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Diários
da Motocicleta
(The Motorcycle Diaries, Argentina/EUA/Inglaterra/Brasil,
2004)
Quem
assiste aos filmes de Walter Salles pode perceber
que existe na maioria deles pelo menos dois temas recorrentes:
(1) a busca de uma identidade e
(2) um processo de amadurecimento ou mudança vivido pela
personagem principal.
Infelizmente,
não cheguei a ver o primeiro filme de Salles, A Grande
Arte, nem O Primeiro Dia, que dirigiu ao lado de Daniella
Thomas. Entretanto, em todos os seus outros filmes essas duas temáticas
são trabalhadas de forma marcante. Neles encontramos um jovem,
um menino praticamente, cheio de sonhos, que por algum motivo acaba
por ter que encarar a dureza da realidade e tentar encontrar o seu
lugar no mundo a partir desse embate.
O estopim
de sua travessia pode ser a morte da mãe, como no caso de
Paco (Terra Estrangeira) e Josué (Central do
Brasil), ou a possibilidade da própria morte ou da morte
do irmão, nos casos de Tonho e Pacu (Abril Despedaçado).
A partir desse conflito, surge a necessidade de um posicionamento
dessa personagem, que acaba por tentar se descobrir. Se prestarmos
atenção, os filmes de Salles, pelo menos os que vi,
sempre são, no fundo, road movies, mesmo quando
não se passam o tempo todo na estrada. Não é
por acaso que Paco vai para Portugal em Terra Estrangeira,
ou que Josué cruza o Brasil atrás do pai em Central
do Brasil, ou que Tonho junta-se aos saltimbancos itinerantes
Clara e Salustiano por um tempo em Abril Despedaçado,
ou mesmo Pacu, no mesmo filme, "viaja" através
do seu livro de fábulas. São filmes sobre jornadas,
jornadas que são na realidade metáforas sobre a passagem
da infância para a vida adulta. Não se trata da perda
da inocência, mas de se tornar alguém diferente de
quem era no início de tudo. Alguém que consegue manter
parte daquele menino sonhador do começo da história,
mas que ainda assim se torna algo diferente, talvez mais forte,
mas certamente mais maduro e ciente de si mesmo. Porém, algumas
vezes, os resultados dessa empreitada beiram o trágico. Afinal,
a vida não é sempre feita de finais felizes.
Mas,
por que estou falando isso tudo?
Bem,
porque se olharmos atentamente, DIÁRIOS DE MOTOCICLETA
volta novamente a esse tema.
Independente
de se tratar da juventude de Ernesto "Che" Guevara, DIÁRIOS
DE MOTOCLICLETA também é um filme sobre um jovem que
se torna adulto, um jovem que também busca seu lugar no mundo.
E no caso de Guevara, que lugar!
Não
vou discutir aqui sobre os aspectos históricos ou míticos
envolvendo a figura de Guevara. Afinal, muito já se falou
sobre isso. E todos nós, até o mais cínico,
não consegue ficar impassível diante de Che, não
do homem que ele foi, mas do que ele representa: um sonhador e um
rebelde, alguém que ousou lutar por um mundo melhor (independente
dos meios que ele usou), morrendo por esse sonho. Che Guevara se
tornou algo íconico, quase arquetípico.
Não
por acaso, quando fui ver esse filme, em plena quinta a tarde (aproveitando
uma cortesia), a sala estava completamente apinhada de pessoas.
Todavia,
a proposta de Salles em DIÁRIOS é buscar o homem,
ou melhor, o menino, por trás do mito e o processo que o
fez tornar homem. O ponto de partida para conseguir captar isso?
Ora, novamente uma viagem. A viagem que Ernesto de La Serna (Gael
García Bernal) e seu amigo Alberto Granado (o ótimo
Rodrigo de la Serna) fizeram em 1952, cruzando
a América do Sul desde a Argentina até o Peru.
Algumas
vezes o diretor consegue se sair muito bem em seu intento. Dá
para perceber claramente a mudança de Ernesto no decorrer
da obra. No começo do filme, quando ele e seu amigo Alberto
iniciam a viagem na garupa de La Poderosa, Alberto é a figura
mais destacada, não sei se por ser mais velho ou mais espirituoso.
No começo do filme, é ele quem chama mais a atenção.
Mas, depois da "morte" da moto, quando precisam viajar
a pé, e a medida que vão entrando em contato com o
pobre povo da América do Sul e sua triste realidade, uma
transformação vísivel e gritante se opera em
Ernesto. E ele vai se tornando cada vez maior e mais presente na
película, quase suplantando Alberto.
Entretanto,
em alguns momentos, Salles erra um pouco a mão, talvez inconscientemente
por causa da força avassaladora do mito de Che. Infelizmente
a cena mais emblemática desse "defeito" trata de
uma parte crucial da história, quase no fim do filme, no
dia do aniversário de Ernesto, e que foi usada para simbolizar
a escolha de Che pelos desafortunados do América (não,
não é o discurso dele no aniversário. É
a que vem exatamente depois).
Não
nego que ela tenha ocorrido como mostrada no filme, mas o modo como
o diretor a concebeu, me pareceu um pouco forçação
de barra.
Outra
coisa que realmente me incomodou no filme foi um certo recurso usado
para reforçar a idéia de que Che interiorizou todas
as pobres almas com as quais cruzou durante a sua viagem a ponto
de mudar completamente o rumo de sua vida (e da História):
quando ele se refere a essas pessoas, ou pensa nelas, são
mostradas imagens delas em preto e branco, como fotografias "internas"
tiradas por Ernesto em sua viagem. Não consegui parar de
pensar em Sebastião Salgado quando vi essas imagens...
Não
entendam mal, eu gosto de Sebastião Salgado, o que realmente
me irritou nesse recurso foi a sua redundância. Pois no fim,
essas fotos "internas" se mostram completamente desnecessárias.
Já estava mais do que claro para mim e para qualquer espectador
a forma como essas pessoas foram profundamente importantes para
Che no momento em que ele as conheceu, seja por seus diálogos
com elas, seja pela troca de olhares ou a própria expressão
no rosto de Ernesto durante esses encontros. Nada mais precisava
ser dito ou mostrado para reforçar essa idéia.
Mas,
esses pequenes detalhes não são o suficiente para
estragar a competência e sensibilidade com que esse filme
foi realizado.
Quanto
aos aspectos técnicos do filme: fotografia, montagem, trilha,
como nos outros filmes de Salles, continuam impecáveis.
DIÁRIOS
DA MOTOCICLETA é sim o filme poético que prometia
ser desde que foi anunciado. É o melhor trabalho de Salles?
Certamente não sei dizer.
Contudo não deixa de ser um filme excepcional
e tocante, não porque se trata da história de Che
Guevara, e não apenas porque nos torna mais próximos
de Ernesto de La Serna, mas principalmente pelo motivo que ressaltei
no começo da resenha: por tratar de forma sincera temas como
a busca pela identidade e o amadurecimento pessoal.
Temas
essencialmente humanos, tão caros a todo e qualquer sujeito,
e capaz de realmente alcançar o menino por trás do
mito, tornando-o um de nós.
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Direção:
Walter Salles
Com:
Gael Garcia Bernal, Rodrigo
de la Serna, Jaime Azócar, Facundo Espinosa, Susana Lanteri,
Mia Maestro
Cotação:
  
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