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Desventuras
em Série
(Lemony Snicket's A Series of Unfortunate Events, EUA, 2004)
Se
vocês querem ler uma resenha sobre um filme para crianças
alegre e colorido podem procurar outro site. Vão ao GOOGLE
ver se encontram textos sobre algum daqueles milhares de filmes
que insistem em imitar (mal) a fórmula dos antigos filmes
da Disney, como o recente MAMÃE, VIREI UM PEIXE, ou ainda,
tentem encontrar algo sobre todos aqueles filmes com um menino e
seu cachorro (que podem ser trocados por macacos, papagaios e até
mesmo baleias) que quase todo ano são lançados no
cinema (ou diretamente em vídeo). É melhor irem embora,
pois falaremos a partir de agora de crianças que padecem
(e muito). Mas, se quiserem continuar, não digam que eu não
avisei, afinal, as linhas seguintes tratam de uma história
triste, sombria e cheia de eventos infelizes.
Há
não muito tempo atrás, nos idos dos anos 80, e ainda,
um pouco no comecinho dos anos 90, Hollywood foi invadida por uma
avalanche de produções infanto-juvenis que primavam
por sua qualidade e competência. Os gêneros não
eram necessariamente o mesmo. Tínhamos exemplares de cinema
de fantasia (como A HISTÓRIA SEM FIM ou LABIRINTO), aventura
(Os GOONIES), drama (O JARDIM SECRETO e A PRINCESINHA) e até
mesmo alguns com os pés bem fincados no terror (OS GAROTOS
PERDIDOS).
Mas
todos eles tinham alguns fortes pontos em comum: o primeiro diz
respeito ao fato de tratarem as crianças de forma inteligente,
o segundo era seu tom ao mesmo tempo um pouco mais sombrio e realista
(mesmo entre aqueles que tratavam explicitamente de fantasia), o
terceiro era a forma como lidavam sem pudor com temas um pouco mais
fortes como morte, violência, sofrimento ou solidão.
Mas,
sem nenhuma explicação, os filmes voltados para crianças,
ou talvez os filmes em geral, foram tomados por um pavor tão
grande de encarar temáticas que possam parecer perturbadoras
e instituíram para si uma série de tabus.
Em
entrevista recente para o site TWITCH
sobre seu filme MIRRORMASK, o escritor e roteirista Neil Gaiman
fez a seguinte afirmação:
“Eu
realmente fico chateado com a frase filme de família. Tento
explicar para as pessoas que MIRRORMASK é um filme de família
no sentido de que é algo que você poderia levar seu
filho pequeno, seu filho adolescente, sua mãe e seu pai para
assistirem. È um filme de família no sentido de que
todos poderiam assistir. (…) Mas, atualmente,"Família"
parece significar livre de qualquer conteúdo que possa fazer
você se sentir perturbado ou que dê a você coisas
para se lembrar. (...)”.
Concordo
plenamente com ele, o cinema atual passou a acreditar que as crianças
são ou burras ou frágeis demais. Investem em um politicamente
correto avassalador que acaba fazendo com que os filmes sejam insípidos,
chatos e insuportáveis. Esquecem que crianças e adolescentes
são seres inteligentes e muito mais fortes do que imaginamos.Tiram
todo esse conteúdo supostamente sombrio e transformam tudo
em um mundo cor-de-rosa irritante, que não engana ninguém
a não ser eles próprios.
Mas
o mundo real não é um lugar cor-de-rosa. E talvez
por isso, por não terem medo de serem sinceros quanto a isso
é que obras literárias como HARRY POTTER e DESVENTURAS
EM SÉRIE fazem tanto sucesso.
Felizmente,
parece que tal afirmativa pode ser aplicada às versões
cinematográficas dessas obras, que estão conseguindo
recuperar parte da ousadia dos clássicos dos anos 80 e 90.
Se
Chris Columbus ainda insistia em manter alguns “raios de sol”
nas suas adaptações dos livros de J.K. Rowling, Alfonso
Cuarón provou que poderia dar um passo maior, dando à
terceira (e melhor)
parte da saga do bruxo adolescente um clima mais sombrio e sério,
sem perder todo o lado mágico da história, muito pelo
contrário conseguindo reforçá-lo ainda mais.
A adaptação
de DESVENTURAS EM SÉRIE segue exatamente
pelo mesmo caminho e pode ser considerado quase tão bom quanto
HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN.
Invariavelmente,
as duas séries literárias são amplamente comparadas
entre si. Primeiro porque seus protagonistas são órfãos,
segundo porque são estrondosos sucessos de vendas.
Mas
as semelhanças param por aí. Enquanto Rowling tenta
construir um mundo de magia potencialmente real, Lemony
Snicket (pseudônimo de Daniel Handler)
faz o caminho contrário, cria um mundo real completamente
fantástico.
O mesmo
podemos dizer sobre as adaptações cinematográficas
dessas duas obras. Com exceção de não terem
medo do lado sombrio da vida, e das outras semelhanças já
apontadas, HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN e DESVENTURAS
EM SÉRIE têm muito pouco em comum.
Quem
leu pelo menos um pedaço dos livros de Snicket sabe que as
histórias primam por um humor negro meio bizarro e bastante
inteligente. As situações vividas pelos órfãos
Baudelaire são muitas vezes surreais, mas pelo modo como
são apresentadas se tornam completamente plausíveis
para o leitor (ou espectador)
Ver
(e ler) DESVENTURAS EM SÉRIE é quase
como entrar em um mundo que evoca ao mesmo tempo aqueles antigos
filmes do cinema mudo (em que a mocinha era amarrada no trilho do
trem, enquanto o vilão torcia seu bigodinho. Aliás,
tem uma seqüência sensacional no filme que é praticamente
uma recriação dessa situação), os antigos
filmes do Expressionismo Alemão (o vilão da história
lembra fisicamente NOSFERATU) ou os clássicos de terror (não
por acaso, em uma cena, o conde Olaf lê uma revista cuja capa
tem estampada a foto de Lou Chaney, o homem de várias faces)
e aqueles folhetins de aventuras e terror do final do século
XIX (os figurinos são ao estilo da moda desse período,
apesar da aparelhagem “moderna” que rodeia a todos,
como carros, fogões e geladeiras).
O grande
achado do filme foi exatamente conseguir recriar com perfeição
todo o clima dos livros de Snicket e ainda assim respeitar a linguagem
cinematográfica. A seqüência inicial é
um grande exemplo disso. Temos Snicket (vivido por Jude
Law) nos avisando logo de cara que aquele não seria
um filme alegre sobre o elfo cantante que aparece pulando e dançando
na tela, que se queríamos algo do gênero era melhor
sairmos do cinema, tal qual sua contraparte literária nos
previne no início de cada um dos volumes da série
sobre as tragédias que se seguirão no decorrer da
leitura. O filme é sobre os sofrimentos dos Baudelaire. E
como sofrem esses garotos.
Violet
(Emily Browning), Klaus (Liam Aiken)
e a bebê Sunny (papel dividido entre as gêmeas Kara
e Shelby Hoffman) recebem a triste notícia
de que seus pais morreram em um misterioso incêndio e passam
a ter como guardião o terrível Conde Olaf (Jim
Carrey), um ator canastrão e inescrupuloso que está
mais interessado no dinheiro que no bem-estar das crianças.
Ele faz os Baudelaire trabalharam como escravos em sua casa enquanto
planeja um modo de ficar com a fortuna dos três.
Mesmo
quando conseguem se livrar das garras pegajosas de Olaf, conseguindo
novos tutores (Tio Monty e Tia Josephine, vividos, respectivamente
por Billy Connolly e Meryl Streep),
a sombra da maldade de Olaf continua os perseguindo insistentemente.
E para
sobreviverem a esse furor assassino e ganancioso do Conde, os irmãos
só podem contar com eles próprios e com suas habilidades
especiais. Violet é a inventora da família, Klaus
gosta muito de livros e se lembra de tudo o que já leu, e
Sunny morde como ninguém.
O filme,
que mistura os três primeiros livros, costura bem as três
histórias, não perdendo o ritmo praticamente em nenhum
momento. Consegue equilibrar momentos de comédia, aventura
e terror. As crianças são um achado, e conseguem se
destacar em um elenco formado por grandes atores e estrelas. Nem
mesmo Jim Carrey, um pouco mais histriônico que o necessário,
atrapalha o clima do filme.
E visualmente,
DESVENTURAS EM SÉRIE é um espetáculo
a parte, tudo isso graças ao trabalho do diretor de fotografia
Emmanuel Lubezki, do designer de produção
Rick Heinrichs e da figurinista Colleen
Atwood, parceiros constantes do cineasta Tim Burton. Os
três conseguiram trazer para o filme parte do que fizeram
de melhor em seus trabalhos ao lado de Burton: o visual requintado
e gótico. Mas também conseguiram inserir algumas outras
características visuais referentes ao próprio estilo
dos livros originais (como os figurinos bem à moda do século
XIX).
Outra
grande surpresa são os créditos finais. Uma animação
sensacional, que por vezes faz papel de resumo dos “eventos
infelizes” mostrados no filme, mas que poderiam muito bem
ser consideradas quase uma nova obra.
DESVENTURAS
EM SÉRIE é realmente uma deliciosa surpresa.
Um apanhado de pequenos e grandes acertos. Enfim, um filme fenomenal
para quem não tem medo de um pouco de sombras ou de sentir
perturbado ou ainda levar para casa algumas lembranças desagradáveis
(e ainda assim gratificantes). Se não quiserem passar por
esse tipo de experiência, com certeza é preferível
verem o filme do elfozinho feliz. Mas vocês não sabem
o que vão estar perdendo...
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Direção:
Brad Silberling
Com:
Jim Carrey, Emily Browning,
Liam Aiken, Kara Hoffman, Shelby Hoffman, Timothy Spall, Billy Connolly,
Catherine O'Hara, Meryl Streep, Luis Guzman, Jude Law
Cotação:
  
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