Fahrenheit 11 de Setembro
(Fahrenheit 9/11, EUA, 2004)



É sempre difícil fazer a resenha de um documentário. É quase como um bloqueio. Por mais que eu goste do filme, de alguma forma é difícil falar sobre o filme sem ser redundante, especialmente um tão falado e comentado como esse. E longe de mim querer subestimar a inteligência dos nossos visitantes.

Uma coisa que jamais se deve fazer é misturar jornalismo com cinema. Digo isso no sentido que FAHRENHEIT 11 DE SETEMBRO não é jornalismo, é cinema. Porque uma coisa que me irrita é quando acusam Michael Moore de ser parcial, anti-ético e sensacionalista. O filme é dele! Ele pode ser o que ele quiser! É a visão dele sobre um determinado assunto. Tudo bem que ele não é lá muito correto em algumas de suas atitudes. Outro dia foi publicada quase uma página do jornal O Globo indicando onde Moore teria mudado ou acrescentado informações, ou mesmo tentado manipular a interprertação do espectador através da edição. E daí? É a mesma coisa dizer que Stanley Kubrick é um pervertido por ter feito Lolita. E quantos filmes nós já vimos sobre a Segunda Guerra Mundial mostrando a Alemanha como o próprio inferno e Hitler como o demônio? A visão de um diretor é dele. Nós é que escolhemos apoiá-la ou não.

Sinceramente, nesse caso, quem se importa? Michael Moore sempre deixou bem claro sua insatisfação com o governo Bush. Desde que ele anunciou que este filme seria seu próximo projeto durante o lançamento de Tiros em Columbine, ele dizia que sua intenção era tirar George W. da Casa Branca. E nesse filme percebe que ele está usando fogo contra fogo. Se Bush manipula os fatos, porque ele não faria o mesmo? Não que tal atitude seja justificável. Algumas das atitudes da atual administração americana são tão absurdas que mesmo sem mudar uma vírgula de lugar, ainda assim seria fácil colocar o povo contra o presidente. Mas Moore parece fazer isso mais pelo filme em si do que por princípio. Para dar ao filme mais leveza, mais ritmo. Para que você não saia do filme com raiva, mas esclarecido. Para que você rie, chore, se emocione, ao invés de simplesmente assistir a um noticiário de 122 minutos. Afinal, quem é que quer sair deprimido do cinema? Deprimido eu só saio mesmo de filme ruim. Dos outros, saio introspectivo, pensativo, até mesmo um dos filmes mais deprimentes que eu já vi, que é Irreversível de Gaspar Noe, ainda conseguiu virar o jogo nesse sentido.

Em discussões afora, ouvi um dizer que o filme desperta sentimentos anti-americanos. O historiador Sérgio Mitre retrucou dizendo que é mais contra o atual sistema capitalista, ou melhor, monetarista, que domina os Estados Unidos. Concordo, em partes, com ambas as observações. Afinal, pessoas diferentes pensam de modos diferentes. Eu não posso simplesmente discordar ou concordar com os dois, tenho que ver aonde nossas opiniões coincidem. Mas assim como Tiros em Columbine muda de direção no meio, senti a mesma coisa em FAHRENHEIT 11 DE SETEMBRO. Acho que o filme, que nos traz indignação sobre o governo americano e a manipulação econômica, ou sobre seus soldados que não sabem o que estão fazendo na guerra (mas estão lá, do mesmo jeito, brincando de Rambo). Mas acho que no fim das contas o filme pede a paz, pura e simples. Que não importa as consequências, não há dinheiro que pague pelas vidas das pessoas.

Mais importante: o filme mostra a guerra dentro da própria América. Como as pessoas, mesmo os que podem ser considerados patriotas, estão insatisfeitos com a situação. Que enquanto alguns decidem fechar os olhos e culpar os vizinhos, outros vêm que o problema é no próprio país.

Vá ver FAHRENHEIT 11 DE SETEMBRO não para ficar com raiva do Bush ou para tentar desbancar as "mentiras" do Michael Moore (se algumas informações estão incorretas, no contexto geral elas ainda fazem completo sentido). Vá ver como um bom documentário que dá uma idéia geral da situação da política e economia da maior potência mundial. E assim como Edward Furlong faz no final de A Outra História Americana, eu deixo aqui uma citação, já que não sei colocar de forma melhor.

"We are not enemies, but friends. We must not be enemies. Though passion may have strained it must not break our bonds of affection. The mystic chords of memory, stretching from every battlefield and patriot grave to every living heart and hearthstone all over this broad land, will yet swell the chorus of the Union, when again touched, as surely they will be, by the better angels of our nature."

Abraham Lincoln
Primeiro discurso à nação como presidente
4 de março de 1861

     

Direção:
Michael Moore

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