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Encontros
e Desencontros
(Lost in Translation, EUA, 2003)
Antes
de iniciar a resenha sobre Encontros e Desencontros,
gostaria de fazer uma pequena reclamação. O filme
demorou quase três semanas para chegar em Belo Horizonte!
A desculpa é sempre a mesma: falta de salas, mas se fosse
um blockbuster ou algo do estilo +
Velozes, + Furiosos tenho certeza que a distribuidora daria
um jeitinho de encaixar em alguma sala. Isso sem falar que até
hoje não me desce o fato de as versões estendidas
de O Senhor dos Anéis não terem sido exibidas
nos cinemas daqui.
Mas,
vamos falar do novo filme de Sofia Coppola...
Eu
não lembro direito onde vi o trailer de Encontros e Desencontros,
se foi antes de Simplesmente Amor ou de As Invasões
Bárbaras, o que me lembro é que na hora em que
bati o olho no trailer eu pensei comigo: putz, eu preciso
ver esse filme. Não sei explicar direito o que me chamou
a atenção naquele momento, mas tive a certeza de que
iria amá-lo. E é raro eu saber de antemão o
tanto que eu vou gostar de um filme.
Mas,
em relação a Encontros e Desencontros, felizmente,
estava certa. O filme é simplesmente genial e eu fiquei completamente
apaixonada.
Eu
já havia assistido ao filme anterior de Sofia Coppola, As
Virgens Suicidas, e gostei bastante do que vi, apesar de ter
achado o filme estranho (mas num bom sentido). Já Encontros
e Desencontros superou todas as minhas expectativas. Sofia
não é mais uma promissora promessa, mas se tornou
efetivamente uma talentosa diretora.
No
filme, Bill Murray vive o decadente ator Bob Harris,
famoso na década de 70, agora precisa se contentar com o
pouco prestígio que lhe resta e agarrar a oportunidade de
filmar um comercial de uísque por 2 milhões de dólares
no Japão. Já Scarlett Johansson,
do excelente Ghost World, é a jovem Charlotte, esposa
de um fotografo da moda (Giovanni Ribisi). Ela
está na Terra do Sol Nascente apenas acompanhando o marido,
que está que está fotografando uma banda de rock local.
Devido
a mudança de fuso horário, nenhum dos dois consegue
dormir. E por um acaso acabam se esbarrando no bar do hotel. A medida
que vão se conhecendo, o relacionamento dos dois vai se aprofundando.
E apesar de todas as diferenças entre eles: de idade, estilo
de vida, entre outras, ambos acabam se apaixonando. De certa forma,
Encontros e Desencontros é, em parte, uma história
de amor. Bob e Charlotte se amam, mas vivem esse amor não
da forma como estamos acostumados a ver no cinema.
Nas
mãos de um diretor e/ou roteirista menos talentoso ou mais
comercial, talvez Encontros e Desencontros se tornasse
um romance barato ao estilo Sabrina ou uma típica
comédia romântica, mas Sofia consegue transcender a
isso tudo criando uma história de amor papável e verdadeira.
É
claro que as atuações de Murray, mais contido que
o usual, e da talentosa Johansson contribuem e muito para tornar
as personagens consistentes e reais. Muito me espantará se
Murray sair de mãos vazias da cerimônia do Oscar deste
ano.
Mas
Encontros e Desencontros também é uma crônica
sobre esse momento atual em que vivemos. Momento de transição
e de contrastes entre o passado e presente, entre a cultura local
de um povo e o processo de globalização. Momento de
transição global e pessoal.
Alguns
críticos afirmaram que exatamente por isso o filme poderia
se passar em qualquer grande centro urbano do mundo. Não
sei se concordo. Acho que em qualquer outro lugar, Encontros
e Desencontros perderia seu impacto. O Japão é
o país mais emblemático quando se trata dessas contradições
atuais. Ao mesmo tempo em que se prende a suas tradições
milenares de modo tão veemente, é um dos povos mais
fascinados pela tecnologia em todo o planeta. Vivem em um presente
um tanto indefinido, com um pé no passado distante e outro
em um futuro que se aproxima mais rapidamente do que estamos preparados
para encarar. São o povo que mais representa essa sensação
de se estar perdido em uma transição (o Lost in
Translation do título original) pela qual todos passamos
atualmente.
Isso
no nível coletivo, pois no nível pessoal, também
passam por esse processo Bob e Charlotte. E talvez por terem consciência
dessa sensação é que tenham percebido em si
tantas afinidades. Lost in Translation é estar num
momento em que você não sabe exatamente o que fazer
de sua vida, qual caminho seguir, mais questionamentos que respostas
surgem dentro de você, mas você sabe que deve continuar
caminhando, apesar de não saber direito para onde. Creio
que qualquer um de nós sabe exatamente qual é a sensação.
O
fato de a história de passar no Japão também
acaba por refletir em outro ponto importante da história,
o já citado romance entre Charlotte e Bob. Como já
disse, o amor entre eles não é o que tipicamente vemos
no cinema, pois não se baseia no conceito de amor romântico
do Ocidente, de paixões arrebatadoras e ardentes. Acreditem
ou não, o romance dos protagonistas tem suas raízes
no conceito de amor do povo oriental, um pouco mais contido e reservado
para os nossos padrões. Para entender essa diferença,
só a título de exemplo, para o povo japonês
o ato de beijar é o início da relação
sexual e não deve ser praticado abertamente em público.
Não que o amor deles seja menor ou mais intenso que o nosso,
apenas a forma de demonstrar é diferente.
E Sofia
Coppola conhece bem essas nuances culturais, já que ela mesma,
tem uma ampla experiência com o povo japonês. Além
de diretora, ela é estilista e suas peças fazem muito
sucesso no Japão, para onde ela já viajou muitas e
muitas vezes.
Sem
dúvida ela acertou em construir a relação de
Bob e Charlotte da forma como fez, pois nos parece muito mais sincera
e real do que vê-los caindo de amores um nos braços
dos outros como Jack e Rose em Titanic. Seu romance é
mais crível e por isso mesmo torna mais fácil para
nós nos identificarmos com as personagens.
Encontros
e Desencontros é como um pedaço da vida real
destacado do mundo cotidiano e imortalizado em película:
é engraçado, mas ainda sim triste, é belo e,
entretanto, duro e cruel. É, enfim, essencialmente humano.
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Direção
e Roteiro:
Sofia Coppola
Com:
Bill Murray, Scarlett Johansson,
Catherine Lambert, Giovanni Ribisi, Yutaka Tadokoro, Anna Faris,
Fumihiro Hayashi, Hiroko Kawasaki
Cotação:
  
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