Gangues de Nova York
(Gangs of New York, EUA, 2002)



Na época do lançamento de O PODEROSO CHEFÃO: PARTE III, a jornalista Ana Maria Bahiana levantou a seguinte questão: será que uma obra-prima, mesmo com falhas, continua uma obra-prima?

Esta mesma pergunta me veio à cabeça durante os letreiros finais de GANGUES DE NOVA YORK. O filme de Martin Scorsese foi consagrado por alguns e apedrejados por muitos, a maioria repetindo a mesma ladainha dos "formadores de opinião" da crítica americana.

Realmente, GANGUES está longe de ser um filme perfeito. A narrativa é às vezes truncada, talvez pelos cortes impostos pelo poderoso chefão Harvey Weinstein (a primeira montagem tem 3h30min de duração, enquanto o corte final ficou por volta das 2h40min). É muito tempo de filme que ficou de fora e, sinceramente, fazem falta. Claro que não dá pra ter certeza de que os 50 minutos a mais resolveriam todos os problemas de GANGUES, mas é essa a impressão que fica: a de que certas sequências são demasiadamente apressadas. Um bom exemplo é a que mostra Amsterdam, personagem de Leonardo DiCaprio, reativando os Dead Rabbits, a gangue original fundada por seu pai (participação luminosa de Liam Neeson) e liderando as demais contra as aliadas dos Nativistas, que domina os Five Points sob o comando do sanguinário Bill Açougueiro encarnado por Daniel Day Lewis. Nunca fica muito claro porque o Açougueiro permite com que Amsterdam consiga reviver os Dead Rabbits, e muito menos reúna as demais gangues rivais contra ele. Se mais tempo resolveria esse ponto é algo que só Deus, Scorsese e Weinstein saberiam dizer. Como o próprio diretor afirmou que não veremos uma "versão estendida" em DVD, parece que nunca saberemos. Mas, ao conferir as edições especiais de APOCALYPSE NOW e O SENHOR DOS ANÉIS, que conseguiram a façanha de melhorar consideravelmente os filmes originais, é inevitável que a dúvida apareça.

Mas que ninguém acuse esse filme de não ser uma obra apaixonada, aliás, como tudo que Scorsese faz. Podem criticar seus últimos filmes, como KUNDUN e VIVENDO NO LIMITE, mas daí a serem filmes impessoais é um longo trajeto.

Da sequência inicial, onde a câmera acompanha o personagem de Neeson e seus seguidores sairem das profundezas do inferno, chutarem a porta para dar de encontro com um paraíso de neve do lado de fora (que será maculado pelo sangue segundo depois) à polêmica cena final ao som de U2, GANGUES é Scorsese em cada milímetro de película.

O que causou confusão na crítica e no público é que todos esperavam o filme mais pop do diretor e pop é tudo que ele não é, apesar dos rostinhos de Leo e Cameron Diaz enfeitando a tela. Isso me surpreendeu pra cacete. Depois de ver GANGUES você consegue entender o porque do filme não ter sido lançado logo após os atentados. Se você acha que vai ver um filme entre duas gangues de rua brigando, está muito enganado. Scorsese te leva ao inferno, e ele é sufocante, sujo, caótico. E violento, muito violento.

Não a violência de gângsters e mafiosos, de assassinos e psicopatas. Não a violência isolada, de indivíduos. GANGUES DE NOVA YORK fala da violência do sistema, do governo, do povo e do choque de várias culturas aglomeradas num mesmo espaço, disputando cada centímetro da terra prometida. Neste aspecto, ao abordar a violência macro em detrimento da micro, o filme se aproxima muito de LARANJA MECÂNICA: a violência individual é fichinha perto da violência da instituição, do estado. O que as gangues de Nova York fazem é amarrar o rabo da gato, enquanto o poder legalmente constituído toca fogo no bicho inteiro.

Para quem esperava a narrativa milimetricamente calculada de OS BONS COMPANHEIROS ou a elegância de A ÉPOCA DA INOCÊNCIA, é normal ter ficado decepcionado com GANGUES. É compreensivo também que acusem Scorsese de ter esquecido como se conta uma história. Mas essa é uma leitura apressada e equivocada. Realmente, de calculado e elegante GANGUES não tem nada. A ordem aqui é a ordem do caos e a direção de Scorsese segue esse princípio. Todos os enquadramentos são propositadamente carregados, os movimentos de câmera não seguem a cartilha habitual do cineasta, a tela está sempre cheia de elementos, cores, gente feia e suja. Scorsese não faz concessões e realiza o que talvez seja seu filme mais "no osso". Você sente na pele o que é viver na Nova York do século atrasado, você sente o cheiro de urina e sangue, o calor, a dor de cada corte. Você está no meio de uma guerra e não sabe pra onde olhar, essa é a sensação que a câmera de Scorsese e do sensacional fotógrafo Michael Ballhaus te passa. É caótico, mas nunca sem rumo.

O elenco defende bem suas partes. Leo DiCaprio, que tem o papel mais difícil - o do jovem herói angustiado e vingativo - segura as pontas com a mesma competência com a qual não sucumbiu aos efeitos mastodônicos de TITANIC. Cameron Diaz ilumina a tela cada vez que entra em cena, ainda que tenha pouco a fazer da metade pro final. Brendan Gleeson, John C. Reilly e Jim Broadbent são os coadjuvantes que todo diretor pediu a Deus: cumprem seus compromissos sem ofuscarem a trama central.

E Daniel Day Lewis... Meu Deus, o cara é uma força da natureza! Seu Açougueiro é um psicopata sanguinário, com olho de vidro, um sorriso sádico e uma faca sempre nas mãos, mas ainda assim, filtrado pelo talento extraordinário do ator, ainda humano e principalmente, cativante. É o grande centro do filme, e representa a mesma força caótica e imprevisível que Scorsese empreendeu na direção e concepção da obra. Se não chegamos ao ponto de torcer por ele, é inevitável que o procuremos a cada fotograma. A energia dele em cena é inegável. Ele é o Coringa para o Batman de DiCaprio.

Em suma, um filmaço, ainda que imperfeito. Quem quer filmes redondinhos, que vá alugar UMA MENTE BRILHANTE. GANGUES DE NOVA YORK é um filme difícil de fazer, arriscado, sem concessões e brilhante em sua imperfeição. Será que uma obra-prima continua sendo uma obra-prima, mesmo com falhas graves? A resposta é sim... e não.

     

Direção:
Martin Scorsese

Música:
Howard Shore

Com: Leonardo DiCaprio, Daniel Day Lewis, Cameron Diaz, Jim Broadbent, John C. Reilly, Henry Thomas, Brendan Gleeson

Cotação: