Guerra dos Mundos
(War of the Worlds, EUA, 2005)




Infelizmente, Steven Spielberg não está para os críticos no mesmo patamar que Ridley Scott. É assustador como a crítica internacional poupa o segundo de tantos deslizes mas não hesita por um segundo em malhar o primeiro. Talvez porque Spielberg parece muito mais interessado em apenas entreter o público do que as produções pseudo-cabeça de Scott. E é exatamente o que temos em GUERRA DOS MUNDOS. Um filme pouco preocupado em fazer paralelos com a "ameaça comunista", como fez a versão de 1953 (uma afirmação que, ao rever o filme, acho que também já perdeu muito de sua força) ou com os atentados de 11 de setembro.

Achar que os aliens deste filme representam Bin Laden e seus amigos é uma afirmação, na minha humilde opinião, um tanto simplista. Até um pouco paranóica. Claro, ambos os filhos de Tom Cruise no filme, Justin Chatwin e a sempre impressionante Dakota Fanning, perguntam ao pai se "são os terroristas" os responsáveis pela destruição em massa. Os EUA vivem hoje em alerta e tal pergunta é cabível, claro. O fato de que as naves alienígenas encontravam-se embaixo do solo pode ser um simbolismo tanto para o fato dos terroristas de tal atentado já estarem dentro do país como a suspeita deles se esconderem em cavernas em sua terra natal. Mas as semelhanças acabam mesmo por aí.

Primeiro porque não temos aqui um ataque localizado nos EUA. Segundo que, e isso é uma das poucas boas coisas do roteiro de Josh Friedman e do medíocre David Koepp, aqui não temos o clima de união e fraternidade que os americanos tanto gostam de transmitir atualmente. Para Spielberg, a realidade é outra. O desespero coloca vizinho contra vizinho. Pânico gera ainda mais violência. O ser humano mostra-se tão perigoso quanto os alienígenas. Com raras exceções, claro. E em tempos que ser politicamente incorreto está se tornando inviável, é bom ver que o diretor não tem medo de desagradar. Principalmente por fazer um filme de alienígenas à moda antiga, onde os E.T.s são maus mas os humanos podem ser ainda piores.

Ao ver as cenas de ataque dos aliens, tive uma impressão confirmada pelo personagem de Tim Robbins. Não é uma guerra, é um extermínio. Do mesmo jeito que dedetizamos uma casa, os aliens aniquilam os humanos para construírem sua nova casa.

GUERRA DOS MUNDOS entrega algo que SINAIS não conseguiu: um ponto de vista humano sobre uma invasão, onde as pessoas apenas assistem, incapazes de realmente fazer algo. Mas, felizmente, sem cair nas armadilhas que Shyamalan caiu, que foi a quebra total da tensão no climax do filme com aquele péssimo flashback sobre o acidente de carro da esposa de Mel Gibson, além da tola explicação do "swing away" e o confronto com o alien. Sobras em um filme até então interessante sobre o relacionamento familiar.

O que é algo que Tom Cruise faz com primor, em uma de suas melhores atuações. Tudo bem que, apesar dos tenros 42 anos que carrega, ele ainda aparenta ser bem mais jovem, principalmente para ter um filho adolescente. Mas seu papel de pai inconsequente que se torna responsável é muito bem interpretado, apesar da unidimensionalidade de todos os personagens, coisa que sempre foi um problema do roteirista David Koepp.

Além disso tudo, é redundante elogiar a qualidade técnica do filme. Spielberg tem uma equipe tão eficiente, principalmente no diretor de fotografia Janusz Kaminski, no editor Michael Kahn e no grande John Williams, pra mim o melhor compositor de trilhas sonoras da atualidade e um dos maiores de todos os tempos. Isso sem deixar de fora os feras da ILM, responsável por efeitos especiais criativos. É interessante também como o filme usa a técnica anti--Bruckheimer. Mesmo havendo explosões, raios e acidentes constantemente, o som do filme é contido. As armas usadas pelos alienígenas, ao invés de emitir um som ensurdecedor como qualquer diretor usaria, têm um som diferente, quase surdo.

Talvez seja por ter uma equipe tão eficiente, nota-se que os últimos trabalhos comerciais de Spielberg estão sem paixão, sem vida, como tinham os filmes mais antigos do diretor. Mas ele ainda é um mestre na narrativa e não poupa esforços nos aspectos técnicos. O que torna um filme dele, mesmo não sendo um realmente bom, uma ótima diversão.

     

Direção:
Steven Spielberg

Com:
Tom Cruise, Dakota Fanning, Tim Robbins, Justin Chatwin, David Alan Basche, Miranda Otto

Cotação: