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Cruzada
(Kingdom of Heaven, EUA, 2005)
Escrever
sobre um filme que você não gostou é uma tarefa
ingrata. Principalmente quando se trata de um diretor consagrado
pela crítica e público que só tem dois filmes
que eu realmente gosto: ALIEN e BLADE RUNNER. O resto eu considero
de divertidos (A LENDA, OS DUELISTAS, TORMENTA) a ruins (GLADIADOR,
1492), até alguns péssimos (ATÉ O LIMITE DA
HONRA, HANNIBAL) e que me perdoem os fãs de THELMA &
LOUISE. Quando começamos a falar, falamos mal. Nos concentramos
nos problemas do filme que, obviamente, se sobressaem aos acertos.
É o caso de CRUZADA, nova incursão
de Ridley Scott no gênero capa e espada.
Balian (Orlando Bloom) é um ferreiro que
acaba de perder a esposa e o filho (mais um herói amargurado
para a lista do Kas) cujo pai que ele nunca conheceu (Liam
Neeson) está nas cruzadas. Até que seu pai
reaparece e pede ao filho que se una a ele em uma viagem para Jerusalém.
E que o resto fique para quando você for ao cinema. Talvez,
algumas surpresas melhorem o seu divertimento.
Coisas
como o mau gosto visual de Scott, como a mania de sempre ter algo
voando pela tela seja isso neve, cinzas, fumaça, já
são esperadas de um diretor que não se renova. Aliás,
quando renova, piora, como as cenas de ação que são
completamente indecifráveis. A câmera entre os guerreiros,
balançando e tentando pegar tudo ao mesmo tempo, só
transforma o que poderia ser uma boa batalha em uma bagunça
sem sentido e sem graça. Claro, algumas cenas se salvam (como
uma rápida tomada aérea do primeiro confronto entre
o pequeno exército de Jerusalém e os muçulmanos)
ou a luta entre a caravana de Balian e os soldados da coroa, logo
no começo do filme.
Se
os maneirismos visuais de Scott fossem o único problema,
eles até poderiam ser ignorados. Afinal, já era de
se esperar. Só que o atual mau gosto do diretor para roteiros
continua. CRUZADA é uma série de
frases feitas após frases feitas. Cenas ridículas,
pobres, que servem apenas para que o protagonista possa encaixar
mais uma frase de efeito. E isso domina grande parte do filme, que
tenta explorar sua história mal contada ao invés de
simplesmente se tornar mais um caríssimo filme de ação.
Tudo isso discrepâncias históricas à parte.
Afinal, "a história é contada pelos seus vencedores",
como já dizia William Wallace. Tomar certas liberdades ocasionalmente
não faz mal à ninguém.
Pelo
menos o peso do nome Ridley Scott atrai bons atores. Por mais que
nenhum deles receba a atenção que merece, há
performances inspiradas de Neeson, David Thewlis
e Jeremy Irons. Não que qualquer um dos
três consiga dar uma atuação ruim, mesmo se
tentassem. A bela Eva Green, recém saída
de OS SONHADORES, também não
faz feio. Mas talvez a mais interessante atuação de
todo filme seja mesmo a de Edward Norton como o
rei de Jerusalém Baldwin IV, mesmo por baixo de uma máscara
durante todo o filme (ou será por causa disso?). Ghassan
Massoud como o rei Saladin também dá humanidade
a um papel ingrato.
Mas
nem sempre grandes nomes significam grande coisa. Brendan
Gleeson como o covarde e efeminado Reynald é um
erro de casting total, já que Gleeson é um
homem grande, com aparência bruta e que intimidaria o mais
bravo dos guerreiros. Seria necessário um grande diretor
de atores para salvar a personagem, o que Scott não é.
E por mais que não seja muito inovador o uso do ator em filmes
como TRÓIA, um capa e espada menos
pretensioso e mais eficiente mesmo não sendo um grande filme,
ou no subestimadíssimo GANGUES
DE NOVA YORK, pelo menos é mais adequado. Outro problema
é Marton Csokas como Guy de Lusignan, um
daqueles atores fadados a sempre ganhar o papel de vilão.
Se pelo menos fosse um vilão bem feito, carismático...
mas não. É o cliché do cliché, que usa
maneirismo atrás de maneirismo, praticamente repetindo seu
personagem em TRIPLO X. E e cá entre nós, quando o
seu vilão é igual ao vilão de um filme do Rob
Cohen, perca as esperanças. Não é à
toa que o vilão do próximo filme de Cohen, STEALTH,
seja um computador.
O
que nos leva ao protagonista Orlando Bloom, que tenta ser mais do
que apenas um rostinho bonito mas sem muito sucesso. Com uma direção
certeira, talvez o ator consiga um dia carregar um filme sozinho.
Ou pelo menos ser um bom coadjuvante, como o fez na trilogia O SENHOR
DOS ANÉIS e até mesmo no fraco PIRATAS
DO CARIBE: A MALDIÇÃO DO PÉROLA NEGRA,
onde tudo e todos acabaram ficando na sombra de Johnny Depp (afinal,
o que seria daquele filme sem o Capitão Jack Sparrow?). Mas
Bloom tem uma voz monotônica, seu olhar é inexpressivo.
Tudo isso até poderia ser usado por um grande diretor. Um
bom exemplo é Keanu Reeves que no início de sua carreira
sofria do mesmo problema e aprendeu a usar tais "defeitos"
a seu favor e criar uma presença física invejável.
O
fracasso de um filme como CRUZADA nas bilheterias
americanas é um atestado de sua mediocridade. Afinal, um
diretor queridinho de crítica e público, um ator do
momento, um elenco impecável e uma produção
multimilionária (cerca de US$ 130 milhões, sem contar
as despesas de publicidade) deveriam pelo menos garantir que o filme
se pague em sua terra natal. Mas nem isso. CRUZADA
também já é um fracasso econômico, faturando
pouco mais de US$ 41 milhões em suas primeiras três
semanas de exibição, vitais para a arrecadação
de qualquer filme, principalmente um que estreou logo antes do barulhento
STAR WARS - EPISÓDIO
III: A VINGANÇA DOS SITH. E o verão americano
mal começou. Por sorte, o tema do filme e o seu diretor têm
um apelo ainda maior fora dos EUA, que deve garantir uma boa bilheteria
mundo afora.
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Direção:
Ridley Scott
Com:
Orlando Bloom, Eva Green,
David Thewlis, Liam Neeson, Jeremy Irons, Marton Csokas, Brendan
Gleeson, Ghassan Massoud, Edward Norton
Cotação:
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