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Embriagado
de Amor
(Punch-Drunk Love, EUA, 2002)
Por: Kas
Que
me perdoem os fãs de David Fincher, Darren Aronofsky, Irmãos
Wachowski, Bryan Singer, Wes Anderson, Wong Kar-Wai, M. Night Shyamalan,
Spike Jonze, François Ozon e mais alguns outros, mas Paul
Thomas Anderson é, ao lado de Peter Jackson, o maior
talento surgido no cinema nos últimos anos. O diretor e roteirista,
com pouco mais de 30 anos e com apenas 4 filmes no currículo,
se afirma como um dos cineastas mais expressivos, inteligentes e
consistentes da atualidade.
Desde
sua estréia vigorosa em Hard Eight e sua consagração
com Boogie Nights e Magnolia, P.T. Anderson construiu
uma carreira singular, apoiada numa visão bem depurada do
ato de filmar. Para Anderson, cinema é mais que contar histórias,
é brincar de Deus e criar um universo onde tudo pode acontecer,
daí o caráter imprevisível de seus filmes.
Mas brincar de Deus não é o que fazem todos os cineastas?
Teoricamente sim, mas poucos conseguem vislumbrar esse "poder"
que a cadeira de diretor dá e menos diretores ainda conseguem
fazer bom uso dele. Anderson trabalha com tramas passadas no "mundo
real", ou seja, não faz ficção científica
ou filmes de fantasia, como Peter Jackson, por exemplo. Mas enquanto
esse "mundo real" é uma amarra conceitual para
muitos diretores, que se prendem às leis da física,
da verossimilhança e do maldito "desenvolvimento de
personagens", para Anderson o "mundo real" é
um lugar tão mágico quanto a Terra Média. O
mundo real é o mundo do cinema, um espaço mítico
em que as leis são próprias e somente elas devem ser
respeitadas. Nesse mundo é permitido chover sapo para lavar
a alma dos angustiados pecadores, por exemplo. Paradoxalmente, ao
assumir o caráter mágico do cinema, Anderson se aproxima
da realidade.
Tome
Embriagado de Amor, último filme do cineasta,
como exemplo. Mesmo com todos os "absurdos" que acontecem
durante a trama, é uma comédia romântica bem
mais "realista" que todas as outras produzidas por Hollywood
nos últimos anos. Realista porque as emoções
são reais e porque a vida também é absurda
e imprevisível como no filme. Também temos os nossos
momentos de silêncio absoluto, de monotonia e insatisfação
quebrados por um acidente do destino que nos arremessa do nada ao
centro do ciclone.
O personagem
de Adam Sandler, o neurótico Barry Egan, sofre nas
mãos de suas sete (um número cabalístico) irmãs,
que lembram as três (outro número cabalístico)
bruxas do destino da mitologia grega. Só que o destino para
elas é a vida de Egan, que tentam reger a qualquer custo.
Para Barry, elas são as grades de sua prisão. Dentro
deste espaço controlado, Barry tem de se organizar racionalmente,
negando qualquer emoção que possa servir como válvula
de escape para sua fúria decorrente da frustração
acumulada com o passar dos anos. O que ele, na superfície,
vem conseguindo. Afinal, desde a infância, Barry não
tem acessos que lhe levam a quebrar tudo a sua volta. Até
que um dia acontece o tal "acidente" e toda essa ilusória
sensação de controle vai para o espaço. Pouco
a pouco, Barry vai retomando as rédeas de sua vida, a partir
do momento em que conhece Lena Leonard. Na verdade, ela é
que entra em sua gaiola. De uma hora pra outra, o mundo de sombras
e contrastes de Egan é invadido pelas cores singelas trazidas
pela descoberta da paixão.
A partir
daí, não é bom revelar mais nada, sob pena
de comprometer a trajetória curiosa de Barry rumo à
liberdade. É inevitável se identificar com o personagem,
é impossível não acreditar no amor sincero
que emana dos olhos de Lena.
E ao
final, mesmo tendo presenciado acidentes espetaculares de carro,
cenas de brigas homéricas, chantagens e extorsão,
que poderiam estar em qualquer thriller hollywoodiano, ou toques
que beiram o surrealismo, Embriagado de Amor continua sendo
para nós um filme "realista". Realista na ambição
e nos sentimentos. Poeticamente realista enfim.
Muito
do mérito desta identificação se deve aos atores,
todos magníficos. Não dá pra entender o porquê
de Adam Sandler embarcar em tantas comédias sofríveis
depois de vê-lo nesse filme. Ao contrário de Jim Carrey,
que mesmo em suas incursões dramáticas continua o
canastra de sempre, Sandler transmite cada nuance de seu personagem
com economia e serenidade. E é incrível a química
entre ele e Emma Watson, que faz Lena, vinda de uma linhagem
cinematográfica radicalmente oposta da de Sandler. Só
mesmo Anderson para imaginar que o protagonista de O Rei da Água
e O Paizão poderia combinar na tela com a atriz de
Ondas do Destino e Assassinato em Gosford Park.
A
crítica em geral sempre associou o trabalho de P.T. Anderson
(foto ao lado) ao de Robert Altman, principalmente devido ao gosto
de ambos em contar histórias com dezenas de personagens,
como em Boogie Nights e Magnolia. Mas pra mim, Martin
Scorsese é a referência imediata do cineasta, seja
no uso elegante do movimento de câmera, seja no controle absoluto
do ritmo da narrativa, seja no uso brilhante da trilha sonora (basta
conferir o que ele faz aqui com "He Needs Me", da trilha
de Popeye), seja na cinefilia exacerbada de ambos os cineastas.
Mas em Embriagado de Amor, Scorsese cede lugar ao cômico
francês Jacques Tati. Tudo no filme lembra os clássicos
de Tati: o uso expressivo das cores e do som, o humor surreal que
deriva mais do ambiente que cerca o personagem do que propriamente
dele, o ritmo cadenciado e controlado. Mesmo a caracterização
do personagem de Sandler lembra o eterno Monsieur Hulot, criação
imortal de Tati: ambos usam sempre com a mesmo figurino durante
todo o filme, por exemplo.
Embriagado
de Amor, que estréia no Brasil com bastante atraso, é
uma experiência original, onírica e deliciosa.
Não é porém para todos os gostos, como também
não são as iguarias raras. Mas quem provar, corre
o risco de se apaixonar.
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Direção:
Paul Thomas Anderson
Com:
Adam
Sandler, Emma Watson, Luiz Guzman, Philip Seymour Hoffman, Jason
Andrews, Don McManus, David Schrempf
Nota:
   
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