-lo. Lá estão esse lado aterrorizante do AZKABAN, mas também os aspectos de pura aventura que são o forte das duas outras obras. Portanto, ele praticamente traz em si a síntese dos três primeiros livros Tudo diluído em mais de 400 páginas. Se podemos dizer uma coisa com certeza é que este é o ponto de virada na saga de Harry Potter. Não apenas pelo seu final bombástico, mas também por trazer um novo elemento ao universo potteriano: a descoberta dos primeiros amores e da sexualidade. Afinal, nossas personagens estão crescendo.

Mas, como condensar todos esses elementos em um filme de 157 minutos? Simplesmente se lembrando que se está fazendo uma ADAPTAÇÃO cinematográfica e não uma transposição literal do filme, tentando encontrar soluções mais funcionais para o formato e não ficar se amarrando a um purismo desmedido.

E os realizadores dos filme conseguem isso de modo maneira eficiente. Apesar de muitos (muitos mesmo!) detalhes serem completamente diferentes do que vimos no livro, a essência da história está toda ali.

E, enquanto Cuarón optou por beber da fonte do terror (especialmente do Expressionismo Alemão dos Anos 20 e dos filmes da Universal dos anos 30), Mike Newell parece buscar inspiração nos filmes infanto-juvenis dos anos 80, mas especificamente naquela linha que mescla humor e ação em suas tramas, cujo maior representante é OS GOONIES (roteirizado, aliás, por Chris Columbus, diretor dos dois primeiros filmes do Harry).

Como nesse clássico, HARRY POTTER E O CÁLICE DE FOGO não tem medo de mostrar cenas mais fortes, envolvendo inclusive mortes, mas também traz em si fortes doses de humor e aventura no seu estado mais puro. Consegue também retratar seus adolescentes, mesmo os coadjuvantes, de um modo tão carinhoso e vivo que é impossível não se identificar com as personagens e com seu jeito meio criança/meio adulto, um tanto inocente, porém simultaneamente malicioso.

Como a maioria já deve saber, neste quarto ano de Harry Potter em Hogwarts, o famoso Torneio Tribruxo será realizado e os integrantes de duas outras escolas, Beauxbattons e Durmstrang, irão também participar. Cada escola deverá ser representada por um único estudante, escolhido pelo Cálice de Fogo do título. Porém, inexplicavelmente, Harry acaba sendo sorteado como o quarto campeão, e se vê obrigado a participar de perigosas provas contra a própria vontade. E como se ele já não tivesse com o que se preocupar, o garoto que o garoto começa a ter os sonhos com Voldemort, o bruxo das trevas que assassinou seus pais.

Newell começa o filme com cenas pesadas, como o ataque dos comensais na Copa do Mundo de Quadribol, que aliás ficou excelente, pois passou todo o pânico e confusão que um ataque inesperado e o receio de um recomeço de uma guerra trazem. Aliás, outro ponto digno de nota aqui são as roupas dos comensais que lembram muito as roupas da Klu Klux Klan.

Mas, depois disso, o diretor simplesmente adocica a nossa boca com uma competente alternância de seqüências cômicas e de ação, quase a ponto de esquecermos da verdadeira ameaça que ronda as nossas personagens, especialmente Harry Potter, criando, assim, uma sensação de falsa segurança. Falsa segurança que é completamente estilhaçada já quase no fim do filme. Quando o perigo se concretiza, já é praticamente tarde para correr, fazendo com que os espectadores, efetivamente, se sintam na pele das personagens.

E diga-se de passagem, muito disso se deve também à brilhante interpretação de Ralph Fiennes como Lorde Voldemort. Em poucos minutos na tela, Fiennes toma conta totalmente da cena. Voldemort nunca foi tão imponente, tão insano e perigoso quanto na interpretação de Fiennes. Pela primeira vez tive realmente medo de Voldemort e compreendi porque ele é Aquele-que-não-deve-ser-nomeado.

Talvez o único grande defeito de HARRY POTTER E O CÁLICE DE FOGO seja exatamente o seu trunfo, pois apesar de manter a essência da história, por vezes, tudo parece muito rápido. Rápido demais.

Mas isso é uma coisa que só deve mesmo irritar apenas àqueles fãs mais radicais. Ou quem sabe àqueles, que como eu, ficaram com um gosto de quero mais.

     

Direção:
Mike Newell

Com:
Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, James Phelps, Oliver Phelps, Michael Gambon, Brendan Gleeson, Robbie Coltrane, Bonnie Wright, Jeff Rawle, Jason Isaacs, Maggie Smith, Miranda Richardson, Ralph Fiennes, Tom Felton, Gary Oldman

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