Confissões de uma Mente Perigosa (Confessions of a Dangerous Mind, EUA, 2002)
Por: NIC1138

Confissões de uma Mente Perigosa é um filme que eu recomendo antes de dizer se gostei ou não de assisti-lo.

O filme é baseado na autobiografia excêntrica de Chuck Barris, produtor de TV que inventou programas que tiveram muito sucesso na década de 50. Chuck afirma em seu livro que na mesma época em que criava seus programas ele era um assassino contratado pela CIA.

A adaptação foi feita pelo admirável Charlie Kaufman, autor de Quero Ser John Malkovich e do excelente Adaptação. Foi basicamente isso que me convenceu de assistir ao filme, além da curiosidade em saber como George Clooney se sairia na sua estréia como diretor de cinema.

A história é realmente interessante. É claro que dá uma vontade tremenda de acusar o filme de ser um replay de Uma Mente Brilhante - em que o protagonista tem alucinações de que é contratado pelo governo para desbaratar um plano dos soviéticos para lavar a mente do povo americano - mas por outro lado a história é original, então o melhor é relevar. Mesmo porque não é um filme daqueles de se entender o que aconteceu. Não dá pra saber se o Chuck era mesmo agente da CIA ou não, como não dá pra saber no livro nem na vida real, e isso é um mérito do filme.

Ao meu ver isso foi mais uma evolução na ousadia de Holywood. O passo anterior foi com Clube da Luta, que também narra uma história do ponto de vista distorcido de um personagem. Entretanto nessa história tudo se explica no final, de um jeito meio Scooby-Doo de ser.

Por falar em Clube da Luta, Confissões é mais um daqueles filmes em que as cores são levemente distorcidas o tempo todo, como em Matrix e nos clipes do Metallica, Madonna e CPM-22 (Não ouso colocar O Senhor dos Anéis no mesmo saco).

Por falar em distorções de cores, fica aqui a minha repreensão pelas seqüências ambientadas no México. Ficou tudo IDÊNTICO às cenas passadas no México no filme Traffic de Steven Soderbergh, que foi um dos (seis) produtores executivos de Confissões. Além de ser tudo distorcido para o amarelo, as casas desertas e os morros são todos muito parecidos com os de Traffic. Eu me pergunto se aquilo não é alguma cidade situada a alguns poucos quilômetros do estúdio, que eles usam como uma "little-Tijuana". No final das contas não dá pra saber se foi uma citação clara ao filme de Soderbergh, se foi algum tipo de piada, ou se foi uma reciclagem descarada que não era pra ser percebida.

Quanto às tomadas do filme, eu pude classificá-las em dois tipos: O primeiro são as tomadas ousadas e poéticas, que deram a impressão a muitas pessoas de que esse filme "é muito lento". Algumas tomadas são interessantes sim, mas pareceram um pouco despropositadas... Como se não tivessem sido concebidas, escritas ou dirigidas pelas mesmas pessoas que fizeram o resto do filme. Sabe quando tem uma cena de amor no meio de um filme e dá pra perceber que ela foi feita por um departamento especializado do estúdio? No Gangues de Nova York isso é bem claro. Pois é. Acho que George Clooney tava a fim de fazer umas tomadas assim, aí deixaram ele inserí-las no filme. Aliás, tem uma que é esquisitíssima, que eu não consegui digerir ainda... Na hora que o Barris vai pedir o formulário lá pra secretária, inventaram de filmar o teto da sala, e só um pedaço da testa do cara, que chega a sair do enquadramento umas vezes. Ok, George, eu não preciso que as coisas façam sentido, mas é que esse tipo de experimentação jogada sozinha no meio do filme fica meio bobo.

O outro tipo são tomadas de novela, estilo plano e contra-plano. Tomadas em que os personagens dialogam, e então filma-se a cara das pessoas falando. Se tem uma reunião, filma-se os membros da reunião falando. Se tem um casal, filma-se quem está falando, ou então os dois personagens... Tudo parece um grande telejornal sem graça em que os personagens dão notícia do que eles sentem. Não sei porque fiquei com essa impressão sobre esse filme. Falta alguma coisa muito sutil.

Pega As Horas, por exemplo, naquela parte em que a vizinha vai contar pra outra que está indo pro hospital, antes delas se beijarem e lançarem a moda desse Oscar. O diretor daquele filme, Stephen Daldry, conseguiu filmar o diálogo, mas ao mesmo tempo conseguiu deixar todo mundo maravilhado com a fantástica ambientação anos 50 que eles conseguiram fazer! Aquela cozinha ficou muito boa, aqueles vestidos são maravilhosos, a casa é um espetáculo!! O Confissões é passado na mesma época, e dá pra ver que o figurino também foi razoavelmente bem-elaborado. No entanto, não dá pra prestar atenção no figurino... Parece que não deram espaço pra ele no final das contas, todo o espaço da tela e do tempo foi consumido pelos atores atuando.

Atuações, aliás, que são muito boas. O Rutger Hauer, principalmente, eu achei fantástico. Quanto ao George Clooney, ele poderia ter sido substituído por qualquer um de bigode - quem sabe a Salma Hayek? :> Acho que ele quis apenas aparecer no filme, num jeito Alfred Hitchcock de ser.

Em suma, este filme é um bom passatempo, mas se você quer conhecer o melhor de George Clooney e Charlie Kaufman, assistam antes a Solaris (protagonizado pelo primeiro) e Adaptação (escrito pelo segundo). Aliás, é sempre interessante procurar características dos autores que estão presentes em todas as suas obras. Charlie Kaufman tem uma clara predileção por retratar personagens que se sentem derrotados ou logrados pela vida, de um jeito que eu pessoalmente tenho gostado muito. George Clooney por enquanto só mostrou que gosta de filmar bunda de homem! Tanto nesse filme quanto no Solaris existem cenas marcantes em que aparece algum homem pelado de costas!! A arte é mesmo capaz das mais diversas sutilezas... .

     

Direção:
George Clooney

Roteiro:
Charles Kaufman

Com: Sam Rockwell, Drew Barrymore, Julia Roberts, George Clooney, Rutger Hauer, Brad Pitt, Matt Damon