| |
|
Na
Companhia do Medo
(Gothika, EUA, 2003)
Quando
surgiu, a Dark Castle, companhia especializada em filmes de horror
situada no coração de Hollywood, prometia devolver
aos fãs do gênero o prazer perdido após incontáveis
pânicos de verões passados. Afinal, à frente
da produtora estava ninguém menos que Robert Zemeckis
e Joel Silver, fãs confessos de filmes de
horror de outrora, e responsáveis pela memorável série
de TV Tales From the Crypt, baseada nos quadrinhos da EC
Comics. E no cardápio, várias refilmagens de clássicos
da década de 50, como os filmes de William Castle.
Com
produtores como estes para levantarem orçamentos polpudos,
bastava só convocarem bambas do gênero para comandarem
os filmes, previstos para serem lançados um por ano. Foi
aí que as expectativas se estilhaçaram. Zemeckis e
Silver agiram como os mais perniciosos executivos de estúdio
e entregaram a direção a novatos vindos da escola
de videoclipe e publicidade, uma praga que começou na década
de 70, se popularizou nos anos 80 e contaminou de vez a produção
cinematográfica na década de 90. Claro que existem
cineastas que se iniciaram no ramo publicitário e são
dignos da profissão, como Alan Parker e Fernando Meirelles,
mas para cada David Fincher, temos de aguentar vinte Michael Bay.
Infelizmente,
as primeiras produções da Dark Castle caíram
nas mãos de nomes da segunda categoria, como Steve Beck e
William Malone. Ou seja: muitos tiques, cores, luzes estroboscópicas
e fumaça de gelo seco - que parecem saídas de um show
da Britney Spears - e nada de clima, narrativa, tensão e
suspense, ingredientes básicos de qualquer filme de horror
que se preze do nome.
Ainda
assim, A Casa da Colina, 13 Fantasmas e Navio
Fantasma, apesar de não passarem de cadáveres
descerebrados, foram sucessos de bilheteria e garantiram a sobrevida
da companhia.
Por
tudo isso acima - e também por ter sido igualmente estraçalhado
pela crítica - fui ver Na Companhia do Medo
com os dois pés atrás e expectativa zero. Não
que o filme vá redimir o currículo pecaminoso da empresa,
mas prova de uma vez por todas que diferença faz um diretor
de verdade.
Tudo
bem que o francês Mathieu Kassovitz (O
Ódio, Rios Vermelhos) parece um sub-Fincher
e se limita a contar a história que tem em mãos, que
não é lá muito original. Mas o faz com competência
e noção de narrativa, o que garante o envolvimento
do espectador. Kassovitz não se preocupa em adornar o visual
com maneirismos publicitários e sua tentativa de criar um
clima gótico, como sugere o título original, é
parcialmente bem sucedida.
Mais
problemático é o roteiro do espanhol Sebastian
Gutierrez (diretor de A Criatura da Destruição),
que utiliza todos os elementos aos quais estamos habituados, como
o fantasma de uma garota descabelada, relâmpagos e trovoadas,
reviravoltas e acidentes misteriosos. É até passável,
se a trama não se anunciasse momentos antes do que deveria,
permitindo ao espectador antecipar cada "revelação"
do roteiro.
O
elenco segura bem os personagens unidimensionais. É uma pena
que Robert Downey Jr. não faça muitos
filmes ultimamente, já que o ator está cada dia mais
simpático e charmoso. Halle Berry (foto),
em seu primeiro papel pós-Oscar, ainda não justifica
os elogios e prêmios que recebeu, mas também não
compromete. Alguns coadjuvantes de luxo, como Penélope
Cruz, Charles S. Dutton e Bernard
Hill, dão credibilidade a seus pequenos papéis.
E como
vem acontecendo com cada vez mais frequência nos thrillers
de suspense e horror hollywoodianos, a resolução peca
pela obviedade e didatismo. Ainda assim, Na Companhia do Medo
não merece o desprezo que vem recebendo por parte da crítica.
É o típico filme para ver se ver sozinho e sem grandes
expectativas, correndo grande risco de se divertir.
É
disparado o melhor produto da marca Dark Castle, o que não
quer dizer muito. Mas já seria um indicativo de que Silver
e Zemeckis estariam finalmente procurando aliar retorno comercial
com qualidade artística. Pena que para seu próximo
projeto, a refilmagem de Museu de Cera (clássico
com Vincent Price lançado em DVD no Brasil), a companhia
voltou a convocar um diretor de comerciais para "atualizar"
a história. Seria demais sonhar com Dario Argento, George
A. Romero, Tobe Hooper e David Cronenberg entrando na mira da Dark
Castle?
|
|
|
|

Direção:
Mathieu Kassovitz
Com:
Halle Berry, Penélope
Cruz, Robert Downey Jr., Charles S. Dutton, Bernard Hill
Nota:
|
|
|