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Dois
Perdidos Numa Noite Suja
(Brasil, 2003)
Por: Gelogurte
"Quando
não se sabe por onde começar, começa-se pelo
começo", já dizia meu velho professor de
Matemática. O filme é sobre dois brasileiros, Tonho
(Roberto Bomtempo) e Paco (Débora
Falabella), morando nos EUA. Tonho é (ou era) faxineiro
enquanto Paco se prostitui fingindo ser um garoto para atrair homossexuais.
Os dois se conhecem em circunstâncias bizarras (não
vou entregar, vá ver o filme) e Tonho, solitário como
ele só, acaba levando Paco para morar com ele.
É
difícil começar a falar sobre Dois Perdidos
Numa Noite Suja. Algumas vezes ele parece ficar devendo
alguma coisa. Logo no início por exemplo. O filme começa
com Tonho numa prisão nos Estados Unidos. Logo de cara, primeiros
cinco minutos de filme, ele é estuprado na sala dos chuveiros
por uma gangue. É o tipo de coisa que todo mundo sabe que
acontece na prisão, mas sempre fica chocado ao ver. E o problema
é justamente esse, a gente não vê. Pode ser
um pouco de sadismo da minha parte mas a sensação
de ultraje, de revolta, normalmente tem que estar associada a uma
imagem. Como Edward Norton em A Outra História Americana.
É ver para crer. Não é todo filme que tem essa
necessidade, de mostrar fria e cruelmente um ato de tamanho violência,
mas o que seria de Acusados sem uma cena tão intensa
como a do estupro de Jodie Foster na máquina de fliperama?
Seria mais um filme para televisão, com Jane Seymour no papel
principal.
Não
que Dois Perdidos não seja um filme violento, porque
é. E muito. Em todos os níveis possíveis. É
a degradação do ser humano no seu auge, mas sem ser
visualmente explícito. E de vez em quando, o explícito,
o chocante, é necessário. E na minha opinião,
nesse caso, plenamente cabível. Ainda mais que que Paco brinca
com a então comprometida heterossexualidade de Tonho. Poderia
dar um pouco mais de luz sobre a atração que ele sente
por um personagem tão andrógino e acaba passando um
pouco despercebido. Mas isso é uma questão de gosto
muito pessoal. Talvez esse detalhe que tenha me desagradado venha
a agradar outros. E o filme não é tão sutil
assim. A prostituição de Paco é explorada e
visualizada muito bem. Mas de alguma forma eu esperava algo mais.
A
direção de José Joffily é
bem segura. Em termos de "historinha", o filme parece
se perder um pouco de vez em quando, tendo um aspecto quase teatral.
Mas como cinema não é simplesmente contar "historinha",
isso passa batido. É a direção dos atores que
merece o real destaque. Tonho é de Governador Valadares e
foi para os EUA em busca de dinheiro, de um rumo na vida, mas acaba
tendo que se contentar com salários e empregos miseráveis.
Vivido com simplicidade e sinceridade por Roberto Bomtempo, em uma
atuação contida e com uma tristeza profunda que dá
gosto de se ver. Ao ouvir a frase "Eu só quero um
amigo", principalmente para alguém que ele acabou
de conhecer e já convidou para ir morar junto, é tão
infantil e ingênuo que chega a ser bonito.
Mas
a estrela aqui é mesmo Débora Falabella. Confesso
de púlpito que não assisto novela e embaraçosamente
que não vou ao teatro tanto quanto gostaria, então
sou quase um alienado em relação à carreira
desta jovem atriz. Talvez seja por isso que eu tenha ficado tão
boquiaberto com sua atuação. Alguns atores são
sempre eles mesmos, outros são eles mesmos fazendo um personagem.
Falabella desaparece completamente. A moça que me pareceu
ser muito tímida, introvertida e elegante ao se dirigir à
platéia antes da sessão, é um furacão
na tela. Ela é Paco, com suas roupas largas e seu jeito de
moleque. E a facilidade com que ela vai de marginal para menininha
indefesa chega a ser impressionante. Ambas as facetas são
extremamente convincentes, nem parecem a mesma pessoa mas ainda
assim é ela. Nunca ficamos realmente sabendo por quê
Paco é quem é, faz o que faz, ou por quê exatamente
foi morar nos EUA. Ela é um quebra-cabeças ambulante,
cujas peças são espalhadas pelo filme. Nunca podemos
realmente definir a personagem, o que a torna muito mais atraente.
Tenho minhas teorias mas você vai ter que ir ver o filme e
fazer as suas.
Um
problema que eu tive com o filme foi na edição. Certas
partes são contadas em flashback, o que me deixou perdido
algumas vezes. Não sabia se o que estava vendo era uma memória
ou um fato atual. Faltou uma diferenciação. Não
que isso tenha muita importância pois o roteiro e o desenvolvimento
dos personagens resolve grande parte desse problema, mas ainda assim
me perdi e isso me incomoda muito. A fotografia é competente
e pode-se dizer convencional, o que não é um problema.
Às vezes, ousar demais atrapalha, principalmente em tempos
onde filmes cada vez mais se parecem com um longo videoclip. Aqui,
funciona muito bem, assim como a direção de arte e
os figurinos. Vendo Bomtempo caminhando pelas ruas de Nova York,
ficou claro como um mendigo se diferencia das outras pessoas sem
usar roupas completamente esfarrapadas e sujas como estamos acostumados
a ver por aqui. É uma mistura de cores e tipos que parece
mostrar que aquela pessoa está vestindo todas as roupas que
tem.
Em
um mundo tão competitivo e até mesmo egoísta
que vivemos, Dois Perdidos Numa Noite Suja é uma
história de amor. Não é cinematográfica,
apaixonante, sutil e singela como Embriagado de Amor. Mas
nem era pra ser! São filmes com intuitos completamente diferentes.
Enquanto Embriagado é para mim um filme que faz
qualquer cético voltar a acreditar em amor verdadeiro e paixão
à primeira vista, Dois Perdidos vai na direção
completamente oposta. Mas é sim, uma bela, suja, triste e
violenta história de amor.
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Direção:
José Joffily
Com:
Roberto Bomtempo, Débora
Falabella
Cotação:
   
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