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As
Crônicas de Narnia: O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa
(The Chronicles of Narnia: The Lion, The Witch and the Wardrobe,
EUA, 2005)
Muito
se falou sobre a comparação entre AS CRÔNICAS
DE NÁRNIA e O SENHOR DOS ANÉIS. Um pouco
pelo fato de Lewis e Tolkien terem sido amigos, inclusive, ter sido
o último que praticamente converteu o primeiro aos preceitos
do catolicismo. Outro tanto porque as histórias de ambos
os escritores se passam em terras encantadas, povoadas por criaturas
fantásticas. Mas toda e qualquer semelhança entre
as obras dos dois escritores termina aí.
NÁRNIA
não é, nem nunca vai ser um SENHOR DOS ANÉIS,
e na verdade, nem deveria precisar sê-lo. A saga do Anel não
é um livro para crianças, embora, O HOBBIT, o precursor
da série, tenha sido concebido como tal. Mas quem já
teve o prazer de bater os olhos no texto de Tolkien, ou mesmo ver
as obras-primas que são os filmes de Peter Jackson sabe,
que, nem tanto pela complexidade do tema, mas pelo enfoque utilizado,
que, positivamente O SENHOR DOS ANÉIS não é
um filme/livro infantil.
Já
NÁRNIA, desde o começo, foi concebido
para ser uma história para crianças. O texto de Lewis
é menos rebuscado e detalhista que o de Tolkien (não
que isso seja um defeito), e o enfoque está principalmente
nas crianças que protagonizam a história, que em cenas
épicas de batalhas.
Então,
me pergunto, por que a insistência desta comparação?
Por que querer transformar NARNIA em uma versão
mirim dos filmes de Jackson?
Andrew
Adamson compreende até certo ponto que seu filme
não é O SENHOR DOS ANÉIS e faz uma adaptação
extremamente fiel deste segundo volume da série (o primeiro,
dentro da cronologia da série, é O SOBRINHO DO MAGO).
Não existe praticamente nenhuma situação no
filme que não tenha aparecido no livro.
E
o diretor acerta bastante, pelo menos no início da trama,
ao voltar seu enfoco ao ponto de vista das crianças Pensieve.
Ao explicitar o certo desalento que abate Lucy (Georgie
Henley), Edmund (Skandar Keynes), Susan
(Anna Popplewell) e Peter (William Moseley)
ao serem enviados pela mãe para a casa de um professor, no
interior da Inglaterra, para ficarem protegidos dos contínuos
ataques aéreos que assolam as grandes cidades inglesas, em
especial Londres, durante a Segunda Grande Guerra. Um lugar estranho
(talvez até mais que a terra mágica que os aguarda),
com regras rígidas, e pessoas, a principio, não muito
amistosas. Um sentimento de inadequação acaba por
tomar conta das crianças, que tentam, se adaptar, ao seu
modo, à situação.
E
é exatamente esse sentimento que reforça o olhar de
encanto e deslumbramento dos irmãos ao encontrarem Narnia,
em especial a pequena Lucy (que é, sem dúvida, a mais
carismática dos quatro e conquista o espectador com um simples
sorriso). É a garotinha quem encontra a passagem no guarda-roupa
que dá passagem ao mundo de Nárnia, cujo governo foi
usurpado pela Feiticeira Branca (Tilda Swinton,
que dá um show).
É
engraçado perceber que, mesmo em um mundo recoberto de neve,
perseguidos por uma bruxa má, as crianças se sentem
mais em casa que na casa que supostamente deveria servir de abrigo
para eles.
Mas
os acertos de Adamson terminam aí. Ele não peca pela
extrema fidelidade, tampouco pela reverência que demonstra
pela obra de Lewis. Seu erro está em uma inexplicável
necessidade de agradar a gregos e troianos.
Primeiro,
porque, mesmo sabendo que NARNIA não é
O SENHOR DOS ANÉIS, ele insiste em tomadas que lembram muito
as dos filmes de Jackson. Algumas das seqüências em que
os irmãos estão fugindo da Feiticeira parecem quase
recriações da travessia dos membros da Sociedade do
Anel no filme homônimo.
E também temos a cena da grande batalha entre o exército
de Aslan (o leão que por direito seria o governante de Nárnia,
magnificamente dublado por Liam Neeson) e o exército
da Feiticeira, que no livro não passa de um pequeno trecho,
mas no filme é estendido por longas e grandiosas seqüências.
Mas
ainda assim, esse é um pecado relativamente perdoável.
O problema maior está no desejo de fazer um filme "família".
Não existe momento nenhum do filme em que se passe realmente
a idéia de que as personagens estão em perigo, uma
sensação de urgência, algo que faça a
guerra se mostrar como algo inevitável, ou mesmo um momento
que nos faça prender o fôlego e apertar as mãos
de ansiedade, mesmo sabendo que no fim tudo vai dar certo.
Não
digo que NARNIA é um filme ruim. Na verdade,
é bastante bem feito, a maioria dos efeitos especiais é
competente, especialmente na composição dos animais.
O leão Aslan ficou magnífico e ainda estou apaixonada
pelos grifos. Porém, em alguns momentos, os demais efeitos
que não estão envolvidos na construção
dos animais deixam um pouco a desejar, mas nada imperdoável.
O
que falta a NARNIA é um momento que suscite
ao espectador uma sensação de enlevo e entrega total,
que o faça mergulhar de cabeça na magia e o faça
se apaixonar completamente por suas personagens. AS CRÔNICAS
DE NARNIA é um bom filme, mas poderia ser muito,
muito melhor, se Adamson soubesse ousar mais e imprimir mais personalidade
ao filme, ao invés de utilizar fórmulas já
testadas que não necessariamente condizem com o tom pedido
pela história.
Um
bom entretenimento, porém uma promessa apenas parcialmente
cumprida.
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Direção:
Andrew Adamson
Com:
Georgie Henley, William Moseley, Skandar Keynes, Anna Popplewell,
Tilda Swinton, James McAvoy, Shane Rangi, Patrick Kake, Elizabeth
Hawthorne
Cotação:
  
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