| |
|
Encantadora
de Baleias
(Whale Rider, Nova Zelândia/Alemanha, 2003)
Encantadora
de Baleias é um filme óbvio. Na hora
que você começa a assistí-lo, sabe exatamente
como vai terminar. E, ainda assim, essa é uma das inúmeras
qualidades do filme, pois se ele terminasse de outra forma, certamente
sairíamos do cinema decepcionados.
Contudo,
diferente do lugar comum das típicas produções
hollywoodianas comerciais, é o modo como a história
de desenvolve que a torna tão excepcional.
Encantadora
de Baleias conta a história da menina Pai (Keisha
Castle-Hughes). Membro de um grupo maori (o povo ancestral
da Nova Zelândia), ela perdeu a mãe e o irmão
gêmeo quando nasceu. Seu pai, após a tragédia,
perdeu seu rumo e decidiu partir, deixando a menina aos cuidados
de seus avós. A princípio, seu avô, Koro (Rawiri
Paratene), renega a menina, mas com o passar dos anos,
passa a amá-la, ainda que do seu modo rude e aparentemente
frio.
Koro
é líder de sua aldeia e, de acordo com a lenda, é
descendente do semideus Paikea, que cruzou os mares nas costas de
uma baleia para chegar a Nova Zelândia. Ele desejava um sucessor
masculino, um primogênito, capaz de conduzir seu povo a dias
mais prósperos e garantir a continuidade das tradições
e costumes dos maoris. Nem seu filho mais velho nem seu falecido
neto podem assumir seu lugar, e Koro, por se apegar rigidamente
às tradições que defende, não pode nem
sequer cogitar a possibilidade de passar o manto de liderança
para Pai pelo fato de ela ser mulher.
Koro
é um homem desesperado, que vê os costumes e história
de seu povo sumirem lentamente no processo quase brutal de aculturação
que passamos atualmente neste complexo mundo globalizado em que
vivemos.
Pai
ama o seu avô assim como também ama e respeita as tradições
maoris. Tudo o que ela quer é ver Koro feliz. E também
manter viva a cultura de seu povo. Sendo assim, mesmo contra a vontade
de seu avô, ela começa a aprender, escondida, tudo
o que um líder maori deve saber, inclusive a manejar a taiaha
(bastão de guerra típico dos maori), de uso exclusivamente
masculino. Enquanto isso, Koro procura um novo líder entre
os primogênitos de outras famílias da aldeia. È
claro que o embate entre os dois é inevitável e Pai
precisará mostrar seu valor ao avô.
Diversas
questões são levantadas durante o filme. Sem dúvida
a que mais chama atenção inicialmente diz respeito
exatamente ao drama dos povos tribais. Estes temem perder os laços
e a continuidade de sua cultura em um mundo cada vez mais consumista,
individualista e globalizado.
Mas
o que significa manter as tradições? É mantê-las
de forma inalterada, como a milhares de anos atrás, apenas
porque “sempre foi assim”, e correr o risco de perder
a sua verdadeira razão de ser, ou dar continuidade a ela
com pequenas alterações, mas mantendo sua essência,
significado e importância?
Pouco
antes de me formar fiz uma matéria chamada Psicologia
e Cultura, e um dos temas de que tratamos foi exatamente esse,
mas tendo em vista as tradições do interior mineiro.
E dessa discussão o que realmente me marcou foi o fato de
que uma das características mais importantes da tradição
vinha do dinamismo inerente a ela. Tradição é
algo vivo e implicado de significado para quem a pratica, sem isso
não temos tradição, temos uma casca vazia,
temos apenas alegoria.
E o
conflito central do filme é exatamente esse. Koro defendia
sem perceber a permanência das alegorias, enquanto Pai almejava
a continuidade da tradição.
Mas
as verdadeiras questões por trás do filme não
dizem respeito exclusivamente aos maoris: são universais.
Trata-se do processo de se aprender a viver, de se ter esperanças
de dias melhores e de que sempre é possível recomeçar
quando não esquecemos de quem somos e de que não estamos
sozinhos. É isso que Pai traz a seu povo: uma nova chance
de continuar e prosperar.
A aldeia
da menina é um lugar decadente e quase estéril no
começo da película. Graças a Pai o lugar ganha
um ar novo, como um jardim antes morto que agora tem grandes possibilidades
de gerar novas e belas flores. Não que física e economicamente
a aldeia mude num passe de mágica, mas o que muda é
a perspectiva daqueles que ali vivem.
Pensando
assim, e levando em consideração as devidas proporções,
talvez o filme que mais se aproxime de Encantadora de Baleias
seja o belíssimo O Jardim Secreto (a versão
produzida por Coppola), que trata de temas análogos aos do
filme neo-zeolandês. Encantadora de Baleias é,
enfim, uma sábia e belíssima fábula. E tendo
consciência disso, lamentei por alguns minutos o fato de não
ter nenhuma versão dublada da fita, pois seria um filme que
eu adoraria assistir com meu afilhado de sete anos. Mais belo e
rico que qualquer Abracadabra e Acquaria da vida.
Vale
também elogiar a forma respeitosa com a qual a diretora Niki
Caro tratou o povo maori, sem ser acadêmica ou enfadonha,
mas sim construindo um filme sensível e tocante para qualquer
público sem descaracterizar o povo maori ou estereotipá-los.
As
atuações são um espetáculo a parte,
em especial da menina Keisha Castle-Hughes, que merecidamente foi
indicada ao Oscar de melhor atriz. È quase certo que ela
não ganhará a estatueta, mas que ela merecia, merecia.
O filme,
que é baseado no romance do autor maori Witi Ihimaera,
foi aclamado em praticamente todos os países em que foi exibido,
obtendo prêmios em todos os principais festivais de cinema
que participou, incluindo o de Melhor Longa-metragem de Ficção
na Mostra de São Paulo de 2003. E com certeza, fez jus a
cada um deles. O filme é realmente excelente, e posso até
afirmar que, mesmo o ano tendo mal começado, posso considerá-lo
como um dos melhores filmes que vi em 2004.
|
|
|
|

Direção:
Niki Caro
Roteiro:
Niki Caro e Witi Ihimaera
Com:
Keisha Castle-Hughes, Rawiri
Paratene, Vicky Haughton, Cliff Curtis, Grant Roa, Mana Taumaunu,
Rachel House
Cotação:
  
|
|
|